As novas e as fossas de Paulo Inchauspe

Reprodução Facebook. Foto: Belisa Giorges

Reprodução Facebook. Foto: Belisa Giorges

Luiz Paulo Teló

Quem poderia imaginar que, músico desde a adolescência, comunicador, 15 anos de rádio Pop Rock, Paulo Inchauspe abandonaria os microfones em 2012 para abrir um sushi bar? É, mas ele não abandonou a música – desde que ganhou uma guitarra de sua avó, quando entrava na puberdade.

Inchauspe recebeu esta semana a reportagem do Culturíssima para uma conversa muito franca sobre sua trajetória. O músico nos contou como foi difícil lidar com a perda do amigo Luciano Leindecker, parceiro da banda Mani Mani, vítima de um câncer no final do ano passado. Ele também falou sobre dois novos projetos: o disco solo que está finalizando e o show Fossa Nova, que montou com a esposa, a jornalista (e cantora) Cristiane Silva. O show, uma espécie de stand up musical, tem direção de Bob Bahlis e fala sobre amor e relacionamentos.

Nascido em Rivera, Inchauspe veio ainda garoto para Porto Alegre. Conta que teve pouco contato com o pai, que era piloto de avião. Começou a trabalhar muito novo, em uma padaria. Largou o futebol pela música, trocou a vontade de fazer televisão pela oportunidade de trabalhar no rádio, deixou os microfones pra se reinventar e virar um empresário. Separou mais de uma hora do dia em que ia fazer as compras da semana para o seu Shamôsushi para tomar um café e conversar conosco.

Culturíssima: O que pode contar sobre teu tempo na Pop Rock e sobre tua saída da rádio?

Paulo Inchauspe: A Pop Rock foi muito importante, foi um momento que durou 15 anos. O meu sonho, além de tocar guitarra todos os dias, sempre foi fazer televisão, nunca foi fazer rádio. Tanto que conhecia o Alexandre Fetter da Atlântida, não sabia que ele tinha ido pra lá. Minha batida era fazer faculdade para fazer televisão. Lembro que uma vez fui gravar um programa de TV na faculdade e encontrei o Fetter. Perguntei o que ele estava fazendo ali, me respondeu “Bah, agora estou trabalhando aqui, e tu, o que está fazendo?” Disse que estava fazendo televisão e acabei indo seguido lá na rádio. Nisso eu já tinha feito amizade com o Arthur [de Faria], em função de um disco de uma banda chamada Screaming Headless Torsos, uma banda de funk rock, um negócio maluco, e tinha cinco discos apenas no Brasil e um era meu. Fui levar pro Arthur, e acabei conhecendo ele. Só que eu estava numa vibe Fito Paez, Charly Garcia, e eu falava com o Arthur sobre isso e ele me achava uma mala! Então conhecendo o Fetter, conhecendo o Arthur, comecei a andar mais ali pela rádio, fazendo coisas para televisão. Era final de 1997 para 98. A Pop Rock nas alturas, era a rádio mais ouvida. Aí um dia pensei: cara, vou fazer rádio. Cheguei pro Alexandre e falei que queria fazer rádio, ele disse “beleza, vou te dar todas as barbadas”. Comecei lá de estagiário, filmando o programa Cafezinho na TV. Olha a sinistrice do negócio! Gravava todo dia o Cafezinho em vídeo, plano sequência, sem edição, aí final da semana eu decupava todos os dias, editava tudo na ilha da Ulbra e levava para o Canal 20 da Net. Aí pintou de fazer a madrugada. E o Alexandre ouvia e me ligava, “é por aqui, é por ali, e tal”. Um dia ele me ligou e disse: meu, é isso, tu achou o lugar. Comecei a fazer rádio assim, fazendo as folgas, fazendo as férias. Daí no ano 2000, acho que foi, fui convidado a ir pra Santa Maria implantar a primeira rádio da rede. Só que assim, eu passava o dia inteiro lá dentro, sabia quase tudo da lida, e aí naquele erro de achar que sabe tudo, tu te atira. Fui pra lá, de mala e cuia, só eu. Não tinha satélite, tinha que fazer a rádio igual a de Porto Alegre sem satélite. Internet era uma lenda. E foi legal, porque era a rádio mais ouvida e a que menos faturava. Naquela época a Atlântida baixou em 80% as tabelas de vendas, todo mundo anunciou na Atlântida. Até eu anunciaria na Atlântida! Mas cara, foi uma experiência legal de gestão de pessoas, e de rádio também. Entrei o meu aniversário de 28 ou 29 anos abraçado em uma antena parabólica, no décimo quarto andar de um hotel, posicionando um LMD pra achar o satélite, com um GPS pra ver se entrava o sinal de satélite de Porto Alegre! Tinha um jantar me esperando em casa e eu cheguei às 2h da manhã. Cheguei em casa com todo mundo dormindo, e eu feliz por ter conseguido achar o satélite. Trabalhava 12 horas por dia! Então começou a ampliar, abriu Passo Fundo e Caxias. Aí o Mauro [Borba] pediu pra eu voltar que teria bastante coisa para fazer aqui. Voltei pra trabalhar em off, sem microfone. Mas já tinha pegado o gosto, foi inevitável e acabei fazendo microfone também. Aí em 2007 deu aquela mudança radical no mercado, saiu metade da Pop Rock e foi para a Atlântida, e fiquei ali de braço-direito do Mauro, mas sem exatamente a condição de alterar as coisas. E outra vez cometi o erro de achar que sabia, e não sabia. Depois pintou a crise na Ulbra, com atraso de salário, parcelamento de salário. Aí em 2012, num dia com meu violão na mão, quando tinha tirado uma semana de férias, estava em Florianópolis, sentado à beira da Cachoeira do Bom Jesus, cheguei a conclusão que não dava mais para voltar a fazer aquilo. Já tinha estourado minha cota naquele lugar. Quando saí, fiquei sete meses só tocando, dando umas aulas esporádicas e, então, abri um sushi, que é o que toma todo meu tempo hoje além das coisas que eu faço.

