Conversamos com Marcos Santuário, um dos curadores do Festival de Cinema de Gramado

Edison Vara/PressPhoto

Foto: Edison Vara

Luiz Paulo Teló

Entre os dias 7 e 15 de agosto, ocorreu na serra gaúcha o 43° Festival de Cinema de Gramado. Como sempre, repleto de polêmicas em torno dos filmes selecionados, dos premiados e do tapete vermelho (confira aqui os vencedores deste ano). É por isso que fomos conversar com o jornalista Marcos Santuário, um dos três curadores do festival.

Crítico de cinema, Santuário é Editor de Cultura do jornal Correio do Povo e editor do blog Cine CP, além de membro fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS). Desde a edição número 40 do Festival de Gramado, integra a curadoria que deu novos rumos ao evento, junto com Rubens Ewald Filho e José Wilker – depois substituído pela argentina Eva Piwowarski. “Gramado estava com um cinema super hermético, muito autoral, muito ligado a seu próprio umbigo e muito relacionado com uma crítica cinematográfica cabeça”, nos contou.

Culturíssima:  Em comparação com outros festivais do Brasil e da América Latina, qual o tamanho do Festival de Cinema de Gramado?

Marcos Santuário: Posso te dizer sem medo de errar, exatamente por participar da maioria destes festivais, que ele é um dos maiores festivais da América Latina. Claro, cada festival tem seu estilo e sua forma de organização. No Brasil, o Festival de Gramado é o que traz filmes brasileiros e latiano-americanos com mais consistência, com mais força e a mais tempo. Outros festivais estão começando a trazer filmes latinos. Hoje no Brasil a gente tem a Mostra de São Paulo, o Festival do Rio, que aí são grandes mostras, com 300, 400 filmes, espalhados por toda a cidade de SP e RJ, em que as pessoas escolhem o que querem assistir, o que já dá uma conotação diferente de Gramado, que só tem um local de exibição. São sete filmes brasileiros em competição, sete filmes latinos em competição, e curta-metragens em competição. Em um festival como estes de Rio e São Paulo, quando o exibidor coloca o filme, ele não sabe se as pessoas do festival vão assistir, porque é pulverizado. Aos moldes de Gramado, a gente tem o Festival de Brasília, que é apenas com filmes brasileiros, tem Recife, que é um festival menor, mas nasceu inspirado em Gramado, estão no 19° ano já. O Cine Ceará, em Fortaleza, também tem uma conotação latino-americana, mas com foco no cinema cubano, pois o organizador é um egresso da universidade de Los Baños, lá de Cuba. Tem um total de quase 400 mostras e festivais no Brasil, desde pequenas mostras, muito focadas em temáticas, até mostras que tentam trazer filmes de vários países. Na América Latina o festival mais antigo é o de Mar del Plata, que também tem essa estrutura monstruosa em que não se sabe quem vai assistir a que filme. Então, dentro desse contexto, eu te diria que Gramado é, sem dúvida, no Brasil, o festival mais estruturado e há mais tempo existindo sem interrupção.

Culturíssima: Você é um dos autores do livro 35 anos do festival de cinema de Gramado. Como você entende a evolução do festival ao longo dos anos e como passou a se envolver mais diretamente com ele?

Marcos Santuário: Estou envolvido com Gramado, jornalisticamente, desde a edição 17 ou 18. O jornalismo cultural como amplitude, e o cinema como especificidade, sempre me envolveram. Sempre gostei desde adolescente. Quando morei no Uruguai, virei sócio da Cinemateca Uruguaia, uma das mais importantes da América Latina, e ali a minha formação disparou, como um conhecedor mais profundo das produções cinematográficas. Sempre digo que devo, em parte, à Cinemateca Uruguaia, minha formação como crítico de cinema, apreciador de cinema. Sobre Gramado, o que eu tenho acompanhado, primeiro em leituras e depois in loco, é que o festival é a melhor maneira de conhecer a história do cinema brasileiro. Isso foi o Fernando Meirelles que nos falou. Homenageamos ele na 40° edição, e ele disse que, se a gente quer conhecer a história do cinema brasileiro, é só dar uma olhada em todos os festivais de cinema de Gramado, porque acaba contando a história do cinema naquele momento e naquele contexto. É o que aconteceu. Se você vai ler o que aconteceu dentro do contexto e das mudanças culturais, sociais, políticas, estéticas, no universo da cultura brasileira, até os anos 90, quando ele era somente nacional, é fácil perceber quando o cinema estava criativo, quando estava lançando tendências, quando estava sendo crítico profundo e inovador. No anos 90 tem um momento em que diminui-se muito a produção. Se fazia 40 filmes por ano e cai pra três filmes por ano. Aí é quando o festival se abre para a produção latino-americana. Estava se discutindo uma ideia de integração, de Mercosul, e o festival, novamente, dentro desse contexto histórico, também se abre para essa produção cultural latina. Do ponto de vista histórico, eu te diria que ele é um bom referencial para entender como que foi se dando o processo de crescimento e desenvolvimento do cinema brasileiro, com seus altos e baixos, até hoje.

