A sonoridade verdadeira de Márcio Petracco

Foto: Fernanda Sklovscky

Foto: Fernanda Sklovscky

Luiz Paulo Teló

Encontramos Márcio Petracco em um destes finais de tarde de Porto Alegre, em que perto das 18h a noite já se impõe sobre a luz do sol. Sentamos para conversar na calçada da esquina da rua Lobo da Costa com Lima e Silva, no bairro Cidade Baixa, razoavelmente distante do movimento boêmio tradicional daquela região.

Petracco é um dos músicos mais importantes da cena roqueira no Rio Grande do Sul, desde a explosão daquele movimento que resultou em diversas bandas importantes na metade dos anos 80. Primeiro, por seu talento e sua técnica para tocar guitarra. Segundo, pela sua inquietude.

Desde a furtividade de consertar coisas e construir instrumentos em casa, passando pela capacidade de ser fundamental em várias bandas importantes como TNT, Cowboys Espirituais e Locomotores, até o pioneirismo e a coragem de tornar-se um músico de rua profissional com o seu Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense. Foi este Márcio Petracco que nos contou um pouco de sua história

Culturíssima: Como conheceu os guris pra formar a TNT?

Márcio Petracco: Conheci uma galera que fazia um som, tocava violão, na 5° série do primeiro grau. Estudava no Instituto de Educação, e nessa minha turma tinha o Zé Natálio, que hoje em dia é baixista do Papas da Língua, tinha o Luis Henrique “Tchê” Gomes, que veio a ser o outro guitarrista da TNT e toca comigo até hoje na Tenente Cascavel, o Frank Jorge também, que é um parceiro de longa data, e uma outra galera, que também muitos foram pelo caminho musical. Começamos a descobrir violão, guitarra e tal, e quando começou o segundo grau, essa galera meio que se separou, cada um foi pra um colégio diferente, e uma parte dessa turma ficou junta e montou o embrião do que seria o Prisão de Ventre – que dá pra dizer também que deu origem ao Graforréia Xilarmônica. Eventualmente a gente se juntava pra fazer um som, mas sequer tinha um nome. A gente não tinha pretensão nenhuma a não ser aprender a tocar, pois começamos a ouvir músicas juntos, frequentar shows, conhecer bandas e trocar discos. Tinha aquelas coisas de São Paulo que a galera curtia, como Premeditando o Breque, Arrigo Barnabé, que assistíamos em alguns programas. A informação era escassa, super difícil de conseguir, mas a gente estava sempre compartilhando de alguma maneira. Eu tinha também uma turma de lá de onde eu morava, que um era filho de uma cantora lírica, andava de bike comigo, também tocava alguma coisa, a gente comprava disco e tal. Nessa época ouvi, por exemplo, bluegrass pela primeira vez. O cara apareceu lá com um vinil e a gente ouviu o dia inteiro. Mas levamos uns 20 anos pra saber como fazia aquilo, como tocava, como afinava e que instrumentos compunham um grupo de bluegrass. Curioso que esse mesmo amigo foi me ver tocar na rua muitos anos depois e me levou esse mesmo vinil de presente.

Culturíssima: Tu citou o Arrigo e o “Premê”. Mas o que vocês ouviam de rock?

