Bob Bahlis, o teatro não é para amadores

Reprodução Facebook. Foto: Cínthya Verri.

Reprodução Facebook. Foto: Cínthya Verri.

Luiz Paulo Teló

Foi ainda no início dos anos de 1990 que Otávio virou Bob. Primeiro como personagem, depois como nome artístico. Ninguém mais parecia disposto a chama-lo de Otávio Bahlis. Quer saber? Tudo bem! Ele preservou o sobrenome e, após o sucesso de Bob Pop Show, que começou com uma brincadeira de Karaoquê, construiu uma das carreiras mais sólidas do teatro gaúcho.

Bob nos recebeu em sua casa, no centro de Porto Alegre, para falar sobre sua trajetória até aqui. Ator, diretor, dramaturgo. Tanto faz. Bob Bahlis gosta mesmo é de contar histórias. E, claro, adaptar para os palcos aquelas que já lhe tocaram de alguma forma. Foi assim com o livro de Fabrício Carpinejar, Filhote de Cruz Credo, também com João e Maria e até mesmo com Clube dos Cinco, clássico filme dos anos 80, época em que era adolescente e descobria o teatro na escola.

A sua peça mais recente, Tedy, O Amor não é para Amadores, uma comédia com José Henrique Ligabue, estará novamente em cartaz na capital gaúcha entre os dias 10 e 13 de junho, no Teatro do Sesc. Bob nos contou um pouco sobre a dinâmica desse espetáculo e ainda deu pistas de seus próximos projetos.

Culturíssima: Como você ingressou na carreira artística?

Bob Bahlis: A memória que tenho mais antiga é no colégio. Estudei no São João, lassalista, e na infância sempre houve um interesse pelas atividades artísticas que tinham dentro da escola. Também lembro de um espetáculo infantil que foi se apresentar dentro do colégio, que tinha a Suzana Saldanha no elenco, só não consigo recordar o nome do espetáculo, mas me tocou profundamente e me fez pensar em como eu gostaria de estar fazendo aquilo. Eu morava na Zona Norte [de Porto Alegre] e nem imaginava que existia o Bom Fim, a Osvaldo Aranha, então acabei o colégio em 1986 e foi quando comecei a descobrir este outro universo que tinha na cidade. E aí fui para um curso de teatro. Lembro que o primeiro curso foi na Terreira da Tribo, eles tinham uma oficinas nas segundas-feiras, de graça. Depois fiz um curso com o Júlio Conte, e assim foi indo, até que comecei a fazer espetáculos como ator.

Culturíssima: Como foram os primeiros trabalhos como ator?

Bob Bahlis: As minhas primeiras peças foram teatro de rua. Na época, tinha apenas a Terreira da Tribo que fazia esse trabalho com teatro de rua. Então o meu grupo, que se chamava Pé de Palco, era muito ligado com eles, convivíamos muito. Lembro de cenas assim: o Gilberto Gil em Porto Alegre e nós fazendo uma janta pro Gil lá na Terreira, passamos a madrugada inteira lá conversando. Momentos super bacanas com a Terreira. E acho que meu primeiro sucesso foi na rua, que o personagem que eu fazia era o Collor. Se chamava Faltou Dinheiro na Praça, foi bem na época da história das contas bancárias, que ele segurou a poupança e ninguém podia mais tirar dinheiro. A gente perguntava: o que você faria se encontrasse o Collor na fila de um banco? E entregávamos uma arma de brinquedo para o público. Claro, todo mundo queria matar o Collor, mas eu, na lábia, tinha que convencer que não. Nesse ano, que fiz esse personagem, recebi muitos convites. Teve o Amir Haddad, do Rio de Janeiro, que estava aqui, do grupo Tá na Rua. Ele me convidou para ir trabalhar com eles no Rio, mas eu não fui, era muito guri na época. As pessoas me chamavam para os programas de televisão pra participar como Collor. Foi quando senti pela primeira vez a coisa da exposição, de fazer um trabalho que está chamando a atenção. Mas, claro, foi o Bob Pop Show que me colocou nesse mercado, foi quando as pessoas passaram a me reconhecer como ator, como um profissional. O Bob Pop Show era um programa de auditório, que acontecia em um bar. Eu fazia um personagem, que era o Bob, um apresentador com todo os esteriótipos, e tínhamos atrações. Em um mês o programa explodiu. Era em um bar chamado Paisley Park, na Dom Pedro II. Era nos domingos, começava cedo, tipo sete da noite. Tinha dias que eu olhava e estava na plateia pessoas como Moacyr Scliar, Carlos Urbim, pessoas que eu não conhecia pessoalmente. Às vezes tinha um espetáculo de Rio e São Paulo aqui e, de repente, estavam lá assistindo. As pessoas riam muito do meu improviso, desse time da comédia. A partir dali meu nome ficou Bob, todo mundo passou a me chamar de Bob. Enão nessa época recebi um convite para trabalhar na Ipanema FM, como produtor. Às vezes entrava no ar, substituindo alguns dos locutores. Em um segundo momento a TVE me chamou para apresentar o programa Radar. Cheguei lá e o diretor me perguntou: “qual o nome que nós vamos usar?” Falei que íamos usar meu nome, Otávio Bahlis. Ele disse não! “Tu é o Bob. Vamos usar o Bob Pop”. Mas e aí, vou perder minha identidade pra sempre? Então me veio a ideia de Bob Bahlis, que pelo menos continua o meu sobrenome. E ficou… minha filha me chama de Bob!