cafezinho

Uma das formações do programa Cafezinho, da extinta Pop Rock. Na foto: Carlos Couto [sentado], Mauro Borba [apoiado na mesa], Simone Cabral, Adriano Domingues [de azul], Arthur de Faria, Inchauspe [centro] e Ramiro Ruschel.

Leia também: entrevista com Arthur de Faria

Culturíssima: Antes da gente entrar no sushi. Depois que saiu da Pop Rock, chegou a ter vontade de trabalhar em outros lugares?

Inchauspe: Quando eu saí, eu realmente pensei que ali pudesse ser um momento para reavaliar tudo o que eu fiz, e talvez fazer uma coisa completamente diferente daquilo que já tinha feito até então, que era música e comunicação. Não sou formado, o que é um outro erro também, poderia ter me formado, poderia estar dando aula, enfim, mas eu fui até o sétimo semestre de jornalismo e acabei parando de fazer. O fato é que sim, tive vontade. Às vezes, quando escuto rádio, tenho vontade. Tu acha que tu pode colaborar, o rádio tem essa magia, tu escuta e quer interagir com o rádio. O fundamental para estar em algum lugar hoje, além da tua competência, é a tua rede de relacionamento. Cara, acho que em algum determinado momento devo ter cometido algum tipo de engano… Eu tenho alguns amigos, na verdade não tenho muitos amigos, tenho algumas pessoas que escolhi como família. O Arthur é um deles. A gente fica sem se ver um tempão, sinto saudade dele e tal, mas quando encontro ele é como se eu tivesse visto há meia hora. Esse tipo de amizade é rara, é a que tem que cultivar. Então, assim, tenho alguns amigos, mas até chegar ao fato de pedir trabalho, depois de um certo tempo talvez tu não se permita fazer isso. Eu realmente não procurei nada, tive propostas quando estava na Pop Rock ainda, mas era um momento pra eu colocar em prática tudo aquilo que tinha aprendido em rádio, com o Alexandre inclusive, que optei por ficar. Não me arrependo, acho que era isso mesmo que tinha que acontecer, eu  tinha que entender qual era realmente o meu potencial e o que podia ser feito. Hoje eu entendo, de fora. Quando tu está dentro, tu enlouquece. Tu acha que pode fazer tudo, que conhece tudo, que já ouviu tudo, e não é assim. Achei que eu deveria dar um tempo, até porque, de certa forma, o rádio me deu tudo o que tenho. Eu não tenho muitas coisas, mas ele ao mesmo tempo que me deu, me colocou em um lugar de radialista. Ninguém sabe que eu toco guitarra desde os 11 anos de idade. Ninguém sabe que eu sou operador de estúdio. Ninguém sabe que eu sei fazer arranjo de música. Por que? Porque os caras me conhecem do rádio.