Márcio Petracco: Tem um negócio muito doido, porque essa turma foi antes de conhecer o pessoal do TNT, que era uma coisa mais estritamente rock’n’roll. E até pelas coisas naquela época serem escassas. A [avenida] Osvaldo Aranha era um point único pra todo mundo, pra hippie, punk, rajneesh, metaleiro, e isto tinha um aspecto saudável de congregar todas as turmas ali. Mas a verdade era que o que aparecesse a gente ia atrás. Me lembro do projeto Unimúsica, na UFRGS, que foi fundamental pra gente. Íamos assistir banda de jazz rock/fusion, festival de MPG, porque eram as coisas que tinham. Aí no segundo grau eu era colega do Charles Master, e ele era vizinho do Flávio Basso [que mais tarde adotaria o nome artístico de Júpiter Maçã]. Eles já tinham um pequeno núcleo, o Flávio já tinha várias músicas, tinha toda uma concepção estética, uma coisa muito louca. Me convidaram pra tocar contrabaixo na banda deles, mas eu queria comprar uma guitarra. Pensei: ah, o que eu quero tocando baixo na tua banda, vou é comprar uma guitarra pra mim! Aí fui ver uma guitarra que um cara anunciou, e a guitarra não era legal, eu já estava com o dinheiro no bolso, e o Charles, esperto que sempre foi, chegou com um anúncio de um baixo bacana que eu poderia comprar com o dinheiro que tinha. Tudo bem, comprei o baixo, fui lá fazer uma visita pros caras, rolamos um som e o resto é história. Começamos em festivais de colégio. Lembro que meu primeiro lance em um palco com o TNT foi no Carreteiro do Círculo de Pais e Mestres do Colégio Anchieta, apresentado por um padre. A gente cabeludo, fazendo um rock barulhento, o padre fez meio que um discurso apaziguador: “Talvez não seja o que a gente mais curte, mas estão se expressando”. Um padre meio progressista, tipo, não vamos vaiar a gurizada, sabe? Um lance muito doido. Mas aí a gente fez uma pá de coisas antes do TNT ter contato com uma gravadora e participar daquela primeira coletânea que foi o disco Rock Grande do Sul [1985]. Foi uma fase que eu saí do TNT, fui o primeiro baixista da banda, pouca gente sabe disso, mas nesta fase eu sai, quando eles rasparam a cabeça, na fase em que eles aparecerem mesmo na mídia. Muita gente julga que seja a primeira formação, mas na verdade é a primeira com registro fonográfico. Esse quarteto, essa formação com os carecas se dividiu ao meio e metade saiu pra formar os Cascavelletes. Aí como faltou integrantes pra completar os times, uma galera foi chamada, e voltei pro TNT, mas como guitarrista, e gravei os três discos seguintes. Eu conheci os caras em 84, o Rock Grande do Sul é de 85 e o primeiro disco de 86.

Capa do disco que ajudou a lançar aquela geração de bandas.

Capa do disco que ajudou a lançar aquela geração de bandas.

Culturíssima: Vocês tinham noção da importância que teria aquele movimento?

Petracco: Acredito que, até certo ponto, não. No começo era muito aquela coisa de fazer pela curtição, mas tem um ponto determinante que é quando aparece uma grande gravadora querendo gravar a rapaziada daqui. Naquele momento o rock brasileiro era o grande lance, tinha o rock de Brasília, então eles foram buscar rock em outros lugares. Era um tempo em que as gravadoras realmente mandavam em tudo, se tu estivesse com uma estava grandão, se não estivesse não tinha muita chance de aparecer na mídia. Naquele momento acho que a grande mídia se voltou pra cá, porque, enfim, os caras procuravam alguma coisa naquela onda. Tem muita gente que diz que naquele tempo que tinha música boa, agora é tudo porcaria. Acho que não, tem muita coisa boa, mas a diferença é que a gravadora não vai te mostrar, a televisão não vai te mostrar, tu tem que ir pro google e buscar coisa boas no mundo, que certamente existem. Talvez até muito mais do que naquela época. Claro, naquela época, naquele momento, aparecia rock’n’roll na Xuxa, no Faustão, no Chacrinha, no Globo de Ouro. Bom, agora tu não vai ficar esperando o Faustão e a Xuxa te mostrarem o que é música boa, ainda mais que tem uma ferramenta como a internet. É fundamental que a galera busque e conheça. Se jogar no google “bandas alternativas de Cuiabá”, tu vai encontrar alguma coisa.

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Culturíssima: Nessa época estava em alta a Rádio Ipanema, dando uma força pro pessoal do rock e que está na pauta da semana por estar migrando agora apenas para a web.