Culturíssima: Qual o balanço então dessa última edição e que retrato ela mostra do cinema nacional?

Santuário: Nós, os curadores, medimos esse balanço pelos filmes que foram apresentados. Foram oito filmes brasileiros, sete filmes latinos, 17 curtas brasileiros, 14 curtas gaúchos, uma série de filmes representativos, vitoriosos em outros festivais, uma mostra paralela, com produção gaúcha de longas. Foram mais de 70 filmes apresentados em competição e em mostras. Isso em um universo de 600 filmes que se apresentaram para competir ou exibir. Chega em 2015 e ele é um atrativo enorme para o cinema brasileiro e latino, muitos realizadores querem apresentar o seu filme em Gramado. A gente também vê esse prestígio quando a Anna Muylaert, diretora do filme Que Horas ela Volta?, premiado em Berlim, premiado em Sundance, nos diz que, apesar da inscrição do filme tenha rompido com uma parte do regulamento, ela quer exibir em Gramado. E acabou sendo a première brasileira do filme. O que nós percebemos também é o crescimento da qualidade da produção latina. Conseguimos colocar em cena sete filmes de sete países diferentes. Então foi um momento importante também de trazer uma América Latina pouco conhecida, de Costa Rica, Colômbia, Equador, que são cinematografias que a gente normalmente não conhece. Conseguimos trazer também os principais protagonistas desses filmes, que não são muito conhecidos aqui, mas que em seus países são verdadeiras estrelas. Isso pra nós é motivo de alegria, porque conseguimos colocar o Festival de Gramado nesse patamar de lugar onde os latino-americanos querem estar. Dentro dessa perspectiva, foram mais de 6 mil espectadores em todas as sessões. E depois tu tem o movimento turístico da cidade. Não se pode esquecer que Gramado é uma cidade turística, e o festival  também nasce com esse apelo. Claro que, o objetivo como festival é trazer filmes e poder mostrar o panorama do momento da produção, mas ao mesmo tempo a cidade vai se desenvolvendo turisticamente e vão surgindo novos elementos que se colam ao festival, ainda que sejam independentes dele, mas que agitam e movimentam a cidade durante os nove dias de festival.

Culturíssima: Como crítico de cinema, analisando os premiados, você mudaria alguma coisa?

