Coluna | Thiago Suman: Mais ARTE, menos ENART

Thiago Suman

Sou crítico voraz das cartilhas e regramentos engessados de um arregimentador de cultura, um mensurador dos níveis de arte, um censurador das manifestações e proposições espontâneas da temporalidade mutante das coisas ligadas ao fenômeno artístico. Falo do tal Movimento Tradicionalista Gaúcho, o MTG, e seus organismos de acinturamento cultural.

Nenhum movimento tem legitimidade para debulhar a aparição de novas correntes no tocante ao movediço enquadramento do mosaico-arte que está impregnado na tela da contemporaneidade, mas que aqui no estado se faz esfumaçado e esmaecido, pela necessidade de colorir esse retrato, única e exclusivamente, com as tintas do passado estanque.

Cultuar tradição é modelar os rituais de batismo dos usos e costumes, mas sabendo sempre, dialogar com o indivíduo do seu tempo. Foi assim com a trova cubana, com o tango e sua nova batida eletrônica, com o condensamento das propostas do sertanejo e do forró, que são manifestos terrunhos e que não tiveram medo de conversar com novidades no vestuário, nos arranjos e na remodelagem do modo de propagar seus regionalismos. Mantiveram vivos seus sotaques, abarcaram outras gerações.

O MTG tem sua matriz no confeito de um livreto ditatorial, que presume, na presunção dos coronéis de campo e gabinete, que a dança, a música, a poesia e demais variantes, catalisadores do manifesto regional do sul do Brasil, deve se dar, desde que enquadrado na sua redoma, linha a linha, item a item. Um movimento burocrata, autoritário, machista, ditatorial, regrador em sua gênese, flertador com a cultura que precisa ser discutida e não simplesmente deglutida.

Esse homem de campo, que é mitificado, possui mais reflexos do que o simples centauro hercúleo de uma pampa desbravada. O êxodo retratado por Cyro Martins e que rendeu o mesmo desnivelamento social que aplacou retirantes nordestinos, está aqui. Não se fala sobre isso. N’outra ponta, o senhor estancieiro, retratado como um garboso, bem vestido e empoderado gaúcho, foi também o latifundiário escravocrata, responsável por desníveis, que hoje assolam uma série de regiões empobrecidas do estado.

Cultuamos quem? Quem querem que cultuemos? Pra quem servem essas regras? Quem determina e gera os nuances limites do que é ou não legitimamente gaúcho ou cultural?

A aversão ao estrangeirismo catapulta uma xenofobia assustadora e a imersão de quem está sob a égide desse movimento não percebe. A cultura é cosmopolita em sua natureza. Rejeitar isso com medo de penetração de outras influências, é estrangular a possibilidade de nossa cultura sair da crisálida e seguir o processo natural de transformação.

Quanto mais pesquiso manifestações artísticas mundiais, mais vejo esse senhorio dominador da comunidade cultural do RS ser responsável pelo esvaziamento das fileiras de manutenção dessa catarse artística. É inquietante e incomodativa a sujeição de quem se sente retraído em questionar os ditames, pela vontade de se manter “praticante do gauchismo, do tradicionalismo ou do nativismo”.

Existe um uníssono de gritos sufocados pelo medo de sanção. Isso é um comportamento que não cabe a nenhum sistema regulatório, quiçá um que é pachorrento a ponto de qualificar ou não o pertencimento do indivíduo no seio cultural. Essa divisão também me intriga: O campeirismo, o nativismo, o regionalismo e o tradicionalismo. São castas que se criaram e que deveriam capitular a formação de uma identidade e percebo muito mais um afastamento intersocial desses mecanismos do que o fortalecimento de uma presença autônoma do pertencimento ao núcleo regional.

Nossa história, de 300 anos de luta de fronteira, poluída pela marginalização de algumas figuras que ficaram de fora das páginas dos livros e secundarizadas nas bíblias cetegianas, como os índios, os negros e outros, somada ao patriarcalismo doutrinal, foi toda catalogada em meados dos anos 60 e no auge desse período – ainda dominado por valores reforçadamente tradicionais – acabou não servindo de ponte para as próximas gerações e sim como um culto cego ao passado que não ecoa.

O oxigênio que manterá respirando os agentes culturais, que apregoam os valores do povo sulino, se dará com a revisão do “Mein Kampf pampeano” e só se dará no tempo em que caírem os pilares que se intitulam movimento e essa arte se propague sem nenhuma institucionalização.

THIAGO SUMAN
26 anos, natural de Porto Alegre, radialista, indicado cinco vezes consecutivas ao Prêmio Press de Jornalismo. Narrador e apresentador da Rádio Grenal, e também professor de filosofia dos cursos pré-vestibulares Fenix e Unificado. Como compositor, com 11 anos de trajetória, assoma mais de 100 registros em CDs, tendo sido consagrado vencedor do maior festival de música do Rio Grande do Sul, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, em 2009. .

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