Petracco: Nem me fala… Que coisa irônica, tanta gente que saiu da Ipanema e montou rádio web: a Kátia Suman, o Cláudio Cunha, e aí de repente a própria Ipanema vem a ser uma rádio web. Acho um pecado, mas enfim, os tempos mudam, a gente tem a tendência de ficar com o pé no passado, ser saudosista, e li uma coisa e outra, andei debatendo com uma galera nas redes sociais, e surgiu que a Noruega pretende extinguir todas as rádios FM dentro de alguns anos. É fatal que este sistema vai ser extinto. Isto foi uma determinação lá do eixo Rio-São Paulo, dos cabeças da Bandeirantes que, certamente, não têm a mínima noção do que é a Ipanema. Até antes da rádio morrer, acho que vai ter algum tipo de segmentação, que tu vai colocar lá sabendo o que vai tocar naquela rádio. Sei lá, a tendência mundial acho que vai ser se segmentar justamente como a Ipanema sempre foi, apesar de ser super variada, era uma rádio pra quem conhece e gosta de música. Eu, particularmente, sou suspeito para falar. Conhecia a rádio desde o tempo em que era Bandeirantes FM, de bater na porta com uma fitinha cassete na mão. Aquilo era maravilhoso, tinha cabeças maravilhosas, grandes amigos lá dentro, sempre curti e convivi. É uma coisa assim, como se tirasse um pedaço de mim.

Culturíssima: Mas tu acha que o rádio perdeu força no seu papel de projetar artistas?

Petracco: Bicho, na real, acho que o rock perdeu força. O rock era uma coisa pra revolucionar, pra chocar, e meio que perdeu essa função. É uma coisa que gera um debate longo e acalorado. Mas a verdade é que o rock, em termos de grande público, já não bate tanto como bateu em uma época. Aí vieram me dizer que o que tá morrendo não é o rádio, é o rock. Falei que era por isso que eu estava tocando bluegrass [risos]. E por outro lado muita gente vê o Conjunto Bluegrass tocando na rua pergunta o que falta pra gente ficar grande, ficar famoso. Pô, bicho, na verdade, grande a gente já está. A gente se sustenta fazendo aquilo, somos donos do nosso próprio lance. Quando eu tinha uma gravadora eu ganhava 0,01% do preço de fábrica do disco. Agora eu pago o preço de custo da mídia e vendo pelo preço que quiser e esse dinheiro é todo meu. É muito discutível até que ponto vale a pena eu querer aparecer na televisão, trabalhar dentro de um sistema que ‘nêgo’ vai querer dizer o que eu tenho que fazer, o que posso, o que não posso. Prefiro ser dono do meu nariz. É uma tendência que se vê muito na Europa. Por exemplo, os caras tocam um jazz rock, um negócio bem progressivo. Quem sabe eu não iria ver um negócio desse, mas tem gente que curte. O cara não precisa ser dono de um mercado gigante, não precisa ser dono de 60 ou 70% do mercado. Se ele tiver um 2% do mercado que seja fiel, que sustente ele, os discos e a tour dele, é isso que acontece na Europa. Muita segmentação e todos esses segmentos se sustentam de uma maneira ou outra, acho que esse é um caminho. As pessoas piram muito, porque a gente foi adestrado pela grande mídia, já teve gente que disse que não daria moedas pra gente porque seria uma ofensa, “tinha que estar na televisão!”. Se quer que eu vá pra televisão, então bota uma moedinha aí no chapéu, quem sabe me ajuda a chegar na televisão. A verdade é que a gente não está muito aí pra televisão, nossa televisão é o youtube.

Culturíssima: Como surgiu o Conjunto Bluegrass?

