Thiago Suman | A espera por ‘Campos Neutrais’ de Vitor Ramil

Vitor Rami prepara lançamento de novo disco: "Campos Neutrais"

Vitor Ramil prepara lançamento de novo disco: “Campos Neutrais” (foto: Guilherme Bragança)

Thiago Suman

O novo álbum de Vitor Ramil vem para saciar a fome daqueles que anseiam pela melhor linhagem da música produzida aqui no Sul do Brasil. Somente ele, indiscutivelmente, consegue manter a identidade textual e melódica impregnada de cor local junto a uma  fluidez globalizada das aspirações de seu tempo e seu espaço; assim sendo, passa a conceber sua arte híbrida, fundindo tendências plurais. Uma glosa que permite sensação de pertencimento, mas um vestuário musical que guinda o artista para o seio do mundo. Ramil é Bob Dylan, é Caetano, é Noel Guarany, é Fito Paez. Ramil é Ramilonga, é Satolep, é Délibab. Ramil é Moscardini, é Suzano, é Sosa, é Drexler, Ramil é Fogaça, Kleiton e Kledir, é Ian, é Thiago. Ramil é Ramil, e isso tudo evoca a mais “moderna-terrunha” obra em ponta de lança do jovem cancioneiro musical do Rio Grande do Sul, este que começa a se formar com maturidade só agora, nos últimos 30, 40 anos.

A missão de Vitor é tremenda: produzir um material que supere Foi no Mês que Vem. Esse que foi o último álbum do pelotense, lançado em 2013 e que papou quase tudo no Açorianos daquela temporada. Está, para mim, elevado ao panteão dos meus discos prediletos, tendo sido minha bandoleira musical dos últimos anos, dividindo espaço com os trabalhos de Calle 13, 5 a Seco e outras poucas compilações tão perfeitas e harmônicas, poética, melódica e organicamente falando, fato que me fez optar pelo looping destes a buscar outro material que não fosse tão genial.

Assumindo, portanto, uma pátria universal, Ramil anunciou que o disco será gravado em três línguas: português, espanhol e Inglês, isso reforça a representatividade do cantautor no cenário internacional. Ao todo, 15 novas faixas serão gravadas neste trabalho. “Milongas e Canções de muitos acentos e sotaques”, resumiu Vitor sobre o que esperar de Campos Neutrais.

Participações dos cantores Chico César e Zeca Baleiro, parcerias com os autores Joãozinho Gomes e Angélica Freitas, colocam na geografia do disco, o mosaico de coloquialismos e recortes culturais acenados por Ramil em sua trajetória: da Paraíba ao Maranhão, do Pará até a cidade de Pelotas, zona sul do Rio Grande do Sul. A melodia no poema do  lusitano Antônio Boto, a versão da obra do norte-americano Bob Dylan e o galego Xöel Lopez, afirmam Ramil com o mundo. A banda de apoio também é internacional. Destaque, aqui, para o violão com tessitura “Ramilesca” do argentino Carlos Moscardini. O próprio Vitor assina a produção do projeto.

Sem qualquer financiamento estatal ou privado, a campanha será custeada por Financiamento Coletivo, coordenada pela plataforma Traga seu Show.

O título é, sem dúvida, a rainha no tabuleiro do xadrez pampeano-global de Vitor Ramil: nada é mais eloquente para com sua proposta do que Campos Neutrais. A faixa de terra do Sul do estado  que foi reduto amistoso entre Portugal e Espanha no tratado de Santo Indelfonso, ainda na formação desse recanto de terra morena, em 1877. Ramil concilia sua obra entre culturas, amorna seu canto na temperatura certa e requisita seu território para fazer da raiz uma certeza e do seu canto, um passaporte.

A bandeira, por fim, de Campos Neutrais é justamente não carecer de bandeira. Vitor Ramil está na bifurcação – entre o localismo e o cosmopolitanismo – desse nosso mundo.

Eu esperarei Campos Neutrais com a mesma ansiedade da criança que reza por celeridade do calendário para a páscoa, o Natal, para as férias escolares ou simplesmente para ver o tempo passar rumo a fase adulta.

Que os ponteiros do relógio sejam bons comigo.

THIAGO SUMAN
26 anos, natural de Porto Alegre, radialista, indicado cinco vezes consecutivas ao Prêmio Press de Jornalismo. Narrador e apresentador da Rádio Grenal, e também professor de filosofia e sociologia dos cursos pré-vestibulares Fenix e Unificado e como repórter, correspondente freelancer do tabloide Daily Mail, da Inglaterra. Como compositor, com 11 anos de trajetória, assoma mais de 100 registros em CDs, tendo sido consagrado vencedor do maior festival de música do Rio Grande do Sul, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, em 2009. Thiago Suman escreve para o Culturíssima sempre no primeiro sábado de cada mês.

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