Entrevista | Juarez Fonseca: “O Brasil nunca esteve tão forte musicalmente como hoje”

(foto: Arquivo Pessoal)

(foto: Arquivo Pessoal)

Luiz Paulo Teló

O crítico musical Juarez Fonseca é um dos jornalistas culturais mais importantes do Rio Grande do Sul. Sua opinião, sobre o trabalho de qualquer artista, de qualquer lugar do Brasil, é levada em conta em todo o país. Ele recebe material de todo o canto, de todo o tipo. Nesse papo exclusivo com o Culturíssima, o colunista do jornal Zero Hora explicou que ainda prefere o disco físico, e se fosse escutar toda a sugestão que recebe por e-mail e facebook, passaria a maior parte do seu dia conectado a plataformas digitais como Soundcloud e Youtube.

Natural de Canguçu, o jornalista começou a escrever para o principal jornal da capital gaúcha ainda em 1972, onde ficou até 1996. Retornou à velha casa há poucos anos, onde assina uma coluna quinzenal. Para Juarez, que nos apontou vários nomes interessantes com trabalhos novos sendo lançados, a música brasileira vive um do melhores momentos de sua história.

Aqui, Juarez nos conta um pouco de suas histórias, o que anda ouvindo e como está o processo de pesquisa de um livro que pretende lançar, com uma reunião de seus textos, matérias especiais, entrevistas e críticas de discos e shows. Um trabalho que deve ser lançado em todo o Brasil.

Culturíssima: Hoje você é bem ativo no Facebook e tem a coluna quinzenal na Zero Hora. Como funciona teu processo de trabalho, de receber material, escutar e acompanhar o que está rolando na cena musical?

Juarez Fonseca:  Tem vários divulgadores de discos, aqui, no Rio e em São Paulo, que me mandam. E alguma coisa de gravadoras também. Aqui, o pessoal todo que grava me manda. Muita gente também sugere coisa pelo facebook e pelo e-mail, para ouvir trabalhos que estão no Soundcloud, aqui e ali. Mas não faço isso muito, às vezes vou lá e olho, ou então vou ficar o tempo todo fazendo isso. Peço que me mandem o disco físico. No caso da música, ainda não aderi a ao digital. Claro, ouço alguma coisa, também no Youtube, mas baixar música é coisa que não faço. Gosto de ouvir o disco pulando faixa, voltando, segurando a capa, vendo informações e tudo mais. Gosto da história de ser um trabalho com nove, 10, 11 ou 15 faixas, e não dessa coisa que a garotada faz que é ouvir música isoladamente.

O que você acha que acontece de interessante na música brasileira nessa segunda década de século 21?

Sempre tem muita coisa acontecendo e coisa chegando. Tenho comentado muito nas páginas da ZH sobre coisas novas, tem muito grupo instrumental, muita cantora nova, compositora nova. Saiu na Revista Donna [caderno da Zero Hora], neste último final de semana, cinco cantoras e compositoras. Participei da pauta dessa matéria. Se elas não sofrerem da síndrome do gaúcho que não acontece no Brasil, têm chances de serem bem mais conhecidas. Há muito tempo não surge um grupo grande de cantoras como nós temos hoje em Porto Alegre, não são só essas cinco, são umas 10 ou 15, que são bem jovens, na casa dos 20 anos, são boas cantoras, com repertório bom e com uma ânsia de se mostrar e acontecer. A Maria Luiza Fontoura, que é interprete do grupo Samba e Amor, mas está se lançando em carreira solo. Tem a Lara Rossato, a Carmen Correa, a Pâmela Amaro e a Bibiana Petek. São essas cinco da matéria, mas tem várias outras. Tem muita gente interessante aqui, e no Brasil também. Recebo discos que são pura surpresa. Estou para comentar agora o disco da Danny Calixto. Ela não é de agora, começa no fim dos anos 90, e esse é o segundo disco dela. Essa Caroline Caramão [mostra o disco], é uma gaúcha de Santa Maria, e esse é o primeiro disco. Ela compõe e canta muito bem, e é uma coisa dedicada à questão afro. [Pega outro disco] Já essa Izabel Padovani é paulista, casada com um baixista chamado Ronaldo Saggiorato, que a gente conhece como Gringo e que tocou na banda Circuito Emocional, do Alegre Corrêa. E esse disco [da Izabel] é só de voz e baixo. Impressionante como ela canta e como funciona a sua voz com o baixo. [Agora com outro disco na mão] Essa outra cantora, Priscila Meira, também não é novinha, mas é nova, porque esse é o seu primeiro disco. Também é de São Paulo, mas vive em Porto Alegre, e o disco foi produzido pelo Mathias Pinto, que é um jovem instrumentista e o cara que coordena a oficina de choro e samba do Santander Cultural, um puta violonista de sete cordas. Ela como compositora e cantora, com um disco lindíssimo.