Cartaz do show, nos anos 90.

Cartaz do show, nos anos 90.

Culturíssima: Desde quando as pessoas te chamam assim?

Bob: Desde 1992. É engraçado, pois às vezes, caminhando na rua, escuto “Otávio”! Sei que são meus amigos de infância ou a galera que me conhecia antes do Bob Pop Show. E tem algumas pessoas, como o Zé Victor Castiel, que me chama de Tatá, por causa da filhas dele, que me chamavam assim quando eram crianças. Já pensei sobre isso – agora nem tanto mais -, mas será que não está na hora de voltar a assinar o meu nome como Otávio Bahlis? Mas ok, já está resolvido.

Culturíssima: Como era no Bob Pop Show, você se dirigia?

Bob: Um amigo meu, o Felipe Di Martino, que hoje é produtor do Armandinho, me ligou dizendo que estava com um bar e queria que eu fizesse um Karaoquê ao vivo, com banda. Foi assim que surgiu, a coisa ficou super divertida e ele comentou que aquilo tinha que virar um programa de auditório. Então, na época, chamei a Patsy Cecato pra fazer a direção, além de ficar junto comigo no palco como assistente. A coisa foi tomando uma proporção muito grande. Vamos colocar umas gurias dançando, as “bobetes”, vamos incorporar essa coisa do auditório, então depois a gente foi para o Porto de Elis e para o Bar Opinião. Ficamos anos no Opinião, quando o programa era quinzenal e depois passou a ser mensal, porque tinha três horas de duração, com um público gigantesco… aí veio convite pra rádio e televisão, foi quando resolvi parar de fazer, em 96. Em 2001 nasceu a minha filha, e aí pensei pô, vou fazer o Bob Pop Show, pra relembrar e completar essa alegria que está minha vida nesse momento. Fiz cinco sessões em 2001, na Casa de Cultura Mário Quintana. Teve Vítor Ramil, Deise Nunes, a Pipa, que tinha acabado de sair do programa No Limite, Alemão Ronaldo, Neto Fagundes cantando Caetano Veloso, Tequila Baby, essa misturança… Foi super legal, sucesso, mas nunca mais fiz. Foi quando que, nesse ano, fiz uma outra sessão, no bar Ocidente.

Culturíssima: Como você se sentiu fazendo novamente?