Petracco: Na verdade eu já tinha tocado na rua, de dupla, com um parceiro, isso lá no final do TNT, em 1992. E nosso violinista, Heine Wentz, já tinha tido uma experiência assim, com um quarteto de cordas tocando música erudita na rua. Sempre achei um lance muito legal, mas quando comecei era porque estava precisando de café da manhã mesmo. Não tinha muito pra onde correr. Ia fazer um curso, procurar um emprego, largar currículo? Essa dupla que eu tinha com um amigo sequer tinha disco pra vender, a gente só passava o chapéu mesmo. A rua e a internet caminham meio juntas, é uma coisa meio paradoxal, porque no tempo em que o CD está morrendo, o Conjunto Bluegrass ainda vende muito CD. Primeiro porque não cobra o preço que uma loja cobra por um disco de gravadora, segundo porque a pessoa sabe que não tem uma distribuição gigante, se não comprar ali na hora, na nossa mão, talvez não encontre em outro lugar. A verdade é que a gente começou rolando um som ali em casa, ainda com outro grupo, o saudoso Trem 27. Me juntei ao grupo com eles já engrenando, pois faltou alguém pra tocar violão, e como eu já tinha experiência de tocar na rua. Éramos cinco, depois entrou um vocalista ficou seis. Pô, vamos gastar dinheiro alugando estúdio pra tocar? Arrumar um barzinho que pague mixaria pra dividir entre seis pessoas? Vamos pra rua, gravar um disco e vender na rua. Aí foi o primeiro trabalho de rua que eu fiz que tinha um trabalho pra comercializar. O Trem 27 foi um estouro de vendas! Um dos caras era garçom, largou o emprego porque pensou que estava famoso, por cima da carne seca e não precisava mais trabalhar. Já o Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense começou em 2007. O primeiro disco é de 2008. Ainda não tem música autoral, mas certamente terá no próximo disco, estamos nos mexendo quanto a isso. Tem uma coisa que todo mundo diz que é da gente ir no Jô Soares, mas em São Paulo – isso é uma desconfiança minha – tinha uma galera, muito bons instrumentistas, que têm um grupo de bluegrass, mas como vão popularizar o gênero? Aí começam a fazer cover de qualquer coisa em versão bluegrass. Aí, sei lá, o Jô por ser um cara que houve jazz e o bluegrass é uma música teoricamente harmonicamente simples, com poucos acordes, o cara fica meio de nariz torcido pra aquele negócio. A própria industria do cinema distorceu muito o significado do lance do bluegrass, e tem aquela coisa de associar com o redneck, que é um tipo de cara retrógrado, isso gera algum preconceito. E os caras tentando popularizar tocando Oh Susanna, Chuck Berry, e daqui a pouco estão tocando Ai se eu te pego em versão bluegrass. Então a gente sempre teve essa coisa de tocar standards do gênero, clássicos, não vamos tocar Willie Nelson em versão bluegrass, não vamos tocar a musiquinha do filme que é meio bluegrass. Vamos tocar Bill Monroe and The Bluegrass Boys, os caras da primeira e da segunda geração, não vamos nos adaptar, ou as pessoas vão conhecer e gostar disso ai, que é o nosso objetivo, ou vamos naufragar. E o lance não naufragou, tem cada vez mais gente gostando de bluegrass. A gente faz muito evento, é convidado pra muita coisa, já viajamos pra São Paulo, Paraná, Santa Catarina, contratados pelos mais diversos tipos de eventos. Já tocamos em bar-mitzvá, casamento, coisas institucionais de empresas. As pessoas meio que não têm essa noção, ficam naquelas de quando vocês vão tirar o pé da lama? Nós já tiramos o pé da lama faz tempo. É uma luta que segue sempre. Às vezes os caras perguntam quanto a gente cobra pra fazer um evento: “Tudo isso? Mas vocês tocam na rua por moeda”. Bom, quando eu vou tocar na rua por moeda estou por minha conta e risco, de repente chove e eu não ganho nada. Carreguei a bateria, troquei as cordas, todo mundo se movimentou mas não rolou, aí é uma aposta nossa, paciência. As pessoas não têm noção de quanto a gente coloca dentro do chapéu, quanto a gente vende de disco e quanto isso rende. Em geral, barzinho a gente faz pouco, porque também tem uma coisa de ativismo, de ocupar o espaço público, estar na rua, pois é uma coisa que a gente acredita, de dizer não à grade, à cerca elétrica, ao shopping center, à segurança 24h. As pessoas estarem na rua torna a rua mais segura. E tem o ativismo de estar na rua e evitar todo tipo de atravessador, a gente não depende de gravadora, não depende de dono de bar. Todo mundo já tocou em bar e sabe como a coisa funciona. Grande parte das vezes o cara do bar explora o músico que toca ali, bota um equipamento terrível para o cara usar, não faz com que o cara seja respeitado.

Culturíssima: A Tenente Cascavel é um outro projeto que tem se dedicado bastante também. Como tem sido?

