Entrevista | Gustavo Spolidoro e o cinema de uma pessoa só

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Gustavo Spolidoro é um dos nomes de maior destaque de uma geração de cineastas que surgiu em Porto Alegre na metade da década de 1990. Nas últimas semanas, o diretor tem trabalhado, sozinho, na distribuição do seu terceiro longa, o documentário Errante – Um Filme de Encontros. Além de participar de debates com o público, Spolidoro tem oferecido um curso do qual fala da experiência de um cinema mais intimista, feito apenas por uma pessoa. É o caso de Errante, e também de seu trabalho anterior, Morro do Céu.

Neste papo exclusivo que tivemos com o cineasta, Gustavo nos explicou como surgiu a ideia de rodar Errante, filmado no carnaval de 2011, composto por personagens que ele foi encontrando pelo caminho. Caminho este que, nem ele mesmo sabia onde teria um fim. Formado em Comunicação Social pela PUC-RS – lugar em que também é professor hoje em dia -, Spolidoro também falou do seu primeiro longa-metragem, o inédito plano sequência Ainda Orangotangos, que estreou em 2007.

Culturíssima: O documentário Errante tem um pouco a ver com a sua tese de mestrado. Como foi esse trabalho e como surgiu a ideia de fazer um documentário nesse formato?

Gustavo Spolidoro: Meu mestrado tu pode até achar ele na internet: O cineasta errante: encontros e caminhos de realização de um filme de um homem só. Todo esse projeto, o meu mestrado e também o filme Morro do Céu, surgiram depois que eu assisti uma sessão de Os catadores e eu, em uma oficina que a Agnès Varda deu em Porto Alegre em 2006. Aquele momento, aquele filme, aquelas poucas horas foram muito de transformadores para poder seguir esse caminho. Claro não é o único, tem outros projetos, mas me abriu portas e a mente para poder pensar o cinema mais intimista, feito por uma pessoa só. Eu não tenho usado muito a expressão ‘um homem só’, porque fui questionado uma vez por alunas em um curso, e aí mudei para ‘cinema de uma pessoa só’. Mas o filme, o Errante, é sobre isso, sobre coisas que vão me levando. É sobre o que eu penso da vida, uma junção de ideias e de pensamentos, de associações. E no mestrado eu tinha essa ideia de fazer o filme, mas aí tive que falar com a minha orientadora, que no começo era um pouco reticente, porque a academia é dividida, para uns tem só que pesquisar e escrever. E às vezes uma coisa que não tem nada a ver contigo. E outra parte da academia não, acha que você tem que fazer um filme, uma obra de arte, fazer alguma coisa que vá além da pesquisa. Quando fiz a banca, em 2013, o filme estava no terceiro corte. Hoje acho que está na décima primeira versão, no décimo primeiro corte. Então ele faz parte da minha dissertação.

Durante a sua trajetória no filme, você encontra personagens interessantes e até improváveis pra quem não planejou e pra quem não roteirizou aquilo.   Quando você decidiu que era a hora de parar de filmar? E como é que foi o processo de montagem, muita coisa legal ficou de fora ?

Praticamente não ficou nada de fora, porque todos os personagens entraram no filme. Já me perguntaram isso e é o acaso, né. Como diz a Agnès, somos guiados pelo acaso, é o nosso melhor assistente. Ela fala que gosta muito de pensar assim E aí quando a gente abre uma câmera o mundo se modifica na nossa frente e na nossa mente. simplesmente a gente vai indo. E todo mundo que eu encontrei, tu vê… Os caras entraram no meu carro. A francesa entrou no meu carro,  gente foi buscar cara na rodoviária, os velhinhos na Lancheria do Parque deixaram eu colocar microfone na mesa deles, o homem negro entra no meu carro, o cara dos bonecos eu entrei na casa dele. As pessoas acreditaram em mim e isso é uma coisa doida. A Varda fala que existem vários deuses, e o deus dela é o deus do acaso. Esse deus do cinema que faz com que esse mundo seja construído. Então não ficou nenhum personagem de fora, o que ficou de fora são situações e conversas maiores com os personagens. Alguns eu fiquei bastante tempo conversando, e outros foram conversas mais superficiais. A menina francesa, falei bastante com ela, ali sentados no chão, na escadaria do centro de Porto Alegre.