Bob: Me senti muito bem! Eu tinha muito medo, porque há muitos anos eu só escuto isso, que tem de voltar com Bob Pop Show. Todo ano a Secretaria de Cultura me chama pra fazer uma edição na semana de Porto Alegre. Mas, na minha cabeça, esse personagem era para um ator de 30 ou 20 anos. Porém, esse ano começou a cair a ficha. Pô, o Marcelo Tas, que é um coroa, careca, divertido, ele se comunica super bem com a juventude. E aí pensei que era bobagem minha, que não estou tão velho assim. Tinha um pouco de receio de como me sentiria ao vivo, e foi bem, foi muito bem, foi muito legal. Entrevistei a Luciana Genro e, no final, de surpresa, falei pra ela: quero te convidar pra dançar uma música comigo, New York, New York. Nisso o DJ tocou, dancei com ela e ela arrasou. Fez uma performance que me deixou até encabulado! O que vou fazer pra superar ela agora [risos]? E foi tudo no improviso. O show aconteceu em apenas uma sessão, a gente pagou as contas, de equipamento de luz, som, algumas pessoas da equipe técnica, e o dinheiro que sobrou foi doado para a Companhia de Arte, que está fechada. Então foi uma noite especial, e isto talvez tenha me estimulado a voltar. Eu me diverti tanto, tanto, foi tão legal, uma noite tão divertida. Muita gente que não conhecia o Bob Pop Show comentando “cara, tu é um baita entrevistador”, “como tu é engraçado, por que não faz um stand up comedy?”. E foi legal mesmo, acho que vão ter outros esse ano. Só não quero ficar com compromisso, de fazer uma vez por mês. Não! Calma, sabe? Foi gravado, com seis câmeras e é isso, me sinto bem feliz naquele momento em que estou ali fazendo.

Com a Luciana Genro, na mais recente edição do Bob Pop Show. Foto: Reprodução Facebook.

Com a Luciana Genro, na mais recente edição do Bob Pop Show. Foto: Reprodução Facebook.

Culturíssima: E como aconteceu de você virar diretor, dramaturgo, escrever os textos das peças?

Bob: Chegou uma hora que enchi o saco. Fazia muito comercial de TV que entrava em rede nacional, viajava pra Santa Catarina pra gravar campanhas, teve toda uma viagem nisso, comecei a cansar daquilo tudo. Aí eu começo a trabalhar com televisão, nasce a minha filha, a minha vida dá uma mudada geral e vem a vontade de começar a contar histórias. Muito relacionado com o nascimento da minha filha, daquela necessidade de ficar contando histórias para ela. Foi daí que surgiu a primeira peça que escrevi e dirigi, em 2006, uma livre adaptação para João e Maria, que ficou João e Maria – Um Aventura no Terreno Baldio. Foi muito legal! Ali eu já fui indicado a prêmio de dramaturgia, o Jorge Furtado foi assistir com a filha dele e depois me passou um texto para teatro que era inédito, Pedro Malazarte e a Arara Gigante. Montei esse texto, que também teve várias indicações. Daí entre 2001 e 2006 eu fazia televisão: TVE e Band. Dirigia aquelas programas jovens que tinha na época, o N TV, o College TV, com o Eduardo Santos. Eu estava trabalhando só com isso, aí em 2006 pensei chega, vou voltar para o teatro, que é uma coisa que eu gosto e sou feliz fazendo. Ontem até estava me lembrando, fiquei postando no facebook as propagandas das peças que já fiz. Comecei a ver e, são muitas peças! Bá, que loucura. E tenho três textos inéditos, um sobre a Sylvia Plath, poetisa americana que se matou em 63, tenho um texto que escrevi há quatro anos, sobre uma família que esta na praia para passar o réveillon, e tenho um projeto muito bacana que está roteirizado que é o Myrna, do Nelson Rodrigues. Tem aquele livro do Caco Coelho, em que ele selecionou os textos do Nelson quando ele usava o pseudônimo Myrna. Eu procurava muito um ator pra fazer essa personagem, a Myrna, aí achei um, de Caxias do Sul, com uma personagem ótima, uma velha chique de verdade, e agora estou pra ensaiar esse espetáculo em Caxias.

Culturíssima: De modo geral, como faz pra escolher os teus atores?