Santuário: Essa pergunta, quando me fazem, acabo sempre dizendo a mesma coisa. Eu sou crítico de cinema, não sou torcedor de cinema. O pessoal que faz jornalismo esportivo gostou dessa definição, porque o cara é jornalista esportivo, então ele é crítico, ele não é torcedor quando ele está falando. Tem jornalista esportivo revelando o seu time, como se isso fosse, e talvez pra ele seja, um elemento para dizer que a partir de agora se poderá ler com mais transparência aquilo que escreve. O papel da curadoria é olhar no universo dos filmes que vêm para essa seleção e tentar resgatar aqueles que podem causar discussões, polêmicas, debates, trazer o novo, apresentar aquilo que já é clássico, em confronto com o novo, abrir portas para realizadores novos, não fechar portas para realizadores consagrados, mostrar novas formas de narrativa, linguagem e estética e, ao mesmo tempo, deixar passar usos já clássicos mas apropriados a contemporaneidade do cinema. Tu percebe que é um universo amplo para essa análise, onde o gosto pessoal tem que estar em segundo plano. Eu não sou espectador quando faço a curadoria de um festival, sou um analista daquela obra cinematográfica, que vai compor dentro de um contexto, com outras obras, um panorama. Do ponto de vista crítico, sou convidado para compor vários juris, no Brasil e no exterior, e sempre que o faço, o faço com esse olhar crítico, não é votar pelo filme que eu gosto. Os filmes que eu gosto assisto na televisão, na tv a cabo, vou ao cinema, mas quando eu sou convidado assisto aos filmes que me são colocados e faço uma análise criteriosa do ponto de vista da técnica, do conteúdo narrativo, da forma da linguagem utilizada, aí tento compor esse olhar. Cada juri é um juri, ele pode ir para um lado dependendo da força da discussão e da imposição de alguns. Diria que o juri desse ano, em geral, não cometeu nenhuma injustiça com filmes, ou premiando demais ou deixando de premiar alguma obra. Claro, cada crítico que você for falar, dos que estiveram no festival, cada um deles pode ter o seu olhar sobre esse produto cinematografico, e cada um pode compor a sua grade de premiação e pode criticar aquilo que os colegas escolheram. Por isso que um juri tem que ser reduzido, caso contrário vira uma análise infindável de olhares sobre uma obra. Mas em geral saímos satisfeitos com as premiações desse ano, dando a cada filme o mérito que ele tem, e de alguma maneira abrindo as portas da relação fundamental entre essa obra cinematográfica e um público de fora dos festivais que cria o interesse de assistir a esses filmes. Como o da Anna Muylaert, como O Último Cine Drive-In, de um realizador novo, o Iberê Carvalho, que trouxe uma Brasília cinematográfica, histórica, e que fez uma homenagem ao cinema, o Ausência, do Chico Teixeira, vários filmes, incluindo o Ponto Zero, único filme gaúcho que escolhemos para essa mostra. Somos três curadores de três lugares diferentes, e quando escolhemos o Ponto Zero, filme do Zé Pedro Goulart, não escolhemos porque ele é gaúcho, mas sim por ser um filme que merecia estar nessa lógica de competição, da mesma forma que escolhemos três filmes de Brasília. Esse olhar amplo nos dá ideia de que a gente joga para os jurados um número bastante interessante de possibilidades de análises.

Culturíssima: Ao fim de cada festival, a curadoria sempre acaba recebendo críticas sobre a maneira com que busca equilíbrio para a mostra, mesclando filmes populares com realizações mais autorais e/ou experimentais. Como vocês recebem essas críticas e como foi o processo de seleção desta edição?

Santuário: Essa curadoria entrou quando o festival ia completar 40 anos. Quando terminou a edição 39, Gramado pensou: “vamos ter que mudar algumas coisas aqui”. Uma delas é o olhar curatorial, aí convidaram o José Wilker, o Rubens Ewald e eu. Nós três começamos a pensar esse novo olhar sobre Gramado. O Wilker, que era um grande ator, diretor, uma pessoa generosa, um crítico de cinema muito competente, o Rubens também, com toda sua capacidade já conhecida, junto comigo, sentamos e discutimos onde iríamos com o Festival de Gramado. E a gente pesou que o festival tinha que produzir mais diálogos. O grande problema até a 39° edição, é que há uns cinco anos estavam levando Gramado para um lugar onde Gramado não queria ir, que é um gueto cinematográfico de cinema experimental, que tem seus festivais. Gramado estava com um cinema super hermético, muito autoral, muito ligado a seu próprio umbigo e muito relacionado com uma crítica cinematográfica cabeça. A gente pensou que Gramado não queria isso, não tinha essa vocação. Queríamos arejar, e nesse arejar, trazer filmes que tenham possibilidade de diálogo também com o público, que dialoguem com o universo contemporâneo social, econômico, político, cultural, e que dialoguem também com o festival como um todo, dentro dessa cidade de Gramado. Isso exige um olhar muito mais amplo do que um recorte curatorial que gere experimentalismo, por exemplo. Na segunda edição o José Wilker morre, aí vamos atrás de outra pessoa e então constituímos a curadoria com a Eva Piwowarski, que é uma produtora, diretora, que atuou em diversos setores da cultura cinematográfica argentina, seguindo essa lógica que nós tínhamos, e que estamos mantendo. Em se tratando de longa-metragens, que é o que nos toca fazer – os curtas tem comissões à parte -, a gente recebeu 200 filmes entre brasileiros e latinos. Vem de tudo, de todos os tipos, e para dar esse olhar amplo, a gente assiste a todos, discute muito sobre eles e vai compondo. Dentro dessa composição, não há uma única linha, o que seria fácil de ver, reconhecer e assimilar, até por alguns colegas críticos: “ah, Gramado é experimentalismo”; “ah, Gramado está focado no cinema de Hollywood”. A gente está fugindo desses rótulos. Gramado é um festival aberto e quer filmes que produzam diálogos. Claro, os filmes que têm muito apelo comercial, vão estar distantes de Gramado, os excessos estão distantes da nossa curadoria. Quando ele é muito comercial, ele para de dialogar com a crítica, quando ele é muito experimental, ele para de dialogar com o público. A gente nem se abala tanto com os elogios e os tapas nas costas, nem nos desestruturamos por causa das críticas. Vamos avaliando todas elas e tratamos de colocar cada vez mais Gramado nesse cenário, que é o que nos interessa, de um cinema amplo, que traga discussões, mas que não se fecha a nenhuma das tendências, desde que elas não seja extremas.

