Claudia Tajes: “Minha contribuição é não ter mulheres belas, recatadas e do lar no meu trabalho”

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(foto: Denison Fagundes)

Luiz Paulo Teló

A porto-alegrense Claudia Tajes está no Rio de Janeiro. Escritora, publicitária e redatora, ela trabalha desde 2010 na Rede Globo. “Porto Alegre não tem mais trabalho para quem vive de escrever”, nos contou, em um bate-papo que tivemos um pouco por e-mail, um pouco por Facebook. Por algum motivo que não sabemos, os meios digitais sabotaram a entrevista, atrasando a publicação desta matéria – que deveria ter sido feita no início do domingo. Contudo, Claudia sempre se mostrou muito solicita, inclusive respondendo a maior parte das perguntas durante o final de semana.

Autora de uma dezena de livros, como como Dez (Quase) Amores (L&PM Editores, 2000) e A vida sexual da mulher feia (2005), já viu muitos dos seus trabalhos serem adaptados para a TV e para o teatro. Lá, da Cidade Maravilhosa, avisa que sente falta mais do que deixou em Porto Alegre, do que propriamente da cidade. “Eu sou apegada aos que deixei, meu filho, meu namorado, minha família, meus amigos. A ter uma casa que pareça com a minha casa”, revela.

Claudia Tajes também falou sobre as suas mulheres, suas personagens. Em época de busca do protagonismo feminino e empoderamento das mulheres, ao analisar a própria obra, define:  “Acho que a minha contribuição é mais no sentido de não ter mulheres belas, recatadas e do lar no meu trabalho”.

Culturíssima: Mudou para o Rio a trabalho? Como está sendo a experiência?

Claudia Tajes: Porto Alegre não tem mais trabalho para quem vive de escrever. Eu sempre fui redatora de propaganda, mas hoje em dia são pouquíssimas as pessoas da minha idade, se não forem sócias ou diretoras das agências, que sobrevivem na publicidade. Minha sorte foi que, quando a coisa começou a ficar feia para o meu lado, fui contratada pela TV Globo. Não que seja fácil. São muitos autores, todos tentando emplacar seus projetos, todos com pretensões de fazer alguma coisa boa e relevante. Estou na TV desde 2010 e esta tem sido a minha vida. Mas não desisto.

Você é daquelas porto-alegrenses apegas à cidade? De que sente falta em Porto Alegre e do que não sente falta nenhuma?

Eu sou apegada aos que deixei, meu filho, meu namorado, minha família, meus amigos. A ter uma casa que pareça com a minha casa. A alguns trabalhos legais que fazia, o Sarau Elétrico, por exemplo. Ao Grêmio. E a participar dos movimentos da cidade, ainda mais nesse momento em que a gente precisa tanto resistir. E não sinto falta nenhuma das nossas administrações municipal e estadual – e do descuido com que tratam as pessoas, Porto Alegre, o estado.

Ainda que modesto, a nosso modo, Porto Alegre tem um circuito cultural semanal em que bastante coisa acontece. Em certa medida, você fazia parte disso. No RJ, você já tem essa intimidade com a cena cultural, de frequentar lugares e tal?

Não. No Rio acaba sendo tudo longe, o trânsito é complicado. Ir a algum lugar exige programação. Tenho ido ao teatro, mas nos finais de semana, e a alguns eventos e palestras de literatura – mas menos do que deveria e gostaria. Acaba que a cidade oferece muito, mas é difícil pegar a manha dela. Ao menos pra mim, que sou um ser meio enrustido.

Você falou ali em resistir. Estamos em um momento em que se discute muito o protagonismo da mulher na sociedade, e muitos desses movimentos de jovens na ruas e nas redes, possuem diversas meninas com papel de destaque, tomando à frente. Você entende que a tua obra, de alguma maneira, está alinhada com esse discurso de buscar protagonismo feminino, ou não, você tente a trabalhar com outro tipo de personagem?

De alguma forma as minhas personagens sempre são meio tragicômicas, buscam por amor sem sucesso algum e acabam se encontrando em alguma atividade, depois de muitos percalços, porque esse é um maravilhoso caminho para uma pessoa se resolver. Mas com certeza existem autoras muito mais aplicadas que eu na questão feminina. Acho que a minha contribuição é mais no sentido de não ter mulheres belas, recatadas e do lar no meu trabalho. Seja mulher ou homem, eu gosto de gente – e de personagens – fortes.

Com mais de 15 anos se dedicando à escrita, o que você lembra e pode falar daquele momento em que deixa a publicidade para publicar o primeiro livro?

Eu consegui publicar seis livros sendo redatora de propaganda, escrevia de noite, nos finais de semana, sempre que dava. Por mim, poderia levar assim pela vida toda. Mas tem uma coisa cruel na publicidade que é a necessidade de se ter, no máximo, trinta e poucos anos para sempre. A juventude cronológica é vista quase que como currículo. São poucas, e admiráveis, as agências de Porto Alegre que não pensam assim. Quando ouvi de um dos guris que estavam no comando de um trabalho que eu era “muito velha” para fazer propaganda de uma marca de chinelo – de chinelo! –, entendi que era a hora de sair. Não que tenha sido uma decisão tranquila, é difícil mudar de rumo com quarenta e vários anos. Foi quando eu fui para a TV. E continuei escrevendo minhas histórias de noite, nos finais de semana, sempre que dá.

No Sarau Elétrico. Da direita para esquerda: Claudia Tajes, Humberto Gessinger, Katia Suman, Luis Augusto Fischer.

No Sarau Elétrico. Da direita para esquerda: Claudia Tajes, Humberto Gessinger, Katia Suman, Luis Augusto Fischer.

Em que você está trabalhando atualmente?

Eu saí há pouco de uma novela das seis que estourava o ibope de tanto sucesso, mas onde se brigava o tempo todo – vai entender. E agora estou em três projetos de programas, ralando muito para que vinguem.

Teus mais recentes livros são reuniões de contos. Como foi trabalhar com esse formato pela primeira vez?

O Partes Íntimas, que saiu em 2015, reúne as crônicas do jornal e alguns contos como um apêndice no último capítulo do livro. Sangue Quente, de 2013, foi o primeiro em que me arrisquei no conto. E olha, acho tudo difícil. O conto pode ficar mal resolvido com muita facilidade se a gente não cuidar dele com carinho, mas não são poucos os perigos para uma novela ou romance ficar arrastado e chatíssimo. Eu sempre penso em uma frase da Dorothy Parker quando termino um capítulo: “Esse não é um livro para ser sutilmente jogado de lado. Ele tem que ser jogado com toda a força”. Eu não quero que os leitores atirem meu livro na parede!

Quando você escreve, literatura, já imagina como aquela história ficaria no teatro, no cinema ou na televisão? Como é pra ti o processo de adaptação?

Não penso, senão uma coisa atrapalha a outra. Sem falar que são muito diferentes. No roteiro tudo é ação, não existem as digressões e o psicológico de que a gente se vale tanto. A não ser, claro, que o sujeito seja o Lar Vons Trier.

O que você anda lendo e o que você sempre volta a ler?

Eu estou lendo os Primeiros Contos do Truman Capote. E sempre volto a ler, sempre mesmo, o Paul Auster. Porque cada leitura é diferente e, se isso é possível, ainda melhor.

Gosta de ler Cláudia Tajes?

Acho que é uma leitura honesta. Mas prefiro não ler para não me confrontar com os enganos que ela pode, e deve, ter cometido.

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