Petracco: O TNT terminou em 1992, teve uma tentativa de volta muito breve ali em 2003, então nos últimos muitos anos tive pouca oportunidade de tocar esse repertório e todo lugar que eu chegava tinha gente tocando isso. Recebo recado Brasil a fora, até do exterior. Esse tempo um cara me mandou um cover do interior de Minas, que eu nem imaginava que isso batesse tanto, mas chega lá. O cara diz que sempre quando a festa está meio caída toca Cachorro Louco, Não sei e tudo mais. Eventualmente fui barrado em festa que estavam tocando a minha música. Então por que eu não posso tocar? Uma tentativa de juntar o TNT falhou, a tentativa de juntar os Cascavelletes se resumiu a um único show. E meio que o mais difícil era lidar com os vocalistas, então já que tem tanta gente nesses dois times que é afinada e afim de fazer uma coisa junto, por que não juntar essa galera?


Culturíssima: Por onde tu já viajou fazendo show?

Petracco: Recentemente tive uma oportunidade muito legal de ir aos Estados Unidos, com uma cantora e compositora que está estabelecida aqui no Rio Grande do Sul. Ela é filha de um “bluseiro” texano, um cara que admiro muito. Ela conheceu em Nova York um baterista porto-alegrense, o Duda Guedes, que tocou com o Nei Lisboa, o Mutuca… O nome dela é Myla Hardie, e eles vieram pra cá, sou muito amigo do Duda e comecei a tocar com eles. Pintou a oportunidade de tocar com ela nos Estados Unidos, dei um jeito de ir e foi uma experiência incrível. Mas sempre fui muito interessado em informação, de ler tudo que me caísse nas mãos. É muito louco isso, chegava nos Estados Unidos, encontrava algum músico e o cara sempre vinha tocar um pouquinho de bossa nova. Pô, legal, te agradeço, mas não sou do Rio de Janeiro, minha especialidade não é essa daí. No sul do Texas uns mexicanos começaram a tocar bossa nova pra mim e eu saí tocando um lance mexicano pra eles, daqui a pouco uma coisa gaudéria, meio rancheira. Isso é música brasileira, não só o que a televisão mostra é música brasileira. A música folclórica tem uma certa universalidade. O músico folclórico de um lugar consegue se relacionar com o músico folclórico de um lugar distante, muitas vezes as músicas dividem raízes comuns. É um universo fantástico, uma coisa que nunca deixa de me instigar.

Culturíssima: O que tu acha da nossa música folclórica?

Petracco: Agora nós vamos entrar em um terreno pantanoso! Isso acontece no mundo todo, essa coisa de algumas pessoas quererem engessar. “Não pode isso, não pode aquilo, não pode entrar no CTG assim, não pode misturar com axé”.  Mas essa modificações na música folclórica não anulam o que veio antes. Essa coisa de CTG e MTG foi criada em um contexto urbano, por uma galera que era descendente de imigrantes alemães e italianos que vieram depois da revolução farroupilha, então tem até um certo aspecto fake nesse troço.Uma coisa dos caras quererem nos enfiar aquilo goela abaixo dizendo que aquilo é nossa cultura, e não é exatamente a nossa cultura. O próprio Paixão Côrtes acho que concordaria com isso. Teve um amigo que se pronunciou nesse sentido, dizendo o que eram os gaúchos originalmente, que eram ladrões de gados, que andavam em bandos de homem por quilômetros e quilômetros, que eventualmente tinha relações homossexuais entre os caras. Claro, queriam matar ele. Uma parte do Movimento Tradicionalista Gaúcho botou ele na justiça e ele explicou que quer ter o direito a uma cultura que é a dele, não uma que é imposta e o juiz deu ganho de causa pro cara. Já andei pelos interiores e aprendi muita coisa. Na época que eu era mais guri, que tive fora do TNT, fui pra fora, trabalhar de peão com o meu velho, de cuidar bicho mesmo, e conheci muito coisa da tradição gaudéria que acho sensacional. Respeito muito essa coisa que é verdadeira, meu pai era de Passo Fundo e tinha muito de bugre, a mãe dele era argentina, e lembro dele gostar disso, gostar de música. Mas lá pelas tantas tem um gaudério de boutique, que anda com a bombacha apertadinha, boininha, cuiazinha pequeninha. Gosto muito do cartunista Santiago, que tem um olhar super legal da temática. Pô, o Vitor Ramil, não vamos esquecer, é um cara que pegou a milonga e mostrou para o mundo, no entanto ele não é aceito dentro do CTG e MTG, porque ele é muito progressista pra estar lá. Isso nos mostra que tem alguma coisa errada aí.

