Thiago Suman | A cena musical de Porto Alegre está ferida

Rua da República, na Cidade Baixa (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Thiago Suman

A cena musical de Porto Alegre está ferida. Há muito anda encostada num canto escuro, lambendo feridas de todos os açoites que a comunidade e o poder público impuseram como chicote e que esvazia as prateleiras da cultura local.

A começar pelo ringue de pugilato que se tornou o bairro boêmio Cidade Baixa. Uma Lapa acanhada, uma Vila Madalena tímida, guardadas as proporções, a CB sempre resistiu como espaço no livre manifesto da música popular brasileira, dos recantos de musica regional e nativa e até da estética da pop, da sonoridade hype do momento.

O espaço CB sobreviveu, e muito, minguando miséria de oportunidades e pelejando por valorização que raramente chega. Dos últimos 5 ou 4 anos pra cá, foi ficando esquálido e raquítico esse pertencimento do bairro que nasceu pra respirar arte.

Isso explicita um entrave social, que parte, sobretudo, da iniciativa de moradores que não acatam a identidade desse coração da cidade, violentou a cultura local, extinguiu iniciativas de shows, quebrou bares, barrou, em mordaças de lei de silêncio, o grito cantado para as multidões que se alimentam da arte – quem produz e quem consome.

Artistas reduziram suas cartucheiras em seus espaços de atuação, muitos partiram da cidade pra tentarem aconchego nos centros do eixo Rio-São Paulo, que, por cosmopolitas, conseguem repartir o pão na proposta artística e comercial. E quando não é, por sua vez, a provinciana queda de braço contra os forasteiros que escolheram o bairro, mas que sequer perguntaram ao chão aonde estão, o que ele conclama, ao contrário, aí vem a rasteira governamental.

As proposições da gestão empresarial da Prefeitura da cidade que aclimata o discurso e a ideologia somente na construção do empreendedorismo e despetala a cena artística, por seu turno, tira o quinhão de músicos, cantores e microempresários, afasta o público do seio da arte, sequestra o direito de formação social e geração da capacidade crítica e motora dos elementos constituintes do povo em seu tempo e espaço.

E fora o bairro “carro chefe”, a cidade estrangula outros redutos artísticos, desbarata-se em estocadas musicais de shows pontuais, aposta mais na vinda impositiva de artistas e bandas nacionais e internacionais, reforçado pelo poderio de arrecadação e destrata a formação dos nossos valores específicos.

A filosofia ocidental me leva pelas veredas do pessimismo, a vida professoral me faz resistir pelos caminhos e fincar pé, o jornalismo me condiciona ao compromisso com a factualidade, como compositor, por outro lado, estou catatônico pela zumbificação citadina, esta que não percebe que uma das únicas chaves para as algemas humanas é a arte. A arte é uma necessidade fisiológica, acima de tudo. Todo esse caldeirão me deixa dualista na necessidade de convocar exércitos de resistência e, n’outro lado, pior que dor de dente, a sensação incomodativa que a cada dia somos cactos no árido contexto que só mata de sede e de fome.

THIAGO SUMAN
27 anos, natural de Porto Alegre, radialista, indicado cinco vezes consecutivas ao Prêmio Press de Jornalismo. Narrador e apresentador, com passagem pela Rádio Grenal. Professor de filosofia e sociologia dos cursos pré-vestibulares Fenix e Unificado e como repórter, correspondente freelancer do tabloide Daily Mail, da Inglaterra. Como compositor, com 12 anos de trajetória, assoma mais de 100 registros em CDs, tendo sido consagrado vencedor do maior festival de música do Rio Grande do Sul, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, em 2009. Thiago Suman escreve para o Culturíssima sempre no primeiro sábado de cada mês.

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3 Comments

  1. É muito fácil… é só cultuar as artes repeitando os 18 mil moradores, que não são artistas e necessitam madrugar TODOS os dias às 06h00 para ganhar o difícil pão nosso de cada dia… A arte é sensível, jamais egoísta… Um verdadeiro artista nunca vai expressar a sua mensagem em cima da tortura ambiental noturna do morador. A Lei regula e dá condição A TODOS… Depois das 22h00 e até às 06h00, nos 360 dias do ano, basta produzir arte e emoção em AMBIENTES VEDADOS ACUSTICAMENTE e respeitar com o SILÊNCIO as vias públicas e os entornos residenciais daquele que suam de sol a sol… Papo de desajustado egoísta…

    • Como musicista concordo com o comentário acima. A vedação acústica e o respeito ao horário de silêncio são fundamentais e valem para todos. O que destrói a produção de uma região é a desvalorização dos gestores públicos em relação às cultura local, a decadência de mecanismos de incentivos e fomento à criação artística, a extinção de espaços culturais por gana mercadológica e imobiliária, a falta de iniciativas de formação de público e até mesmo a lacuna da falta de artes, especialmente música, na formação escolar da população.

    • Papo de desajustado?!

      O velho recurso das classificações e adjetivos na falta da consistência de argumento.

      Em todos os grandes centros mundiais, existem redutos de arte com a livre manifestação Dela em uníssono pelo desencadear desse fomento. 18 mil moradores é o bairro inteiro e a grande parcela desse contigente inteiro aí não concorda com teu argumento, logo, não se arvore em argumentos falaciosos. Moro no centro histórico. Trabalho as 6:00 e sei as características do bairro, sabia quando me mudei, me adaptei. Isso é saber viver em convenções e não usar da normatividade pra estrangular setores, na egoista proposta de fazer valer meu cronograma de vida. É pensar na coletividade e comunidade. Ademais, teu texto não se justifica.

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