Um livro sobre especulação imobiliária

Carlos Garcia

É um livro sobre especulação imobiliária. Isso foi tudo que o vendedor me explicou sobre o romance Imóveis Paredes (Libretos, 2015), de Miguel da Costa Franco. E não poderia haver descrição melhor. A narrativa é, acima de tudo, sobre a especulação imobiliária em Porto Alegre. O autor propõe uma reflexão acerca do poder que as grandes construtoras exercem sobre as pessoas, a paisagem e o cotidiano da cidade.

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O título é uma referência clara ao tema, mas tem duplo significado. Além de um não à demolição, também trata-se do nome da imobiliária de Eleutério Paredes, o personagem principal da história. O corretor-protagonista passa a trama inteira sofrendo pressão de uma grande construtora para vender seu imóvel. A empresa quer executar o projeto de construção de um condomínio residencial, ocupando um quarteirão inteiro no coração do bairro Rio Branco. Eleutério, porém, é o proprietário mais resistente às negociações. A situação chega ao ponto de sua casa ser a única de pé na área de interesse da construtora. Mais do que isso, começa a sofrer fortes represálias em razão da sua resistência.

O mais interessante é que, durante a história, o narrador compartilha com o leitor os sentimentos de Eleutério sobre a questão da venda do imóvel. É demonstrado o quanto qualquer pessoal razoável é frágil diante do sistema. Embora a narrativa arme uma armadilha que sugere o protagonista como herói, as próprias reflexões do personagem vão desmentir essa hipótese.

Eleutério é apaixonado e apegado pelo casarão que herdou de seu pai. Por ele, jamais deixaria de morar ali. Mas nem as pessoas mais próximas o ajudam a resistir a pressão. Ao contrário. Sua funcionária da imobiliária, ele descobre que é, na verdade, sua irmã. O pai havia dado uma pulada de cerca, mas ninguém jamais tocou no assunto. Até que ela joga a questão na mesa e aproveita para pedir parte dos bens de Eleutério, no caso, um dos apartamentos que a construtora daria em troca do casarão. Sua filha, por sua vez, não está nem aí para o que Eleutério faz, mas da mostras de que considera uma idiotice não vender o imóvel.

Por causa da opinião e pressão dessas duas mulheres, Eleutério passa a pensar com mais força na venda da casa. Sem contar que a proposta da construtora é, realmente, irrecusável do ponto de vista financeiro. Ele sabe disso. É do ramo e conhece bem os valores do mercado imobiliário. Em sua tentativa de decidir o que fazer, ele pensa mais na família do que nele mesmo e por isso é fisgado. É quase impossível, seja cedo ou tarde, não aderir ao que o modelo político-econômico vigente propõe. Eleutério vai longe em sua resistência, mas, independente de aceitar ou não a proposta, seu dilema interior do vende, não vende confessa que sua convicção foi posta à prova.

Quanto ao estilo, o autor apresenta um texto simples e rápido. Mesmo algum floreio que possa aparecer, não na linguagem mas na história, não chega a constituir um obstáculo no texto.

Imóveis Paredes é um livro que o valor ideológico ultrapassa o valor literário. A reflexão que o autor propõe é importantíssima para Porto Alegre. É um alerta. Há anos a cidade vê suas edificações históricas sendo demolidas para dar espaço à condomínios gigantescos. Além de apagar a memória, os novos empreendimentos impulsionam cada vez mais o isolamento das pessoas em relação a cidade. Até onde queremos chegar em termos urbanos?

Essa é uma questão que, certo, já é pensada pelos interessados, como a administração pública, as construtoras, os profissionais de arquitetura, urbanismo e engenharia, etc. É importante, todavia, que a participação se torne mais ampla. E talvez o livro de Miguel da Costa Franco seja o ponto de partida para que o público envolvido direta e indiretamente, isto é, o cidadão em geral, se interesse ainda mais pelo assunto. Assim pode ser que esse tema tão importante ganhe mais notoriedade, enriquecendo o debate e melhorando a cidade.

carlos

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