Bob: Depende, às vezes conheço alguém nas minhas oficinas de teatro. Olho os alunos, as pessoas, e já penso que aquele poderia ser um personagem pra aquilo que eu estava pensando. É assim… é muito o perfil da pessoa. Às vezes estou com o espetáculo pronto e preciso encaixar um tipo físico. Não tem uma lógica, mas o ator tem que me estimular muito, porque ele vai conviver comigo. Tem que ser uma pessoa interessante, senão vira um tédio o processo.

Culturíssima: O que mais te orgulha de ter feito?

Bob: Cara, o Tedy, que é meu espetáculo mais recente, um solo com o José Henrique Ligabue, é um texto que tenho muito orgulho de ter inscrito, porque fiz uma pesquisa muito grande sobre o tema amor, e filosofia, psicologia. É um texto que eu gosto muito, que mostra minha evolução como dramaturgo. Mas na verdade, e ontem, como estava te falando, estava vendo as coisas antigas, é quase como um filho, tu gosta de todos.

bob bahlis_ tedy

Culturíssima: Tedy volta em cartaz agora em junho. Qual a dinâmica desse espetáculo?

Bob: A coisa toda pintou assim: um dia estava aqui e bate aqui em casa o tal do ator José Henrique Ligabue. Ele tinha acabado de chegar do Rio de Janeiro, recém tinha feito uma novela da rede Globo, Flor do Caribe, e o personagem dele tomou uma proporção grande durante a novela, chegando a ter um final. Quando um personagem chega a ter um final no último capítulo, é porque ele atingiu os objetivos. Então esse cara, que eu não conhecia, um dia bateu aqui em casa pra conversar comigo. Claro, trocamos uma mensagem antes e disse pra ele passar aqui. Quando vi o rosto dele bá, conheço esse cara de onde? Bom, o cara fazia novela, tu abria os sites tinha foto dele jogando bola na beira da praia, aquelas coisas de galã de televisão. Aí fomos conversando, e ele muito ‘paz e amor’, com pensamento positivo, e eu sou um pouco assim, hiponga. Então falei pra fazermos um espetáculo sobre o amor. Aí comecei a pesquisar e cai nesses TEDs Talks, que são palestras de 18, 20 minutos. É uma das coisas mais acessadas na internet, com pessoas contando coisas ou passando mensagens positivas sobre qualquer assunto. E aí veio a ideia: vamos fazer um TED sobre o amor! Comecei a pesquisar todos os grandes palestrantes, os que ficaram milionários. Fiquei obcecadamente vendo, segundo por segundo, quantos passos o cara dava, pra onde ele olhava, quando ele pausava, a virada de rosto, a hora que levanta a mão pra reforçar alguma ideia. Nisso descobri um livro americano que também já tinha toda essa análise. Daí eu cheguei nesse personagem, e é tudo muito ensaiado, as pessoas acham até que ele está improvisando. As pessoas entram na história, é incrível, tem gente que já viu seis vezes. É ele sozinho, falando sobre o amor, e sobre a vida dele. Foi um trabalho muito bacana de fazer.

Culturíssima: Há alguns anos você fez o Stand up Drama. Foi uma espécie de resposta ao estilo stand up comedy que estava em alta naquele momento? E por que essa coisa da comédia stand up não vingou por aqui?

Bob: O stand up comedy tem suas variações. Vamos pensar… no Bob Pop Show, de uma certa maneira, estou fazendo um stand up ali, entre as atrações que apresento. O Guri de Uruguaiana também, de uma certa maneira ele faz stand up comedy. São as ramificações, muito mais elaboradas. Agora, acho que a pessoas têm que ser engraçada e ter o time pra comédia. Mas sabe que tem uma geração nova, de um gurizada com 17, 18 anos, que nasceu querendo ser um desses famosos do stand up. Não como a minha geração, que queria ser Paulo Autran, Fernanda Montenegro. Hoje eles querem ser o Fábio Porchat. E eles são bons, eu tenho visto essa gurizada. Só que, claro, é difícil, mas tem gente que já nasce pronta. Mas sobre o stand up, eu não curto muito, não acho graça nesse tipo de formato. Só se o cara é muito bom, se tem essa essência da comédia, aí ele me pega. Mas geralmente as coisas que vejo, não acho graça. Agora, o Stand up Drama veio assim, ao invés de fazer as pessoas rirem, fazer as pessoas chorarem. São histórias simples, mas uma porrada. O público chega a rir de nervoso, é bem pontual, as pessoas embarcam, também se emocionam muito. É um espetáculo curto, em que cada ator conta duas histórias, se revezando no palco, no estilo stand up.