Tem toda uma turma jovem de instrumentistas em Porto Alegre. Muitos saíram dessa oficina de choro e samba do Santander Cultural. Temos hoje no Rio Grande do Sul uma produção musical muito intensa e forte. E isso parece que não repercute muito no mainstrean, porque as pessoas estão fechadas, de maneira geral. Não saem de casa, e os espaços para essas pessoas se apresentarem são os bares, poucos vão a teatros, poucos começam a querer se mostrar. Agora, essas cinco que citei primeiro, a Carmen, a Lara, a Maria Luiza, a Bibiana e a Pâmela, têm caminhado nesse sentido, de fazer disco e ir para teatro, mas não escapam dos bares também. Hoje, no Brasil, não tem mais aquela história do artista de 50 mil cópias. Quem vende isso são os sertanejos, ou os caras de música religiosa. As gravadoras quase que só têm esses caras hoje. Não têm mais Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa, todos esses gravam independentes ou em pequenos selos.  Tudo está mais ou menos espalhado, pouca coisa sai das gravadoras. Depende do interesse das pessoas em buscar essas coisas. Me parece que hoje há centenas de músicos surgindo no Brasil, todo ano, com grande qualidade e representatividade. O Brasil nunca esteve tão forte musicalmente como hoje.

Você citou a síndrome do gaúcho que não acontece. Por que eles não acontecem?

Isso não é só na música. Por exemplo, escritores também. Quem são os escritores gaúchos conhecidos? Érico Veríssimo, Caio Fernando Abreu, um pouco o João Gilberto Noll, Lya Luft, agora o Daniel Galera, mas escritores tradicionais, como Josué Guimarães, o Brasil não sabe quem é. O [Luiz Antonio de] Assis Brasil, que tem uma obra vasta, o Brasil não sabe quem é. E por aí vai, um monte de escritores que a gente poderia citar. Dos artistas, cada geração dá um. Da geração da Elis Regina, antes teve o Lupicínio Rodrigues, que ficou conhecido nacionalmente, foi pra lá, mas ficava aqui. Depois veio a Elis. Passou um tempo e veio o pessoal do rock, com Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua. Estou falando de artistas de massa, de muita vendagem. Teve a Adriana Calcanhoto, o Renato Borghetti, que também é um cara nacionalmente conhecido, devido ao estouro dele em 1984, quando o disco dele vendeu mais de 200 mil cópias. Nenhum disco instrumental brasileiro vendeu isso até hoje. Mas ele ainda é um cara de nicho. Depois disso, quem? Tem o Vítor Ramil, conhecido nacionalmente, respeitado, quando sai um disco o Estadão, o Globo, a Folha, todos dão páginas inteiras pra ele. A Cachorro Grande, depois dos Engenheiros, do rock foi a única. Até teve outras também, tipo a Ultramen, a Apanhador Só também, mas é uma coisa mais de culto também, não é um fenômeno de popularidade, de lotar ginásio. Tem público em todo o Brasil, mas é público pra encher um teatro, e deu. O Humberto Gessinger lota ginásio, em qualquer lugar do país. Nenhum de Nós também tem essa coisa de conseguir sair um pouco mais daqui.

