Entrevista | Cineasta Marcelo Gomes fala de “Joaquim”, filme sobre um Tiradentes anterior ao mito

Ao centro, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, vivido por Julio Machado

Ao centro, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, vivido por Julio Machado

Luiz Paulo Teló

Personagem bastante recorrente em produções do audiovisual e da literatura brasileira, Tiradentes está novamente em cartaz no cinema. Com direção de Marcelo Gomes, Joaquim estreou no último dia 20 de abril, um dia antes do feriado nacional que lembra a figura do mártir da Inconfidência Mineira. Mas aqui, nesse novo longa, passamos a conhecer mais a história do Joaquim José da Silva Xavier, um nativo da baixa patente do Exército Português no Brasil colonial. O alferes do Regimento Regular de Cavalaria de Minas que em sua trajetória adquire uma consciência política que valeria sua vida.

Conversamos com o cineasta Marcelo Gomes, que nos contou como o projeto chegou até ele e como foi contar uma parte da história que, cinematograficamente, pelo menos, seria considerada menos “gloriosa”. Em Joaquim, de fato, não vemos o herói Tiradentes em tela. “O que realmente soltou aos meus olhos é imaginar o que o levou um alferes da guarda real a tomar parte em um movimento conspiratório contra a coroa portuguesa. Essa mudança de paradigma dentro de uma ética do século XVIII era o que mais me interessava”, nos contou o diretor.

Joaquim é uma coprodução Brasil-Portugal, e tem como destaque o ator Julio Machado, que dá vida ao protagonista, em uma atuação realmente memorável. O filme, que passou pelo Festival de Berlim no início do ano, segue em cartaz em algumas salas pelo Brasil, inclusive Porto Alegre. Para acompanhar a programação e saber onde assistir, fique ligado no site da distribuidora AQUI ou na fanpage oficial AQUI.

O diretor Marcelo Gomes, em coletiva de imprensa no festival de Berlim

O diretor Marcelo Gomes, em coletiva de imprensa no festival de Berlim

Culturíssima: Marcelo, como o projeto chegou até você e como foi o processo de pesquisa para o filme?

Marcelo Gomes: Na verdade, tudo começou há oito anos, com o convite do produtor espanhol José Maria Morales, da Wanda Films, para participar de um projeto para a TVE [Televisão Espanhola] chamado “Libertadores”, para comemorar o Bicentenário das Independências. A ideia era realizar oito películas sobre protagonistas das lutas de independência na América Latina. As películas pretendiam resgatar na tela o pensamento e a obra das figuras mais relevantes do processo de emancipação do continente. Sou apaixonado por filmes históricos e já havia trabalhado em outros dois filmes de época extremamente gratificantes: Madame Satã [2002, como roteirista] e Cinema, Aspirinas e Urubus [2005, como roteirista e diretor]. Além disso, José Maria me ofereceu completa liberdade criativa. O convite era irrecusável.

A crise na economia da Espanha paralisou o investimento da TVE em nosso filme. Nesse momento eu já estava completamente fascinado com a ideia de refletir sobre a sociedade brasileira do século XVIII. O meu produtor, João Vieira Jr., e eu decidimos seguir em frente com o projeto e fomos à procura de financiamento brasileiro. Algum tempo depois o filme foi também encampado pela produtora portuguesa Ukbar Filmes. A partir daí comecei a me instrumentalizar com leituras de livros históricos. No início do processo li vários livros sobre o nosso herói, como A Inconfidência Mineira, de Márcio Jardim, A Devassa, de Kenneth Maxwell que narra o processo contra os inconfidentes. Li também, do mesmo autor, O Livro de Tiradentes, que foca nos possíveis livros que foram inspiração para o alferes. Posso citar ainda O manto de Penélope, de João Pinto Furtado, que aporta uma visão menos idealizada da figura de Tiradentes. E O Enigma de Tiradentes, de Miguel Aparecido Teodoro, que discorre sobre as dúvidas e sombras existentes sobre o herói. Todos dão sua versão dos fatos sobre Tiradentes. O que se percebe é que nem mesmo entre os historiadores existe uma unanimidade sobre a figura de nosso herói. Às vezes apresentam ele com um homem sem defeitos, puro. Às vezes como uma pessoa de suma importância na inconfidência, e às vezes como um personagem secundário no processo da conspiração. Eu não queria entrar nesse mérito. O que realmente soltou aos meus olhos é imaginar o que o levou um alferes da guarda real a tomar parte em um movimento conspiratório contra a coroa portuguesa. Essa mudança de paradigma dentro de uma ética do século XVIII era o que mais me interessava. E assim foi tomada a decisão de narrar a vida do alferes Joaquim antes da Inconfidência Mineira. Muito antes dele se tornar o herói Tiradentes.

Tiradentes já foi tema de dezenas produções no cinema e na televisão. Você acha que alguma dessas produções se assemelha à proposta de abordagem de Joaquim? O que diferencia o teu filme dos já feitos até aqui?

Nos filmes sobre a Inconfidência Mineira, o personagem Tiradentes é representado sempre de uma forma glorificante, mítica e por vezes até endeusado. Além disso a narrativa desses filmes tenta fazer uma biopic, ou seja, a compilação de toda a vida do herói (infância, juventude e fase adulta) para desembocar na sua participação no movimento da Inconfidência Mineira. Pensamos em retratar a vida de Tiradentes a partir de outro ponto de vista. Primeiramente, retratá-lo como um brasileiro comum com seus defeitos, contradições, medos, ambiguidades, com um caráter verdadeiramente humano. Em seguida, decidimos nos concentrar em um determinado momento da vida de Tiradentes, para com isso termos um tempo dramático que irá desvendar profundamente a sua personalidade e refletir sobre o que levou esse Alferes-protético a tomar parte em um movimento conspiratório contra a coroa portuguesa.