Culturíssima: Tu ainda escuta rádio?

Inchauspe: Escuto, no carro. Escuto todas as rádios. Gosto muito da Gaúcha, não pelo quesito informação, claro, também pela informação, mas o que surpreende é que é tanta gente trabalhando, e tão bem feito, que é assustador. Mas eu escuto todas, até porque é legal saber o que está acontecendo. E hoje sou menos encanado. Eu era muito encanado com isso. Ficava ouvindo rádio e pensando ah, aqui eu faria assim. Não importa como eu faria! Importa é que está no ar. Hoje não, hoje escuto e ‘ah, tá, entendi’. Fico observando como os caras estão trabalhando. Por exemplo a Mix, que hoje está no lugar da Pop Rock, em termos de marca, pois a freqüência é a mesma, a gente cansou de fazer a mesma programação musical. Me lembro que a gente estudava a Mix, mas era outra coisa que faltava. Faltava era alguém chegar e dizer: pessoal, é assim que tem que ser e vocês tem que executar. Pronto. Daqui a seis meses a gente senta e analisa o que aconteceu, até lá não tem papo. Foi o que a Mix fez, e esta aí o resultado. É legal tu observar, é o que eu faço, mas em horas vagas também, não tenho compromisso nenhum com isso.

Culturíssima: E a ideia do sushi, como surgiu? Já tinha feito coisa parecida?

Inchauspe: Não, nunca. A ideia veio da necessidade de ganhar dinheiro pra viver. Eu abri o sushi com 43 anos e, assim, a gente tem prazo de validade. Estava pensando que precisava fazer alguma coisa na vida que não tivesse nada a ver com comunicação. Eu estava em casa conversando com a Cris e falei: bah, vou abrir um sushi. E ela disse ‘Shamôsuhsi’. Falei é isso! Aí comecei a projetar, como fazer, como está o mercado, quais são os preços. E nada mais justo que, se tu for fazer alguma coisa, tu saber como que é. Então fui aprender a fazer sushi. Estudei com um cara que era do Sakura, Luis Fernando Santana. Estudei bastante com esse cara, contratei ele, montamos os pratos, achei o lugar, projetei o sushi bar, montei, fiz uma linha de crédito e abri. Mas abri no peitaço. Logo depois que eu abri, abriu mais uns duzentos em Porto Alegre! E no começo eu fazia, ficava lá fazendo, eu curto, é tri massa, é como música na real, tem muito detalhe. Agora eu não tenho feito, tenho mais é administrado, que cansa mais. Mas, curiosamente, comecei a ter mais tempo pra mim. Acordo todo dia às 6h30. Não raro, às 8h30 eu já estou tocando guitarra, estudando, gravando. Estou finalizando a trilha de um documentário, só de piano, fiz a trilha também para um curta baseado em um texto do Veríssimo. Mixo alguns discos, gravo e produzo. Agora também fui contratado pela Openstage, que é uma loja de instrumentos musicais, pra meio que fazer o RP dos caras, montei o palco lá pra eles, a parte de gravação, faço a mixagem das coisas que foram gravadas lá. Passo o dia na função, mas muito mais com música, o que é revigorante.

Culturíssima: A música sempre esteve presente em todos os momentos da tua vida. É isso?