Edison Vara/PressPhoto

Marcos Santuário (dir.) como os outros dois curadores. Foto: Edison Vara.

Culturíssima: O tapete vermelho e as celebridades globais, ofuscam um pouco o real sentido do festival?

Santuário: Já ofuscaram. Houve um momento em que os pés que pisavam no tapete vermelho nunca haviam pisado em um set de filmagem, então era um pouco contraditório. A gente que conhece e eventualmente viaja para grandes festivais internacionais, sabe que Cannes, Veneza, Toronto, Berlim, são festivais que valorizam muito seus tapetes vermelhos. A gente aprendeu com esses festivais que é possível compor um equilíbrio entre quem pisa no tapete vermelho e quem está lá dentro, sendo homenageado ou valorizado porque está na tela. O que a gente compôs a partir do quadragésimo festival é: vamos continuar trazendo atores que façam televisão, audiovisual em geral, mas vamos trazer essas pessoas que dialogam com o cinema, e não simplesmente atores que estão em novelas e que não têm uma história de relação com o cinema. E essa história pode ser recente. A gente homenageou há pouco tempo o Wagner Moura, que tem um currículo cinematográfico interessante, mas muita gente ainda conhece ele mais pela televisão do que pelo cinema. E esse diálogo que está havendo hoje na contemporaneidade do audiovisual, quer dizer, o cara não é só ator de cinema, ou só ator de televisão. Quando ele é um bom ator, ele consegue transitar por esses universoss. O cinema tem revelado vários nomes que estão compondo grades de programação de televisão. Então, o tapete vermelho é uma homenagem àquelas pessoas que estão lá na tela. É uma espécie de valorização ao trajeto que elas fizeram. Cruzar o tapete vermelho e ser aplaudido por isso é um reconhecimento que nós, organizadores de festivais, queremos prestar a essas pessoas, ao mesmo tempo que a gente quer ir popularizando cada vez mais esse tapete.

Culturíssima: Nesta edição, alguns filmes exibidos foram realizados depois de campanhas de crowdfunding. Por outro lado, aconteceram muitos discursos de realizadores pedindo mais editais para longas. A partir desse panorama, como podemos entender o mercado do audiovisual hoje no Brasil?