Decidimos concentrar nossa narrativa no período em que Tiradentes, no cargo de Alferes-tropeiro da Guarda Militar realiza de viagens pelas precárias, lamacentas e perigosas estradas das Minas Gerais. Viajar é um momento perfeito para construir uma consciência . Afinal viajar é correr o mundo, é deixar a cabeça girando num redemoinho interno de pensamentos e reflexões. É nessas viagens pelas Minas Gerais que, aos poucos, desabrocha a consciência política do Alferes Joaquim José da Silva Xavier. O momento onde ele começa a vislumbrar um país livre ou melhor, mais justo. Construir esse Tiradentes é construir um personagem que foi depurando sua consciência política e social aos poucos, no dia a dia de suas viagens pelas estradas do sertão mineiro e, essencialmente, nas observações que fazia do cotidiano. E a partir daí iremos nos identificar com suas aflições e desejos.

Em tela, o público vai ver mais uma ficção ou você buscou que a trama fosse algo realmente mais biográfico e fidedigno?

O cineasta mineiro Humberto Mauro tem uma frase que diz : o cinema não deve dar aula de história e sim converter a história em prática. Foi exatamente esse o espírito do filme. Para mim o que interessava era entender como era a sociedade brasileira no século XVIII concentrado nas cidades nascidas durante o ciclo do ouro. Queria entender como funcionava essa sociedade, um tipo de embrião de nossa sociedade atual, e como era a vida desse cidadão comum, Joaquim José, uma pessoa comum, um brasileiro comum, querendo entender o que é ser brasileiro. Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, houve para aquela região a maior migração que já viveu as Américas. Foi maior do que a migração com a descoberta do ouro na Califórnia. Ou seja, 200 mil pessoas se deslocaram para a região das Minas Gerais. E eram escravos negros de várias regiões da África, eram espanhóis, portugueses e outros de várias regiões da Europa, como também africanos de várias partes da África chegando aqui na condição de escravos. Ouro Preto aglutinou esse caldo cultural de pessoas e se tornou a maior cidade do continente.

A partir de leituras entendemos que a consciência libertária de Joaquim aparece no momento após a independência dos EUA. Com a Constituição Americana eles começam a pensar o que significam as palavras “os nativos da terra”. Não existia nem essa consciência de brasileiro, mas eles chamavam “os nativos da terra”. Então essa ideia que veio através da independência dos EUA começa a se impregnar no Brasil. A necessidade de os nativos da terra terem também o poder político daquela terra.

Não podemos esquecer que por trás da independência estavam homens ilustres das Minas: ouvidores, fazendeiros, padres, militares, que em algum momento ocuparam ou pretendiam ocupar importantes posições na capitania, fosse por meio do exercício do poder político ou financeiro. Esse desejo, aliado ao pensamento esclarecido, iluminista, que chegava sobretudo por meio dos livros, gerou um ambiente favorável para o despertar de uma certa “consciência” nos homens da colônia. Joaquim José, embora não pertencesse a essa “elite intelectual”, viveu em contato com ela. Agora, no filme, imagino que o caldo social e cultural ao redor de Joaquim foi fundamental para a tomada de consciência. A condição de vida dos africanos vindos ao Brasil na condição de escravos e os índios nativos destratados pelo Império português , na minha ficção, esse fato foi fundamental para a tomada de consciência.

Da história que aprendemos na escola, fica na memória uma imagem de Tiradentes que está entre a figura messiânica e a figura de um herói nacional. De quem trabalhou de perto com esse personagem, que tamanho esse cara tem na história e que lugar você acha que ele ocupa?

Existe um fato de suma importância que não podemos negar. É que o alferes Joaquim foi o único inconfidente condenado a morte, e a condenação foi a toques refinados de crueldade, como partir os pedaços dos corpos pelas estradas de Minas e jogar sal e destruir a casa onde ele morava. Isso fez com que ele fosse elevado ao patamar de protagonista na história da Inconfidência Mineira. Outro fato é que ele morreu dignamente assumindo toda a culpa da inconfidência para ele, enquanto seus amigos conspiradores negaram. Uma atitude que lhe fez mártir.

No início do ano o filme foi exibido no Festival de Berlim. Como você percebeu que foi a recepção de Joaquim para a crítica e público estrangeiros?

Foi uma experiência maravilhosa ver pessoas de culturas e origens tão variadas se emocionarem com o nosso Joquim. Berlim provou que é um festival com uma clara preocupação por temas políticos e sociais, que atende a um público muito cinéfilo e curioso por entender o mundo através da cinematografia dos diferentes países. Nosso Joaquim reflete sobre a colonização do Brasil, que foi cruel e oportunista, provocando extermínios de populações nativas, e explorando o trabalho escravo africano. O que não foi muito diferente de outros países de América Latina. Acho que o momento foi perfeito, pois existe um interesse tanto na Europa como na América Latina para olhar nas bases de nossas estruturas sociais que se remontam ao período colonial.

O filme começa com a imagem da cabeça decapitada de Tiradentes, mas a trama se encerra antes dele se tornar o mártir da Inconfidência Mineira. Você tem vontade de contar essa outra parte da história? É um projeto que pode acontecer?

Nesse momento diria que não. Essa história já foi contato em outros filmes. Agora, nunca se sabe.

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