Inchauspe: Eu sempre gostei muito de música, desde os 11 ou 12. O mais legal são as etapas. Quando comecei a tocar eu queria ser um baita guitarrista, cabeludo, guitarra nas costas e tal. Mas isso com o tempo vai passando e tu começa a te perguntar qual é a relevância. É massa tu ver um cara pegar a guitarra e demolir, é maravilhoso. Mas ao mesmo tempo, o que fica disso? Estudei com Daniel Sá, com o Julio Herrlein, estudei com uma galera, metrônomo, muita nota, velocidade, mas as pessoas não sabem o que é isso. As pessoas querem cantar uma melodia, e tu meio que dá uma decepcionada: espera aí, isso não vai me levar a lugar nenhum! O que vou poder dizer que foi eu quem fez, que tem uma relevância? Não tem! Tudo bem, tem instrumentistas maravilhosos, que escuto, gosto, tenho os discos, mas eu não desenvolvi uma maneira de fazer isso que eles fazem de forma relevante. É pra tocar rápido? Beleza, a gente toca. Fazer coisas virtuosas? A gente faz. Mas o que isso, lá no fim, vai contribuir? Cheguei à conclusão que, no meu caso, nada. Aí comecei a escrever músicas e letras, e foi quando gravei com  o Luciano [Leindecker]. A gente se encontrou lá na Pop Rock, ele tinha gravado um CD de uma banda que ele tinha, a Rolyman. E ele veio me perguntar como estava e comentei que tinha umas músicas e não sabia o que fazer com elas, nisso ele disse que também tinha. Então nos encontramos em uma noite fria de junho, chamamos um cara que já tinha tocado comigo, que era o Caio [Girardi], e saímos dali com umas seis ou oito músicas prontas. A Mani Mani [nome que batizaram a banda] gravou um disco que, inclusive, tenho mil cópias lá em casa e não sei o que fazer. O Luciano faleceu em novembro e o disco chegou no finalzinho do mês de novembro. Ficou um buraco muito grande, eu não sei lidar com muita coisa, e a perda é um negócio difícil. Ele faleceu e nós já tínhamos um show marcado pra dezembro. Fizemos o show com o Luciano Albo, foi tri bonito. Mas eu meio que dei uma travada, não consegui fazer nada com o disco. Vendeu um monte de cópia lá na Openstage, vende online ainda, mas dei uma travada. Sei lá, foi tanta energia naquilo ali, e o fato dele ter partido foi como se tivesse me deixado sem força. Eu dei um tempo, e de certa forma isso foi curioso porque, nestas de ficar em casa… A Cris canta muito, ela realmente canta muito, e é muito bem humorada, e começamos a descontrair em casa, com o piano e montamos um show, que foi uma válvula de escape pra que eu não ficasse pior. Foi, e tem sido difícil. Aí pintou esse outro envolvimento e meio que fui desopilando um pouco.

Culturíssima: O Fossa Nova, então, desde o surgimento da ideia até colocar em prática foi rápido?

Inchauspe: Três meses. A Cris me falou que queria cantar de novo, pois ela cantava com o pai dela, em Pelotas. Quer cantar o que? “Ah, umas coisas para me divertir”. Beleza, escolhe as músicas, disse pra ela. Liguei pro Edu, dono da Openstage, e reservei o palco para 16 de janeiro, uma sexta-feira. Me perguntou o que eu ia fazer: “Não sei, mas guarda a data pra mim”. Bom, pensamos assim, cada um bota um terno e vamos lá tirar uma onda. Na primeira vez que a gente tocou não tinha nenhum texto, mas como tinha muita gente no Openstage, virou uma reunião de amigos, começamos a tirar onda com as pintas, interagindo e tal. Estava lá o Bob Bahlis, que eu tinha convidado. depois, com ele, começamos a desenvolver um texto e ensaiamos por dois meses. Daí fizemos dois dias no Teatro do Sesi, em Porto Alegre,  e foi surpreendentemente bom. A recepção das pessoas foi boa e isso nos levou a fazer outros. E certamente vamos fazer mais. Eu e a Cris funcionamos muito bem juntos, rola bastante improviso, e o Bob deu uma toque de mestre no texto.

Culturíssima: Qual o repertório?

Inchauspe: Assim, a gente toca Baba Baby, SPC, Roupa Nova, Valesca Popozuda… E a Tita – o apelido da Cris é Tita – imita a Shakira com perfeição. As pintas não acreditam! Na música da Valesca Popozuda, por exemplo, uso uma guitarra semi-acústica, em uma levada meio bossa meio jazz. Não dá pra tocar igual, porque daí não teria graça. Tu dá uma entortada pra deixar o negócio do jeito que tu acha que fica legal. Essas músicas já estão no subconsciente das pessoas. Cara, Só Pra Contrariar todo mundo canta! Até os mais roqueiros. Tu está lá pra se divertir, não vai ficar filtrando. Fica tri massa de fazer. É um palco super simples, com uma mesa, duas cadeiras, dois copos de água, um piano, à esquerda de quem vê, aqueles microfones vintage, tipo os do Elvis, dois sem-fio na frente e vários corações no chão e a gente de terno. É pouco elemento, mas esse pouco fica gigante.

No palco, ao lado da companheira Cristiane Silve, no projeto Fossa Nova. Foto: divulgação

No palco, ao lado da companheira Cristiane Silva, no projeto Fossa Nova. Foto: divulgação

Culturíssima: Como estão as músicas autorais depois da Mani Mani?

