Entrevista | Cássio Scapin e o teatro como ofício

cassio scapin

Luiz Paulo Teló

Um dos grandes atores de teatro de sua geração, Cássio Scapin esteve em Porto Alegre no início de março, em três noites no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, com o monólogo Eu Não Dava Praquilo. Em sua breve passagem pela capital gaúcha, o ator tomou um café conosco e bateu um papo agradável sobre seu ofício e sua carreira.

Apesar de inúmeros trabalhos na tv e nos palcos, Cássio ainda é muito lembrado pelo personagem Nino, da série infantil Castelo Rá-Tim-Bum, que foi ao ar na TV Cultura entre os anos de 1994 e 19997. Na conversa, o ator fala sobre essa ligação que as pessoas ainda fazem, também contou como surgiu o texto para a atual peça, baseada na vida e obra da atriz e diretora paulista Myrian Muniz, e ainda contou sobre as dificuldades de se fazer teatro e como a educação poderia formar um público mais interessado. Confira.

Culturíssima: Começando por um clichê. A eterna associação ao personagem Nino, incomoda ou já incomodou?

Cássio Scapin: Já me incomodou, mas não incomoda mais. Teve um momento, que é natural, de trânsito, em que precisei brigar um pouco com isso. Na verdade, pessoalmente, nunca me incomodou. O que me incomoda é a relação que a mídia tem. Então, como foi o grande motor de divulgação da minha imagem, tem horas que tu fala “porra, tem outras coisas, vamos falar de outras coisas”. Mas também agora já degluti isso bem.

Acha que a TV aberta atualmente está devendo para o público infantil programas de qualidade como o Castelo Rá-Tim-Bum?

Acho sim. Uma coisa que acho que resultou nesta confusão, na verdade, foi a limitação do merchandising para o público infantil, essa coisa de não poder vender. Isso fez com que as empresas se desinteressassem por esse nicho dentro da televisão, e também com que as emissoras se desinteressassem. É um erro crasso, pois é um nicho muito importante, um público com uma capacidade muito bacana, e isso deve ser pensado além da questão econômica. A gente tem uma população infantil carente de bons programas culturais, programas interessantes, e isso não está sendo explorado, estão deixando escapar.

O personagem Nino foi tua porta de entrada na televisão…

Na verdade, a primeira coisa que fiz na televisão foi o programa do Faustão [risos].

É? Defenda-se [risos].

Eu sempre fui o chato de teatro. Sai da Escola de Artes Dramáticas [USP], logo de cara já ganhei um prêmio, de ator revelação por uma peça de teatro. E aí começou a rolar televisão pra mim, então sempre fui muito medito. Daí as pessoas ligavam convidando para fazer novela. “Claro! Genial, vamos fazer novela. Mas tem que ser de segunda a quarta, porque quinta, sexta, sábado e domingo eu faço teatro”. Aí nunca dava, e nesse faço teatro, faço teatro, faço teatro, fui empurrando, postergando minha relação com a televisão. Até surgir essa coisa no Faustão. Ele fazia o programa Perdidos na Noite, na Band, e aí tinha que gravar sábado ou domingo de manhã, não lembro. Tinha quadro que eu participava, mas acabou não dando certo, era uma coisa muito de improviso, de auditório. Nesse quadro, fazia dupla com Adriana Esteves. Mais tarde, então, apareceu minissérie, novela no SBT, na Band, na Globo. Hoje estou na Record, tenho contrato lá até metade de 2017.

Cássio Scapina ao junto ao elenco de Castelo Rá-Tim-Bum

Cássio Scapina ao junto ao elenco de Castelo Rá-Tim-Bum

Pois é, o público já está se habituando a acompanhar novelas e outras produções que não sejam produzidas pela Rede Globo?