Bob lê um dos textos de Stand up Drama

Culturíssima: E como, naquele ano, foi abordar um assunto sério, como o bullying, mas em uma peça para crianças?

Bob: Naquela ano pensei assim, em fazer uma peça adulta de drama e uma peça infantil de drama. O Filhote de Cruz Credo foi incrível, pois as crianças se identificam. Essa coisa do bullying é um horror. O livro [homônimo] do Fabrício [Carpinejar] é pequeno, então pedi pra ele se não tinha mais textos sobre a infância e adolescência, sobre o tema, porque se fosse só o livro, ia ser 15 minutos de peça. Aí ele me mandou muitos textos. Tinha momentos muito pesados na peça, mas muito bem colados, pra logo em seguida a pessoa rir também.

Culturíssima: Gosta mais de dirigir peça adulta ou infantil?

Bob: Tanto faz, gosto é de fazer as pessoas se emocionarem. Tipo o Tedy, que é uma comédia, mas as pessoas choram. É esse o meu propósito, de passar alguma coisa, fazer o público reagir. Não sei se faço certo ou errado. Acho que sim, porque, graças à deus, meus espetáculos estão sempre lotados.

Culturíssima: Embora possamos ter a impressão que a agenda cultural de Porto Alegre é meio parada, na real sempre tem coisa acontecendo na cidade. O público comparece?

Bob: Assim, ó: Stand up Drama é de um público mais reduzido, mais seleto, de gente mais curiosa. Um espetáculo como o Tedy já é para um grande público, em que as pessoas vão para rir, se divertir. Então depende muito do produto que tu está colocando em cartaz. Vou remontar o Stand up Drama, vai voltar em julho. E aí, velho, sei que não é para grande público, mas quem estiver lá vai se emocionar, vai sair transformado, vai ficar com aquilo na cabeça. Mas aí tem que optar: o que eu quero fazer? No meu caso, a grande batalha é essa de, além de ocupar a rotina do dia a dia, que é um tédio, com coisas interessante, com textos, trabalhando atores, e ganhar dinheiro, viver da arte. Então é isso, não tenho preconceito quanto a estilo ou gênero, eu só gosto de contar histórias, tentando montar, todo ano, um espetáculo adulto e outro infantil.

"Fico com pena dessa juventude, muitas vezes. [...] Pensam assim: bá, estou com 20 anos e não fiz sucesso, já estou velho! Tento controlar muito eles nesse sentido."

“Fico com pena dessa juventude, muitas vezes. […] Pensam assim: bá, estou com 20 anos e não fiz sucesso, já estou velho! Tento controlar muito eles nesse sentido.”

Culturíssima: Como é pra quem está começando hoje e quer trabalhar com teatro?

Bob: Tem uma coisa que vejo que é a ansiedade. Fico com pena dessa juventude, muitas vezes. Essa coisa da tecnologia colocou eles em um ritmo muito frenético, então muitos estão com 20 anos e acham que já estão velhos. Eles carregam uma cobrança muito grande. Pensam assim: bá, estou com 20 anos e não fiz sucesso, já estou velho! Tento controlar muito eles nesse sentido. Gente, calma! Há 10 anos tu só tinha 10 anos de idade! Calma, está fazendo tudo certo, estudando, batalhando, lendo. E vejo muita gente talentosa, é impressionante. Tem um texto do Luís Dill, da FM Cultura, que é O Estalo, é um livro dele. Tenho uma vontade de montar esse texto que é uma coisa que me assombra! É a história de dois adolescentes que vão se encontrar pra transar em uma casa na praia que está em construção. Ela é moradora do litoral e ele um guri moderninho. Eles foram se encontrar lá e a casa desmorona, e ninguém sabe que eles estão ali. Aí é o dialogo deles, que vão se dando conta que ninguém sabe que eles estão ali e vai dando uns estalos, porque a qualquer momento pode desmoronar mais e eles estão no últimos instantes de vida. Durante o diálogo tu vai descobrindo a vida deles. É muito legal. Não sei se vou conseguir fazer esse ano, ano que vem, mas é uma história que eu quero.