Inchauspe: Estou gravando um disco meu. Um disco todo pro meu pai, uma especie catarse. Talvez com várias coisas que eu precisei dizer pra ele e não consegui dizer. Ele faleceu quando eu tinha 15, e não convivi com ele. Acho que essas coisas vão estar todas ali. Na Mani Mani já tem coisa, que talvez eu tire e faça de novo, mas eu to priorizando coisas que são novas. Eu devo ter uns três discos só de ideias que vou registrando, mas esse está com quase tudo pronto, vai se chamar Amigo Imaginário. É um disco de rock. E como não sou cantor, só canto o que escrevo, demoro mais tempo pra deixar a voz como eu quero. Mas acho que vai ficar legal, um disco honesto. Estou gravando guitarra, voz, baixo e piano. E bateria estou usando vários samplers. Estou gravando em casa e minha idéia é lançar ele físico. Esse disco vai ser uma tentativa de esvaziar algumas frustrações minhas, aliviar aquelas coisas que ficam guardadas e tu não conseguiu falar e que, talvez tu gravando e soltando na rede, consiga aliviar.

Culturíssima: Tu é natural de Rivera. Como veio parar em Porto Alegre?

Inchauspe: Nasci em Rivera porque não tinha lugar pra nascer em Livramento. Então assim, meu pai tinha outra família, era um cara sedutor, e muito amigo da minha mãe. Acabou que veio eu, depois a minha irmã. A gente morava em Livramento, meu pai era piloto de avião, trouxe minha mãe pra cá e sumiu. Deixou a minha mãe em um hotel e sumiu. Daí minha mãe acabou ficando aqui, na casa de uma tia. Comecei a trabalhar aos 11 anos, em uma padaria. Chegava às 5h30 da manhã, recebia o pão, o leite, cortava os frios, limpava o balcão e, às 7h, abria a padaria. Depois trabalhei em uma representante de calçado, fui para uma financeira, depois Unimed, Habitasul, aí com 21 pra 22 anos, toquei com uma banda em um festival no Araújo Viana, aí o José Aloísio Predger, músico, pianista, me viu tocar e convidou pra dar aula na academia Predger. Eu era daqueles caras que, o tempo que eu tinha acordado eu estava tocando guitarra. Então eu dava aula à noite, sai da Habitasul e fui viver de música até os 26 anos, e foi péssimo. Estava tocando com uma banda em Santa Catarina, vim pra cá e prestei vestibular pra jornalismo na Ulbra e passei. Aí fui pra lá e acabei no rádio.

Culturíssima: Como tu criou essa relação com a música?

Inchauspe: Eu cheguei a jogar na base do Grêmio, em 82 ou 83, uma coisa assim. E minha avó – que não era nem minha avó legítima – era professora, e tocava piano muito bem. Mas ela não sabia nada de música, só que ela abria uma partitura e saia tocando. Um dia ela me disse “Meu filho, futebol é coisa pra bandido, tu tem que trabalhar com arte”. No dia do meu aniversário, por telefone, ela me diz que tem um presente pra mim. Era uma guitarra Stratocaster, que era de um sobrinho dela, que tocava em uma banda de jazz. O cara me doou uma Strato. Ferrou, nunca mais larguei.

Culturíssima: Na rádio tu chegou a ter um programa que só tocava bandas do Rio Grande do Sul. De lá pra cá, o que mudou no cenário do rock?