Acho que sim. Aqui a gente começa a entrar em um terreno muito perigoso. Aí vocês fala “ah, a Globo está perdendo a hegemonia e tál”. A questão é que, com a novas mídias, a televisão, aberta e fechada, está perdendo público. As pessoas veem as coisas pela internet. É uma outra realidade, e está todo mundo muito assustado ainda, inclusive com essa dinâmica nova das emissoras em não ter um grande número de atores contratados. Está todo mundo estudando esse novo mercado, esse novo contexto que a gente entrou, que são as mídias alternativas. Hoje tem a Lei do Audiovisual, que propicia que você tenha produção inclusive pela internet, a baixo custo, e uma gama enorme de conteúdo. As pessoas escolhem o que querem ver, na hora em que querem ver. Moçada quase não vê novela, a garotada quase não vê TV. Então acho que é um outro momento, não acho que seja a Globo perdendo espaço, ou outras emissoras ganhando. É uma nova acomodação, e claro que todo mundo vai buscando novidades e formulas diferentes. Às vezes, quando se esgota uma fórmula, e parece que surge uma, em um lugar novo, as pessoas vão experimentar aquela fórmula, pra ver o que está acontecendo ali. Então, tem essa transitoriedade, hoje ninguém tem mais o monopólio da comunicação.

O trabalho de construção de um personagem para a TV é muito diferente que no teatro?

Completamente. É outra coisa. Dentro da televisão você tem vários modos de construir o personagem. Depende se é uma minissérie, se está fazendo uma novela, se está fazendo um especial. É muito diferente. Na novela, você começa a fazer e você não sabe o que é o seu personagem. Tem uma sinopse básica, mas depois de uma semana você pode ver que não era nada daquilo, porque depende muito da relação com o público, com os índices de ibope, das pesquisas internas. Em uma peça de teatro, você tem o texto inteiro, tem o tempo para construir, tem o tempo de mudar, e muitas vezes a televisão não te propicia isso. Então é bem diferente.

Tem muito ator aventureiro fazendo TV?

Sempre teve, não é de hoje. O que acontece hoje é que isso tudo ficou mais expandido com o efeito da celebridade. Então você não precisa ser ator, você precisa ser famoso. Às vezes você vira ator e pende para outros lados, tem Instagram, Facebook, e isso traz gente para ver televisão – mais um resultado das novas mídias. Mas a coisa dos atores paraquedistas, sempre houve, como acho que há em qualquer profissão, só que isso ficou muito agravado com o culto à celebridade. É um mal que o mundo vem padecendo, e às vezes é muito fácil resolver o problema de um ator que não é ator. O diretor resolve: põe a câmera no olho, pega mais a orelha, coloca uma música… O que determina se ele é um paraquedista ou não, é quanto tempo ele consegue durar na profissão. Alguns aprendem.

Tem quanto do ator e quanto do diretor em uma atuação boa e uma atuação ruim?

Senhor Antônio Abujamra, grande diretor, dizia uma coisa: se o ator não faz bem, sou eu que não sei pedir. A relação entre o ator e o diretor é fundamentalmente humana, então quando o diretor tem capacidade de olhar para o ator e saber onde ele pode acessar o melhor dele, tanto no sentido emocional, técnico e intelectual, é esta fusão que resulta em um trabalho bom. Uma época estudei na Itália, com um grande diretor italiano, teórico, chamado Alessandro Fersen, que já morreu. Lembro que a gente estudava um texto do Goldoni. Aí ele pegava uma lousa e escrevia uma partitura: três pontinhos pra cima, subida de tom; uma cruz, voz de garganta; um  “p”, voz de peito. Eram diversos signos. Então em cada palavra do texto ele ia ditando o signo, e você já decorava assim. Aí ele fazia a marcação: aqui você fala tál palavra, aqui bota a mão na garrafa, vira para o outro lado, fala essa outra frase… E eu tinha feito o primeiro ano da Escola de Artes Dramáticas, que era um outro tipo de linguagem, e ali eu enlouqueci! Pensava “vou fazer o que?”, e ele dizia que minha função era botar vida nisso. Então, tem diversos métodos, diversas maneiras para o trabalho do ator, mas acho que o principal, quando o trabalho é bom, é essa somatória, a relação humana que foi boa ali, e resultou em um bom trabalho.

