Terra e Plutão: a importância de uma fotografia

Caio de Carvalho Proença

Quando o homem pisou na Lua, em 1969, e quando apenas orbitou pela Lua em 1968, várias fotografias da Terra foram feitas utilizando a máquina de médio formato Hasselblad 500C. Essas fotografias seriam apresentadas ao mundo pela primeira vez em escala massiva e midiática, e seriam lembradas diversas vezes na História. Nesta segunda-feira tivemos o privilégio de ver, pela primeira vez, o lado até então desconhecido de Plutão. Essa fotografia, por mais banal que possa parecer, nos remete à uma história da fotografia no espaço, e pode servir de reflexão para outros temas.

terra vista da lua em imagem de 1968 durante missão apolo 8

Fotografia da Terra, feita pela Apollo 8 em 1968. Crédito: NASA

O planeta Terra já foi fotografado diversas vezes, porém, desde 1969 não possuíamos uma fotografia com uma nitidez do nosso Planeta. Apenas de 1972, quando a Apollo 17 parte em sua missão, é que veríamos uma fotografia do Planeta em seu tamanho completo (conhecida como Pérola Azul). Antes disso, em 1946, com o fim da Segunda Guerra mundial, os Estados Unidos utilizariam a sonda alemã Vergeltungswaffe 2 (mais conhecida como V-2) para fotografar no espaço o planeta Terra pela primeira vez na História. A Terra foi fotografada também em 1963, pela sonda Lunar Orbiter 1, mas não tão difundida na época.

Hoje podemos dizer que foto de 1969 da Terra já se tornou uma imagem banal no nosso cotidiano, pois o homem está sempre indo ao Espaço em missões para realizar ajustes em satélites, estações espaciais e estudos. E a imagem do planeta entrou no imaginário social e nunca mais foi esquecida. Em livros didáticos, crianças são apresentadas à essa imagem desde seus primeiros anos. É uma fotografia que faz parte da nossa vida.

primeira foto da terra feita no espaço

Fotografia da Terra feita pela V-2 / Applied Physics Laboratory

primeira foto da circunferência completa da Terra

Primeira foto completa da Terra, feita pela Apollo 17 / NASA

A imagem do planeta Terra se tornou, também, um ícone dentro da história da fotografia. Assim como diversas outras fotografias possuem o caráter de ícone, como a fotografia feita por Alberto Korda, de Che Guevara; o rosto de Marilyn Diptych Monroe reproduzido por Andy Warhol em 1962; a fotografia da menina segurando uma flor em frente a baioneta da guarda nacional no Pentágono em 1967, por Marc Riboud, etc.. A fotografia da Terra, porém, possuiria um caráter diferente: ela seria apropriada por todos, pois ali vivemos, e ali morreríamos.

Quando a NASA apresentou, em 2006, o projeto de enviar uma sonda para explorar Plutão, o mundo não deu tanta importância – em meio à diversas outras notícias, esta se tornou “mais uma”. Plutão, mantém sempre um de seus lados visível, enquanto a um de seus lados se mantém “invisível” daqui da Terra (da mesma forma que a nossa Lua, vemos sempre apenas uma lado dela). Isso se deve à influência gravitacional entre Plutão e sua Lua, Caronte.

Assim, uma imagem apresentando o “lado escuro”, ou “invisível” de Plutão não era ainda conhecida por nós. Não de maneira nítida como agora. Nesta segunda-feira (13 de Julho de 2015), a NASA recebeu uma fotografia do lado “escuro” de Plutão, enviada pela sonda dias atrás. Esta fotografia apresentaria ao mundo o que antes não conhecíamos. Vejo essa imagem como uma fotografia com um potencial semelhante à fotografia da Terra de 1969, ainda que não de mesma proporção.

foto de plutão capturada pela sonda new horizon em julho de 2015

Fotografia do lado desconhecido de Plutão. Crédito: NASA.

O ato de olhar uma fotografia hoje, dentro de tantas milhares de imagens que vemos todos os dias, pode parecer banal. Ainda mais de um planeta tão distante e pequeno como Plutão. Porém, tomar um pouco de tempo para observar o potencial desta fotografia poderá nos abrir os olhos para como a nossa vida está em um ritmo acelerado de recepção de outras imagens. Vivemos hoje, conforme diversos estudiosos apontam, um momento de explosão do imaginário visual. Um boom de imagens nos é apresentado cotidianamente, e acabamos não prestando atenção em algumas imagens no nosso dia-a-dia.

Esta imagem de Plutão, além de ser desconhecida pelo ser humano até segunda-feira passada, nos apresenta a capacidade de exploração que ainda possuímos. Ainda que possa ser questionado, estamos diante de uma imagem que irá, de uma forma ou de outra, entrar para a história. Uma imagem que não é mais desconhecida pelo ser humano – assim como a Terra era antes de 1946.

Tornou-se visível para nós, o que antes era invisível. Diante da imagem, conforme o pesquisador francês Georges Didi-Huberman apresenta, estamos também diante do tempo. Apesar de que nosso tempo diante de imagens ainda seja superficial e muito rápido, apreciar o fato da criação de uma imagem, até então desconhecida pelo ser humano, é algo precioso. Todas as fotografias feitas hoje possuem, dentre uma variedade de outros significados, a sua capacidade de nos apresentar o inusitado; o que era antes invisível. O trabalho de pesquisadores (como o caso da NASA), de fotojornalistas (vistos em diversos veículos de informação atual) e fotodocumentaristas, possui hoje um objetivo em comum: apresentar o inusitado, o que você, no conforto de sua casa, escritório ou de outro ambiente, não conseguiria ver se não fosse o trabalho deles.

Procure olhar mais imagens, e tentar compreender a importância de cada uma. Cada fotografia hoje, possui algum significado próprio. Nem tudo é bonito, e nem tudo mostra o inusitado como foi mostrado pela NASA, mas todas possuem uma história.

caio de carvalho

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2 Comments

  1. Deveriam ir estudar os oceanos.Nao sabemos quase nada sobre eles e estao bem mais perto.

  2. A fotografia sem dúvidas é uma das partes mais importantes do cinema. Paticularmente, filmes com uma fotografia espetacular já ganham meu gosto desde os instantes iniciais

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