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Culturíssima: Escuta muita coisa nova ou descobre mais novidade nas coisas velhas?

Petracco: Ah, escuto muita coisa velha nova. Mas não sou fechado pras coisas que estão aparecendo. Até porque já coloquei filho no mundo pra isso [risos]. O meu mais velho, o Pedro [Petracco, baterista da Cartolas] é muito mais ligado em música contemporânea do que eu. As possibilidades de tu pesquisar e descobrir coisas são infinitas, na medida em que tudo que é pequena banda independente do mundo está na web. Procuro conhecer, mas às vezes precisa o Pedro vir me dizer pra eu me dar conta que estava sendo preconceituoso com alguma banda só porque é recente. Tem a ver até com as coisas dos instrumentos e das guitarras. Todo mundo cultua o que é antigo, mas nunca se fez tanto instrumento de qualidade como hoje em dia.

Culturíssima: Tu é um colecionador de instrumentos e fabrica coisas caseiras também. Quantos tu tem em casa?

Petracco: Eu tenho muita coisa. Na verdade, no começo, era por falta de alguém que pudesse consertar, então a gente fatalmente tinha que se virar. O primeiro instrumento que toquei foi um cavaquinho que estava na casa dos meus pais, atirado num canto, sem corda. Comprei uma lixa, um verniz… e foi minha primeira experiência. Comprei um jogo de cordas, e na embalagem dizia em que nota afinava cada corda, e minha mãe tinha um piano. Pedia pra minha mãe tocar as notas e assim fui afinando. Tocava o cavaquinho não porque eu tinha escolhido, mas era o que tinha. Tocava Rolling Stones, blues e até uns chorinhos. Paradoxalmente cavaquinho é um instrumento que hoje eu não tenho. Mas eu tenho uma quantidade tão grande de instrumentos de cordas que sequer sou capaz de dizer quantos eu tenho. Tenho uma guitarra que é uma pedal steel, que é uma guitarra havaiana com pedais típica de música country. Tem uma outra que é um lap steel, de colo, típico de blues e tal. Tem uma guitarra de que é um clássico dos anos 70 que imita o som de uma cítara indiana. Yes tem essa guitarra, soul music usa essa guitarra, Lenny Kravitz eventualmente usa essa guitarra, e consegui montar uma pra mim. Tenho muitas guitarras, mas cada uma com uma função específica. Mas guitarras normais, devo ter três ou quatro, que é pouco pra quem trabalha com isso.

Culturíssima: Como foram as gravações dos discos do Conjunto Bluegrass?

Petracco: Ao longo desses anos, dos diferentes grupos que a gente teve, tentamos fazer de diferentes maneiras, usar recursos tecnológicos. Tipo, pegar o início de uma frase de violão e misturar com o final da outra. Pra conseguir a sonoridade verdadeira do lance, muitas vezes a gente foi com o recurso que tinha. Na primeira demo do Trem 27, a gente pôde gravar os instrumentos separados, mas quando começasse o take era obrigado a ir até o final e isso dá um astral. Ah, se ficar copiando e colando cada notinha vai ficar perfeito. Pô, o perfeito é uma porcaria, a imperfeição é que é bacana, isso que deixa o lance verdadeiro. Ter o recurso de colar uma coisa na outra é muito bom, mas até que ponto? Quem vai dizer chega, está bom! Se copiar e colar tudo, o negócio vai soar como um robô. Pra não te mentir, e essa informação ninguém tinha até agora, no disco mais recente do Conjunto Bluegrass, todo mundo gravou do jeito mais orgânico possível, todo em pé na volta de um set de microfones gravando ao mesmo tempo, num take só, sem dobras posteriores. Mas aí a gente percebeu que tinha uma versão muito boa que tinha uma desandada no final, uma muito boa que tinha uma coisinha ruim no início. Então, uma única faixa do disco é colada no meio. Tipo, uma entre 12, e aí tudo bem. Mas em qualquer ponto do disco que tu ouvir, é toda a galera tocando junto, ao mesmo tempo.