A montagem é uma coisa muito doida. O primeiro corte já foi público, passou em Portugal em 2011 mesmo, tinha 50 minutos.  Tinha feito também uma versão de 7 minutos pra passar em um evento acadêmico na PUC, e essa versão está até no YouTube, ela é meio louca, até muda alguma ordem das coisas, tem um off muito doido, que não paro de falar um segundo! E aí quando eu passei em Portugal a primeira versão, de 50 minutos, era uma versão que eu não aparecia, aparecia só em alguns momentos para falar algumas coisas. Era meio xarope essa versão, e quando os caras de Portugal viram que tinha essa versão de 7 minutos, que eu mostrei também, e era muito mais doida, que eu me desnudava, eles disseram  “cara, tu tem que tá no filme”. Quem falou isso foi um cineasta português, Miguel Lara Vasconcelos, e outras pessoas me falaram que o filme é sobre mim, como eu penso, que não poderia me eximir de estar. Eu estava com receio de aparecer, achava que ficaria uma coisa muito pedante, e hoje vejo o filme e acho que até sou muito bobo, e algumas vezes isso amenizou um pouco essa coisa auto-centrada. Ele é um filme auto-referencial, porque está dentro dessa ideia de cinema de um filme-ensaio, e é uma coisa muito mais sobre essa paisagem interior do que sobre os outros. Há uma definição muito interessante que diz que o documentário é sobre eles e o ensaio é sobre eu. Só não me pergunta quem disse isso, peguei de um dos tantos livros que li. Então o filme é muito sobre isso, sobre como eu via as coisas acontecendo na minha frente. E sobre a hora de parar, originalmente esse projeto era para durar um mês. Imagina se eu fico um mês fazendo isso, nunca ia terminar. Até pensei em fazer uma série. Na verdade tenho pensado em sair por aí e rodar por um mês, pensando realmente numa ideia de série. Mas quando defini que ia filmar no carnaval, eu tinha o término que era o final de carnaval. Só não tinha previsão Rio de Janeiro, por exemplo, eu só sabia que em algum momento eu ia me encontrar com um carnaval só não saberia como que isso surgiria. Foi a francesa que me levou pra esse carnaval de Santa Maria. E aí me veio a ideia do Rio de Janeiro,mas não consegui passagem. Quando cheguei no Rio já tinha terminado, tinha só os caras desmontando tudo, mas eu ia ter que terminar uma hora né, como no Morro do Céu  terminou com o carnaval também. Gosto mais desses carnavais do interior, as coisas mais bagunçadas e intimistas de carnavais pequenos são muito mais interessantes do que o carnaval da cidade grande. Tanto que quando vou pro Rio, gosto muito mais daqueles blocos que tem menos gente. Mas quando fui pra lá, fui pensando em terminar nessa coisa da Apoteose, isso meio que se montou na minha cabeça, e teve a coisa dos cachorros né, que é a magia do cinema fazendo a sua parte.

Cena de "Errante - Um filme de encontros"

Cena de “Errante – Um filme de encontros”

Há alguns meses entrevistei o Carlos Gerbase e ele comentou sobre um sentimento de frustração de cineastas brasileiros quando ouvem da distribuidora que seu filme “morreu”, porque não fez boa bilheteria no primeiro final de semana e logo sairá de cartaz. Que tipo de expectativa você cria entorno dos teus filmes?

Tanto o Errante quanto o Morro do Céu são filmes que eu não tinha expectativas de público, diferente do Ainda Orangotangos. Digamos que a vantagem psicológica que tenho é que, justamente por não ter expectativa nenhuma, qualquer expectador que vá ver meu filme, é um ponto a mais, e não um ponto a menos. Geralmente os filmes esperam 100 mil pessoas, e aí tem 10 mil, aí claro que rola uma frustração. Não se valoriza os 10 mil, mas sim os 90 mil que não foram. No caso do Errante, não sabia nem se ia lançar. Então cada expectador que tenho,é um a mais. Em Porto Alegre, por exemplo, teve uma sessão lotada, com quase 100 pessoas, e outra num domingo chuvoso, cheio de protestos no Brasil inteiro, que tinha 5 pessoas e eu fui lá, fiquei batendo papo, debatendo com essas pessoas. Pra mim foi uma alegria saber que tinha cinco pessoas que queriam ver meu filme. Se forem meus amigos, muito legal, e se for uma pessoa que não conheço, vou querer saber o que levou ela a querer assistir ao meu trabalho. Essa curiosidade pelo outro, que está no próprio filme, é muito interessante. Sou um afortunando por fazer um filme que não visa ganhar uma fortuna! Se eu ganhe 10 reais, que seja, vou ficar feliz. Claro que todo mundo quer fazer filme e ser visto por milhões de pessoas, ganhar dinheiro com isso e viver disso. Mas não tem como ter essa intenção com um filme como o Errante, que é muito intimista e voltado para um circuito que nem existe.