Inchauspe: O cenário do rock gaúcho sempre foi bom, sempre teve um monte de bandas muito boas. E sempre teve, de certa forma, uma dificuldade, como existe até hoje. A rádio que mais tocou as bandas daqui foi a Ipanema. Ali na Pop Rock teve um momento, bem antes desse programa que eu tive, que 60% era gauchada tocando. Mas, depois que a internet apareceu, pra quem soube usar, foi melhor. Hoje a gurizada se vira de outro jeito. Lembro do dia em que o Duca [Leindecker] veio e me entregou o single da Vera Loca, Maria Lúcia, e falou “Oh, é bom”. Botei no carro e, bah, é bom! Cheguei na Pop Rock e toquei. Tocava todo dia essa música, porque eu achava bom. Naquele ano foi o tema de verão da rádio. Penso que o santo de casa faz milagre, mas ele não tem uma igreja, cara. Noto que tem um movimento cult, de artistas mais conceituais em Porto Alegre, que toca pingadamente em alguns lugares e já visa o mundo pela web, e noto que tem bandas maravilhosas que dependem exclusivamente do rádio. Elas não vão fazer outra a coisa a não ser que alguém do rádio tenha a boa vontade de escutar o que elas fizeram. A gente se acostumou com isso. Tipo, eu vendi um monte de disco sem tocar em rádio. A gente até toca, na Itapema, de vez em quando, no programa do Júlio Furst, mas é um número inexpressivo perto do mainstream, tenho noção disso. Mas aí tu pensa assim: a gente vende um monte de coisa no itunes, mas não porque toca em rádio, é porque as pessoas vão lá e escutam no digital mesmo. Tem três facções, que são os caras que se estabeleceram, estão na boa, jogando o campeonato gaúcho, tem os caras que estão no meio do caminho, tentando usar, e os caras que não estão nem aí pro rádio. Tem estes três tipos, o intermediário, o que não vai fazer e o que só faz isso. Mas acho que o rádio ainda é bem importante. Ele tem um papel fundamental, primeiro que não temos rádio digital no carro ainda, e audiência de rádio, no carro, é gigantesca. Segundo porque o lance de conceituar a música, o artista ou a banda, quem faz isso é o cara do rádio, não o rádio digital. As pessoas ainda seguem muito os comunicadores, e acho que vai ser sempre assim. Durante muito tempo eu fazia isso com as bandas gaúchas. Eu dizia que era legal e as pessoas iam escutar. Recebia em média uns 10 ou 12 CDs por semana, pra mais, e eu ouvia todos.

Culturíssima: Teve alguma que tu errou muito, pensou que não ia dar em nada, e deu?

Inchauspe: Claro, várias! O Armandinho foi um. Lembro quando o Felipe Dimartino me trouxe Folha de Bananeira. Eu disse não, ‘tu tá louco?’ E olha quem é o Armandinho hoje. Mas claro, eu sei porque eu errei, porque eu não enxergava o produto. E o Armandinho conseguiu fazer as duas coisas, produto e música boa, mas eu estava na vibe do rock.

Ainda escuta muito Fito Paez?

Culturíssima: Rock gaúcho é gênero?

Inchauspe: Não. O rock gaúcho, por ser rock gaúcho, ele não consegue passar o Mampituba. Essa coisa do rock gaúcho, às vezes, é engraçada. Por exemplo, qual a última banda de rock que tu viu tocando no Brasil inteiro? Cachorro Grande. Tocou até no especial de final de ano da Globo. A Cachorro é rock gaúcho? Não, eles são uma banda de rock, feito no sul, assim como tem rock feito no norte. O gaúcho, tenho que ter cuidado porque pode soar uma coisa meio perigosa, mas o gaúcho ainda não conseguiu perceber que ele é exatamente igual a todo mundo. A bombacha que o gaúcho usa, não é gaúcha, é russa. O chimarrão, que é maravilhoso, tomo todos os dias, é uma bebida indígena. O gaúcho teve acesso primeiro ao rock no Brasil porque o rock entrou primeiro pela Argentina, mas isso não faz a gente melhor que os outros. O que é o rock gaúcho? É um momento ali nos anos 80, que deu uma bombada e tal, mas naquele momento, se colocasse todas aquelas bandas ali em Rio/São Paulo era gol. A diferença é que eles estava aqui no sul, onde não é gol nunca. Em primeiro lugar, a música é do universo. O rock gaúcho virou um rótulo que, muitas vezes, atrapalhou as bandas. Mas é engraçado, eu falava coisas no rádio e nunca me dei conta, porque a chamada do programa era “Conexão RS, o rock gaúcho toca na Pop Rock”. Não tinha que ter usado essa frase, porque era rock. E, ao mesmo tempo, a galera daqui não se ajuda. Isso eu tenho observado ouvindo a galera. Acho que esse movimento se perde justamente na falta de parceria. Tu carregar uma bandeira que te limita, é prejudicial, e demorei muito para perceber isso. Quando tu coloca um rótulo, ou ele faz sentido pra muita gente ou tu te torna excludente. O que eu faço da vida? Faço sushi, mas não é sushi gaúcho. Ah, fiz uma trilha para um longa. Mas não é uma trilha gaúcha, é uma trilha para um longa. Lancei um disco com a Mani Mani, que é uma banda que mora aqui mas não tem sotaque. Não é porque eu não quero, é porque não tem! Acho que é isso… não sei se fui claro [risos].

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Um Comentário

  1. Amei a entrevista. Saudade de ouvir esse cara no rádio. Aliás, saudade também de ter uma rádio boa pra ouvir em Porto Alegre…

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