Culturíssima: Projetos como Locomotores e Cowboys Espirituais não acabaram oficialmente?

Petracco: Pois é… tem tanta gente que diz: “Que pena, acabou”. Acabou? Eu nem sabia. É que lá pelas tantas tu ficar ralando e se sujeitando a determinadas coisas, eu prefiro deixar o lance na prateleira pra quando aparecer alguma coisa bacana. Ambas as bandas estão nessa mesma situação. Se alguém quiser um show dos Cowboys Espirituais é passível  da gente conversar e rolar um show, e dos Locomotores também. Prefiro assim do que desgastar a imagem fazendo força pra tocar aqui e ali. Não, vamos tocar quando as pessoas estiverem nos querendo, quando a gente for bem-vindo e bem tratado.

Ao lado de Frank Jorge e Júlio Renny no Cowboys Esperituais

Ao lado de Frank Jorge e Júlio Renny no Cowboys Esperituais

Culturíssima: Quais os shows que tu fez que te marcaram?

Petracco: Alguns, bicho. Vários dos Locomotores e dos Cowboys pelo interior que nem dá pra citar um específico. Mas lembro do primeiro Tenente Cascavel que a gente fez no Opinião, com gente saindo pelo ladrão, com a fila dando volta na rua. Foi super bacana. Me lembro de um show que fizemos num barzinho no interior com a Tenente também, estava super lotado, não tínhamos como chegar até o camarim de tanta gente. Um vez toquei em um evento, em São Paulo, com os Cowboys Espirituais, que era o lançamento do canal Country Music Television no Brasil, os caras trouxeram artistas de fora, reencontrei o cara que produzia os discos da TNT nas antigas. Teve tanta coisa bacana, de trocar ideia com os gringos, os caras se surpreenderam com nosso show. A gente tocou na despedida da festa, e os gringos enlouquecidos, achando maravilhoso. Música brasileira, com uma pitada de música estadunidense, de country, de blues, e os caras vibrando, batendo na mesa. E tocando nos Estados Unidos também, que cheguei em Nova York no final da manhã e tinha show no final da tarde. Sequer tinha um instrumento pra usar. Tranqueira, chegamos em cima da hora, estava com uma guitarra emprestada, com as cordas velhas, o amplificadorzinho era minusculo. Pensei será que vai dar? Tinha um cara enorme na primeira fia, um rastafári, com o cabelo gigante, e eu tinha apoiado minha cerveja numa mesinha, que na verdade era uma caixinha de subgrave, aí o garçom tirou e colocou na mesa dessa cara. Cheguei pra ele, pedi com licença e disse que alguém tinha colocado minha cerveja ali, e o cara meio que grunhiu pra mim… Bah, vou fazer um show horrível e apanhar desse cara. Aí chegou na hora, saí tocando e fui bem recebido pela galera, pra sair com a alma lavada. Inclusive esse rastafári depois veio me abraçar. É bacana como a música pode aproximar gente de diferentes lugares, diferentes culturas. Se eu chegasse lá e tivesse que falar, me desdobrar, explicar, não funcionaria tanto quanto chegar lá e fazer um som. Bom, tocando na rua, com o Conjunto Bluegrass, jamais vou esquecer, um dia veio um mendigo descalço, colocou a mão no bolso e tirou umas moedinhas e colocou ali pra nós.

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3 Comments

  1. Rafael Borba Reckziegel

    Excelentíssima entrevista com Marcio Petracco que é um artista incrível e super antenado. Sabe muito. Não gostei foi dos erros de português. Abraços.

    • Obrigado, Rafael.

      Como o texto é longo, sempre passa alguma coisa na revisão, infelizmente. Mas, na medida do possível, estamos sempre corrigindo.

  2. Grande Petracco, figuraça, e grande músico

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