Você já foi premiado várias vezes pelos seus trabalhos em teatro. Os prêmios te envaidecem?

Claro que é legal ganhar prêmio. Super legal. Você pensa: pô, fui indicado, viram o meu trabalho, gostaram do meu trabalho, que legal. Mas te envaidece por 24 horas, depois ele zera. Não moramos nos Estados Unidos, e não temos uma cultura europeia, em que você vai ganhar um prêmio e isso vai ter dar muita projeção. Aqui você começa sempre do zero. Então a primeira vez que você ganha, pensa que é o fodão. Mas não acontece nada. É bom naquelas 24 horas, na noite da festa, só que teu cachê não aumenta, não é como nos EUA que um indicado ao Oscar dobra o cachê. Não vai facilitar para você conseguir patrocínio. É só pra mim, para olhar ali, na estante e pensar nos bons trabalhos.

Você fez pouco cinema. Por quê?

Pouquíssimo. Sinto que existe um pouco de preconceito com ator de teatro no cinema. Já ouvi isso mais de uma vez, que os atores de teatro não cabem na tela, porque são exagerados. Acho um erro, uma inverdade. Queria muito fazer mais cinema. Tem essa coisa do preparo maior, tem tempo para fazer uma cena, tempo de elaborar. Inclusive me convidaram para fazer um filme agora, ainda está sem nome, mas o personagem se chama Olavo, pertence a uma gangue, e é bem interessante.

Como surgiu a ideia de fazer Eu Não Dava Praquilo e de fazer essa homenagem à Myrian Muniz?

Conheço a Myrian de outros carnavais. Tive a sorte de pegar uma geração de gente de teatro muito importante. Eu tinha uma certa proximidade com ela. A Myriam era uma mulher completamente avessa a tudo isso, contra a mídia, completamente um paradoxo do que é o trabalho do ator. Não gostava de aparecer, não gostava de se mostrar. Ela gostava do jogo cênico, gostava de estar em cena. Era isso que encantava a Myrian. Ela achava um saco dar entrevista. Aí quando ela já estava muito velhinha, algumas amigas entenderam que era preciso ter um registro da Myrin, por se tratar de uma figura importante e histórica do teatro. Fizeram então uma entrevista em casa, que no começo tem problema de áudio, então é toda legendada. Se encontra isso no youtube. Ela está em casa, fumando um cigarrão, um copo de cerveja na mão e contando coisas da vida dela. Foram gravadas horas, coisas impublicáveis. Aí quando a Myrian morreu, eles editaram e deram para os amigos. É muito emocionante ver a Myrian falar do ofício, da profissão através da trajetória de sua vida, de como o teatro havia transformado a vida dessa pessoa, que oportunidades o teatro havia oferecido a essa mulher, não só culturalmente falando, mas também de crescimento individual, como ser humano. Eu ficava muito emocionado vendo essa entrevista.

Tem um poeta em São Paulo, que se chama Cássio Junqueira, que eu mostrei o vídeo, e eu tinha visto tanto que às vezes já falava junto. E ele perguntou o porquê de não fazer uma peça. Bom, começamos a brincar com isso e acabamos escrevendo esse texto. A Myrian tinha uma coisa, que ela dizia que queria fazer uma peça em que ela ficava sentada em uma cadeira, falando algumas poesias, contando casos da vida dela e mais alguns textos que ela gostava. Na verdade, a gente transmutou esse texto e enxertou um monte de outras coisas. Existe um livro, da Maria Tereza Vargas, chamado Giramundo: Myrian Muniz,o Percurso de uma Atriz, que vai falar do Teatro de Arena, em São Paulo, através da perspectiva da Myrian. Então pegamos textos do livro, depoimentos de amigos e algumas coisas de poemas que ela nunca falou. A brincadeira, inclusive, foi: se a Myrian estivesse viva, como ela construiria a fala deste texto? Dentro do raciocínio que ela tinha de pessoa, de vida, como ela diria determinada frase, como faria a respiração, e surgiu desse jeito… Direção do Elias Andreato, entregamos o texto pra ele, que achou completamente possível. O figurino, é um figurino só, não me transvisto de mulher, não tem peruca, nem maquiagem, tem só um pano preto, um xale, e o cigarro, que ela não largava. E a alma da Myrian, o espírito dela, resultando nesse espetáculo bem legal.