Outra coisa é o pensamento sobre o evento em si. Em vez de colocar o filme em cartaz, talvez seja interessante tu criar eventos, que tu possa ir, vai ter gente para debater, interessada em ver e ouvir sobre o filme. A gente aprende com a nossa reflexão. Digo para os meu alunos sempre: mesmo que um debate seja ruim, ele é bom. Se o cara vai falar insanidades, merdas, tu vai refletir sobre o que esse cara está falando, tu cria uma consciência própria sobre o tema e cria a tua própria opinião. Porque às vezes o cara é tão genial falando, que a gente só assimila, como se não tivéssemos direito à opinião, porque aquela era tão incrível. Mas se vai um cara com uma opinião meio furada, a gente acaba criando a nossa. Então é isso, mesmo quando o debate é ruim, ele é bom. Faço questão de poder falar do filme com as pessoas e refletir sobre as críticas que elas tenham. Quero viajar muito ainda com o Errante, pois várias pessoas que gosto muito como críticos, souberam dar um olhar muito generoso sobre o filme.

Você se decepcionou de alguma forma com a repercussão e circulação do Ainda Orangotangos na época do lançamento? Tem como achar o filme na internet hoje em dia?

Me decepcionei com o público, sim. A gente conseguiu fazer uma divulgação muito rara, que pouca gente consegue fazer. Tinha cara vestido de orangotango andando pelas cidades, por Rio, São Paulo, Porto Alegre. Tivemos cinco páginas no Jornal do Brasil, capa do Globo, uma mídia espontânea muito boa. Só que aí acabou tendo poucas salas. E de repente o filme não foi tão interessante pras pessoas, e o boca-a-boca não foi tão bom. Porto Alegre estava tomada de coisas de orangotangos, e fez três mil e setecentas expectadores, e esperávamos muito mais. Era para ter entrado em quatro salas e entrou em duas. Aí a gente se decepciona. Todo um projeto, todo um envolvimento das distribuidoras, tu dirige, escreve, pensa em todo o projeto criativo, é uma coisa muito desgastante. A gente tem esse vício da sala de cinema, de querer que lá seja o grande público. O filme está no Youtube, mas não fomos nós que colocamos, é uma versão baixada do Canal Brasil, bem ruim. Não sou o dono do filme, tenho só 25%, o resto é da produtora, e já pedi que tirassem essa versão, que deixem uma com boa qualidade. A gente perdeu muito dinheiro com esse filme também, por não ter lançado em DVD. Ele tem um extra que é muito interessante, muito raro. Tem um extra que se chama Comentários do Diretor, em que tu vê o filme de novo, mas comentado cena a cena, o que é muito legal. Só que no Ainda Orangotangos fui a única pessoas que ficou 100% do tempo atrás da câmera, mesmo o cara do com às vezes tinha que sair. Então filmei com uma outra câmera todo o filme sendo feito. Aí tem um making off em plano sequência, maior que o filme, que mostra a reação das pessoas, inclusive se dando conta que aquele dia, o segundo, tinha sido o melhor. Nós fizemos o áudio comentário sobre o making off. Esse é um material sensacional. Esse ano faz 10 anos que filmamos e ano que vem faz 10 que lançamos, e queria muito poder lançar esse material. Quem sabe em 2017. Nesse tempo todo, não tem uma semana que não venha uma pessoa pelo menos me perguntando do filme em DVD, porque gostou, porque nunca viu, porque quer mostrar para alunos. Todas as semanas, há 10 anos.