Santuário: A produção respeita o contexto em que a gente vive como sociedade, não é algo à parte: “O país está em crise, mas o audiovisual não”. Não é assim. O audiovisual também está inserido nesse universo de crise, e o crowdfunding é uma saída dentro dessa coletividade que a gente vive, esse universo de relações mais imediatas, mais rápidas, graças às formas de comunicação. Dentro desse universo, surge a possibilidade de você não precisar esperar um ente estatal para fomentar o desenvolvimento da sua criatividade, você busca outras maneiras. Em outros países, como nos EUA, esse apoio governamental não é como a gente imagina que possa ser, e não é como é o nosso. Aqui, a maior parte dos realizadores só faz filmes quando tem edital. Quer dizer, não se joga no mercado para desenvolver o seu trabalho. Às vezes eles querem produzir algo que não dialoga muito com esse mercado, aí é questão de discutir essa narrativa, esse conteúdo. Me parece que isso sempre tem que ser analisado para crescer, para ir se desenvolvendo, os governos em todas as esferas tem que aprender a ver a cultura casa vez mais como algo fundamental, pois é um dos lugares onde menos se coloca dinheiro, em geral. Por outro lado, os empresário também tem que se dar conta que essa cultura é importante e seguir apoiando. E uma terceira possibilidade é o financiamento coletivo. Cuba trouxe o primeiro filme para Gramado com financiamento coletivo. Um país totalmente estatizado e de repente, alguém decide fazer. E só assim conseguiu apresentar elementos que até então tinham pouco a ver com a cinematografia cubana, que é aquela que fala do discurso social, do governo, Fidel Castro… Não, é uma comédia dramática, que mostra um dia na vida de três cabeleireiras que recebem o seu dinheiro e vão viver a sua vida fora do trabalho. Poderia ter sido feito em qualquer lugar do mundo, mas foi feito em Cuba, com crowdfunding. Me parece que é uma possibilidade de fazer cinema sem limitações ideológicas, ou estéticas, ou narrativas, buscando esse financiamento. A gente, como seres criativos, vamos encontrando maneiras, em momentos reais de crise, de encontrar saídas, como essa do financiamento coletivo.

Culturíssima: E dentro desse contexto, que avaliação se pode fazer da crítica cinematográfica e do jornalismo cultural?

Santuário: Faz quase 30 anos que faço jornalismo cultual. Fui um dos fundadores da associação de críticos de cinema do Brasil (ABRACCINE) e da associação de crítico do Rio Grande do Sul (ACCIRS), pela necessidade que nós víamos de ter uma entidade representativa que pudesse, claro, se colocar frente a órgãos internacionais, quando é o caso de buscar algum tipo de relação. Estamos tratando de fazer, há alguns anos, com que todos nos conheçamos e que façamos, em alguns momentos, encontros para discutir essa crítica cinematográfica. De forma geral, a gente tem pontos positivos e negativos. O negativo é que os jornais estão dando cada vez menos espaço para a crítica cinematográfica em profundidade. A gente acaba trabalhando no universo do agendamento, dos lançamentos, e com espaço mais reduzido para a crítica. Por outro lado, surge o universo online. Aqui no Correio do Povo, sou editor do blog de cinema, tenho mais dois colaboradores, e fazemos críticas dos filmes que entram em cartaz, que também é um universo. A gente escreve para um público que normalmente não é um público especializado em cinema, e que quer observar a visão de críticos que eles confiam, conhecem, ou que eles querem conhecer e confiar. Eles querem ver além do título do filme, do que se trata, e às vezes até para testar o seu olhar, ele vai ver um filme e depois vem ver o que eu escrevi sobre o filme. Mas em questão de espaço é isso, reduz no tradicional e amplia no contemporâneo. Ao mesmo tempo, a gente trabalha com a dificuldade da formação de críticos. Não existe uma escola de formação. Eu sou professor de jornalismo, e normalmente o que eu digo para os meus alunos é o seguinte: vocês querem ser críticos de cinema? Já estão atrasados! Assistam todos os filmes que vocês deixaram de assistir, desde Cidadão Kane, E o vento Levou, todos os clássicos, vejam a filmografia de Hitchcock, Chaplin… Tem um resgate de anos que você precisa fazer para ter aquele repertório e aí você vai se atualizando. É um trabalho meio pessoal. A gente faz algumas oficinas, para dar algumas técnicas que a gente foi desenvolvendo com o tempo, para quem quiser entrar nesse meio, tenha alguns atalhos. Então, essa formação ainda é falha. A gente trabalha mais com amantes de cinema que se tornaram jornalistas ou especialistas no universo da crítica e, por outro lado, essa estruturação que a gente quer fazer, queremos também discutir a crítica de uma forma constante. A crítica também precisa evoluir da mesma forma que o audiovisual evolui, que a sociedade evolui como um todo. A gente está num processo de crescimento e desenvolvimento, e eu diria que o mais importante é que vivemos em um processo democrático. A gente pode dizer o que quiser, pode afirmar o que pensa e o que entende sobre produções cinematográficas, mesmo que o diretor não fale mais contigo ou o ator te vire a cara, e a gente aprende também a respeitar a crítica dos colegas.

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  • 28 DE MARÇO NOS CINEMAS