EU NÃO DAVA PRAQUILO 2 - DNG

Recentemente perdemos o Abujamra e a Marília Pêra. Qual o tamanho dessa perda para o teatro brasileiro?

Fui dirigido pela Marília duas vezes. Éramos amigos íntimos. Achei que ela não fosse morrer nunca. Eu tinha essa impressão. Ela era tão forte, tão vital, e com um jeito de fazer teatro tão especial, tão particular dela, rigorosa, meticulosa, tão enlouquecedoramente insatisfeita. Ela era muito insatisfeita com o fazer teatral, a ponto de quase enlouquecer. Quando ela começava a ficar confortável no personagem, ela falava: não, mas esse sapato está baixo. Ela arrumava um jeito de ter um sapato mais difícil de andar, para não acomodar o corpo, não acomodar a cabeça.

O Abu era um pensador do teatro. Ela tinha um jeito, uma relação amorosa com os atores. E não vejo por aí pessoas como eles. A gente tem hoje esse grito do mercado, dessa rapidez de produção, de modos de fazer um espetáculo, que impossibilita um pouco. Eles confundiam muito a criação do trabalho que estavam fazendo, com a própria vida. Era muito mesclado, muito misturado, era uma relação muito humana. Conheci o Abu em 1976, eu tinha 11 anos. Ele tinha um projeto, em São Paulo, no TBC, que chamava Projeto Cacilda Becker, que eram três peças em cartaz. E todas as tardes de sábado, havia palestras, com pessoas importantes do teatro, de graça, com a porta aberta. O Abu tinha esse motor de compartilhamento de conhecimento. E acho que hoje a gente vai ficar carente.

Comparando com a época em que tu começou a fazer teatro, hoje está mais fácil ou complicou para quem vive do teatro?

Complicou. Complicou muito. Se agente, rapidamente, não entender esse sistema de produção que está acontecendo, inclusive pelo uso das leis que propiciam fazer cultura, acho que fica bem complicado. Tem um mal entendimento do mercado. Agora está se levantando essa questão, do que é teatro que dá dinheiro e pode sobreviver com o próprio lucro e o que não dá. Na situação que o Brasil está, a cultura se desassociou da educação, o que acho preocupante. Educação virou uma coisa funcional, de instrumentalização, para a pessoa se encaixar em algum lugar, e cultura virou industria do entretenimento. Não está tendo diálogo entre educação e cultura, e essas duas coisas não devem ser desassociadas. Então acho que isso dificulta quem quer fazer um tipo de teatro. Para quem tem a preocupação de fazer um teatro que se discuta mais a sociedade, discuta mais o ser humano, discuta o tempo em que você está vivendo, diminuiu o espaço. A questão do público também, que se desacostumou com algumas questões. O público passou a entender que o teatro tem que ser alguma coisa para se divertir. “Quá, quá, quá, quá”, deu risada, mas já está pensando no sabor da pizza. Está faltando na educação associar o prazer do pensamento com a cultura. Você ir ao teatro, e às vezes assistir a um drama pode ser muito prazeroso. Então tem essa função que a educação perdeu, e que não favorece a cultura, é preciso retomar esse diálogo.

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