Você já havia feito dois curtas em plano sequência. Mas como foi a experiência de fazer esse longa e ainda com várias locações externas, com um potencial de coisas podendo sair do controle de vocês?

A gente teve uma super produção da Camila Groch, da Jaqueline Beltrame, da Aline Risotto, que pensaram a cidade e como a gente se deslocaria. Começa lá no trem, passa por estação, Mercado Público, até a Venâncio Aires. A cidade meio que estava sob nosso controle. Tinha polícia, azulzinhos [agente de transito], que conduziam nosso  ônibus, que paravam os sinais ou às vezes trancavam para o ônibus seguir. Tínhamos até ensaiado que caso os diálogos dentro do ônibus terminassem, a gente aceleraria o ônibus, e não pararia nos pontos que geralmente pararia para pegar passageiros. Se o diálogo estivesse atrasado, por algum motivo, a gente pararia em mais estações, e tinham vários figurantes, alguns que nunca vi na minha vida, e que às vezes me param pra dizer que fizeram meu filme.

A cidade não nos causou muitos problemas. Tivemos problema mesmo mais ali na Venâncio, quando teve um dia de gravação que veio um carro da polícia na contramão , teve também uns taxistas que ficaram buzinando do outro lado da rua. Mas foram em takes que não ficaram valendo. A gente fez o filme seis vezes, e o take que valeu foi o segundo, que não tem nada de errado.

Você é de uma geração de cineastas que surge na metade dos anos 90 aqui em Porto Alegre. Em que contexto vocês surgem e qual a marca dessa galera?

É uma geração tardia. Se a gente for pensar na geração do Gerbase, da Casa de Cinema, e aquela turma toda surgindo no final dos anos 70, inicio dos 80, e de repente num período de 15 anos não surgiu mais nenhuma geração. Tipo, o cinema brasileiro acabou ali nos anos 90, e esse geração surgiu muito do retorno dessa possibilidade de se fazer cinema, e se encontrou na faculdade, muito alunos da Famecos. Eu, Fabiano de Souza, Cristiano Trein, Cristiano Zanella. Nos conhecemos em um curso chamado Cinema 93, promovido pelo Instituto Goethe, Casa de Cinema e Prefeitura de Porto Alegre. Ali participei do meu primeiro filme, chamado A Pequena Vida das Pessoas Grandes. Eu não sabia se ia fazer cinema, e esse curso ajudou um monte de gente a se conhecer. Uma turma, todos mais ou menos com a mesma idade, que acabou se envolvendo com cinema posteriormente. Mas teve um hiatozinho. Lá por 1996, começou a surgir a idéia do super 8. O Rafael Sirângelo, que não era da turma, eu não conhecia, mas começou a fazer super 8, o Cristiano Zanella com o Snuff Movie, o Cristiano Trein fazneod clipe de Detetive, pra Comunidade Nin-Jitsu, em super 8, e aí nós nos juntamos para fazer o filme Escuro, do Trein, que foi um sucesso. Fui produtor da equipe. Nisso, na faculdade, a gente começou a escrever um jornal, chamado Artigo de Cinema, que depois virou a CAC, Cooperativa Artigo de Cinema. Teve 11 edições, todo mundo se juntava, escrevia textos, com aquela empáfia de quem tem vinte e poucos anos e acha que sabe tudo. Hoje leio algumas daquelas coisas e penso ‘nossa, nem sabia disso aqui e estava escrevendo sobre’. E muito disso foi por causa de uma provocação que o próprio Gerbase fez. Ele era nosso professor, disse que cinema era de turma e mandou a gente procurar nossa turma. ‘Ah, é? Tu vai ver então’, e usamos o Artigo de Cinema pra juntar essa galera, e depois os filmes. Essa turma se deu bem, fomos pra Gramado, juntamos toda uma outra galera, começou a surgir pessoas, começamos a dar curso de super 8. Aí o Gerbase escreveu um texto que foi muito importante para referendar a nossa geração, que chamava Os novíssimos estão chegando, em que ele disse que eles eram a nova geração, e que nós éramos a novíssima. Então nós surgimos, fomos a festivais, ganhamos prêmios. Isso em Porto Alegre. Nacionalmente tiveram outros nomes também.

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