 Culturíssima: Já teve alguma turnê fora do estado? Tem essa vontade?

 Bob: Teve um momento que fiz O Clube do Cinco, baseada no filme dos anos 80, que tem uma temática adolescente. Olha como são as coisas! Foi um filme que marcou a minha adolescência. Aí uns dois ou três anos atrás, uma menina da internet, chamada Kéfera, que eu nem sabia quem era, compartilhou o post de uma menina aqui de Porto Alegre que tinha visto a peça e tinha gravado com o celular alguma coisa. Sei que fui buscar a minha filha no colégio e ela entra no carro dizendo: “Pô, tu não me falou que a Kéfera falou da tua peça!” Quê Kéfera é essa? Tá louca? “A Kéfera, ela curtiu o negócio lá da tua peça, está todo o colégio falando!” Daí fui ver quem era a tal da Kéfera. Na mesma semana os fãs dela em São Paulo começaram a encher o saco do Sesc, então eles levaram a peça pra oito apresentações em Sorocaba. Foi um sucesso a peça lá, incrível! O Tedy agora, queremos fazer uma temporada no Rio, acho que setembro. Claro que tenho vontade de levar pra fora, mas é difícil. Como alguém vai saber que tu está fazendo uma peça legal em Porto Alegre? Ah, de repente pela internet, por uma possoa que compartilha algo, ou por um rosto global. E o Tedy, além de ter esse rosto global, tu tem que ter esse entendimento de texto, como nesse negócio de novela, senão tu não segura a onda. E esse cara (José Henrique Ligabue) tem um carisma incrível.

 Culturíssima: Assiste novela, Bob?

Bob: Comecei a ver essa semana a novela das seis da tarde porque a Ilana Kaplan está na novela, que é uma atriz aqui de Porto Alegre, que já mora em Rio/São Paulo já faz anos, e é uma amiga minha. Então, eu vejo, mais pra ver o trabalho dos meus amigos… Mas, sabe, vou falar uma coisa que vão me matar! O meu sonho é escrever um monólogo para o Alexandre Frota. Tenho o texto praticamente pronto. É um texto muito psicológico, filosófico, e também com humor, mas não é uma bobajada. E eu penso muito no Alexandre Frota. Não sei como vou mandar esse texto pra ele, mas quero que um dia ele receba!

Culturíssima: Vai a teatro todas as semanas?

Bob: Vou muito. Teve uma época que eu não ia, mas hoje vou muito. Vou assistir amigos que estão em cartaz com seus espetáculos. Procuro ver peças infantis e adultas. Claro, não consigo ver tudo. Até teve um ano que fui jurado do Açorianos de Teatro, aí assisti a todas as peças, foi muito bacana. Esses dias fui ver um espetáculo no DAD [Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS], uma montagem de um ator jovem, e tive uma grande surpresa, porque vi o espetáculo de um cara que faz um trabalho em cima da Beyoncé, e tem uma coisa assim, de travesti, de ser homem ou mulher, e um texto muito profundo. Luis Manoel o nome dele, acho. Muito legal o trabalho dele. Tem uma banda tocando ao vivo, mais uns cinco dançarinos. E fui lá, assistir a esse guri, porque já haviam me comentado. Me chama atenção essas pessoas que estão fazendo coisas diferentes. Às vezes vou ver coisas que poucas pessoas vão ver, isso que me move. Chega uma hora na vida que cansa, tu já viu muita coisa. Aí parece meio repetitivo. Mesma coisa que abrir um jornal, se for natal tu já sabe que vai ter matéria das cartinhas do correio, receita de comida para o natal. Isso me irrita um pouco, eu sei o que vai estar ali. Quando escolho um espetáculo para assistir, procuro fazer essa seleção do tipo: ah, essa é uma coisa que eu não tinha pensado ainda.

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