Submissão ou liberdade

Carlos Garcia

SubmissaoO livro Submissão, de Michel Houellebecq (Alfaguara, 2015), tem como pano de fundo a acensão imaginária de um partido muçulmano à presidência francesa no ano de 2022. Na semana do lançamento, o jornal satírico Charlie Hebdo publicou em sua capa uma charge do autor e sua sede sofreu um atentado terrorista. Com o episódio, a imagem do livro ficou ligada à provocação ao islamismo. Mas a proposta apresentada no romance é mais do que isso.

Michel Houellebecq mostra o quanto o modelo de vida da sociedade europeia está desgastado. E como pode ser fácil quebrá-lo.

Para tanto, o escritor francês alça François ao posto de personagem principal. Trata-se de um professor de literatura, que conta a história em primeira pessoa, queixando-se das suas angústias existenciais.

Especialista na obra de Jorys-Karl Huysmans, François tem na profissão um dos poucos estímulos de vida. Não que dar aulas seja sua paixão. Mas, sim, a relação com o escritor do século dezenove. E sua vida, em alguns aspectos, acaba tomando o mesmo rumo da de Huysmans.

Aproveitando-se da profissão e do ambiente universitário, o protagonista tem como entretenimento a relação com algumas de suas alunas. O que não passa de uma busca dele por sexo. Tanto que, no momento que ele deixa de dar aula, começa a se encontrar com prostitutas. E esses relacionamentos vazios parecem ser, na verdade, uma válvula de escape para sua falta de amizades e amores. Nem mesmo com seus pais ele consegue manter um vínculo afetivo. Somente Myriam, a última aluna com quem teve um caso, parece mexer um pouco com seus sentimentos. Ou, pelo menos, ele tenta acreditar nisso.

Enquanto François vai vivendo seu cotidiano entre a literatura e os casos com estudantes, a França passa por uma transformação no pensamento político e filosófico, ocasionada pela ascensão muçulmana. É nesse ponto que os franceses quebram o tradicional modelo político de esqueda-centro-direita, que consequentemente mudará todo o estilo de vida. O partido islâmico é eleito e o país passa por mudanças efetivas.

O narrador-protagonista faz alguns comentários sobre o assunto, mas só se aprofunda, claro, quando as mudanças passam a afetá-lo diretamente. Como a universidade em que leciona passa a ser administrada por muçulmanos, ele é convidado a se aposentar. Sem a literatura e as alunas, François se desgosta totalmente de viver e, assim como Huysmans, tenta encontrar ajuda na religiosidade.

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A história de Submissão é, de modo geral, linear e sem sobressaltos. Só ganha um pouco mais de gás nos momentos finais, quando a transformação da sociedade atinge François . Os excessivos apostos, entre-vírgulas e entre-travessões não deixam o texto lento, como pode parecer. Ao contrário. Mesmo cheio de curvas, as frases são bem colocadas e costuradas, deixando o texto rápido.

É possível interpretar a narrativa de Houellebecq como um prognóstico de uma possível mudança na realidade do ocidente. As melhorias implantadas pelo fictício partido islâmico sufocam a tão prezada liberdade da sociedade ocidental. E são consideradas melhorias somente sob o olhar masculino. O ponto de vista das mulheres, que têm a liberdade muito mais afetada, foi pouco explorado pelo autor.

Ainda assim, a pergunta que fica é: será que a civilização ocidental teria forçar para se reinventar ou aceitaria naturalmente a submissão?

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