Pra mim, por exemplo, na questão do samba, depois de Lupicínio o cara mais representativo é o Nelson Coelho de Castro. Mas também é um cara que não faz show regularmente, de vez em quando aparece. O Nelson deveria ser um cara nacionalmente conhecido, porque ele é muito bom. Tem outro cara, que é o Antônio Villeroy, que conseguiu um reconhecimento nacional, mas por causa da Ana Carolina. Ele é conhecido, mas não tem um público grande em todo o Brasil. Gente como o Nelson, o Bebeto Alves, são caras que tinham a possibilidade, como a Ultramen, que pra mim foi a melhor banda da segunda geração do rock nacional, mas chegam em um ponto e vão parando, porque não tem mais expansão, daí o cara se vira para um outro lado. Não tem empresário, não tem produtor, para fazer um disco é uma batalha. Fica uma coisa do cara mesmo cuidando de tudo, e isso aí tranca.

Aqui sempre foi difícil. Nos anos 80 parecia que ia dar uma melhorada, mas não foi. Agora, porquê é assim, ninguém nunca chegou a uma conclusão. Os gaúchos têm dificuldade de sair daqui. Têm dificuldade em dormir na areia de Copacabana, como Alceu Valença e os nordestinos faziam, naquela leva que baixou para o centro do país nos anos 70. O horizonte parece fechado. Os músicos também não vão saber te dizer o porquê.

Entrevistando o Tom Zé (foto: Arquivo Pessoal)

Entrevistando o Tom Zé (foto: Arquivo Pessoal)

Você está produzindo um livro com matérias e textos teus que saíram no longo período de ZH. Como está esse processo?

Esse livro já deveria ter saído. Tinha lei de incentivo mas não consegui patrocinador. Então resolvi desviar de um plano que eu tinha, que era um material que já tinha aqui em casa e fui mergulhar nos arquivos da Zero Hora, onde trabalhei de 72 a 96. Estou pesquisando dia por dia, entrevistas grandes, matérias maiores, comentários de discos. Isso estou scaneando e está sendo digitado também. Vai ser um livro de 700 ou 800 páginas, reunindo uma seleção do material. Esse livro vai circular pelo Brasil inteiro. Todos os caras mais importantes da música brasileira estão ali, em entrevistas, comentário de discos. Não estou colocando música internacional, porque achei que ia ficar um negócio muito grande. Mas estou anotando tudo, porque, de repente, se quiser fazer um com música internacional, vou ter também.

Já estou em 87. Vou até 96 pesquisando. Depois disso, revista Aplauso, jornal ABC de Novo Hamburgo e essa volta para a ZH, já tenho tudo aqui no computador. E no facebook, estou colocando pequenas notinhas, curiosidades, que estou fotografando com o celular.

Comentar a obra de alguém é sempre delicado. Você já passou por alguma situação desconfortável ou teve algum problema por causa de uma crítica?

Hoje, principalmente porque tem pouco espaço, e os espaços nunca foram suficientes para tudo que acontece, não perco meu tempo comentando algo que não gosto. Então uso esse espaço para falar de coisas que eu gosto. Se for usar para criticar algo que não gostei, vai ficar de fora um disco que gostei. A não ser que seja uma coisa tipo o Caetano fazendo um disco horroroso e problemático. Lá nos anos 70, quando comecei a escrever, eu era parceiro dos caras. Não tinha essa coisa da isenção jornalística, que pra mim é uma coisa fajuta. Me considerava um cara da mesma geração, com o mesmo jeito de pensar, a única diferença é que eles eram músicos, estavam no palco e eu era jornalista e estava na redação. Era duas vias da mesma coisa. Claro, tinha meus critérios, sabia ver o que era ruim e o que não era. Nos comentários que fazia, e estou relendo tudo agora, quando era ruim eu sempre falava alguma coisa boa e no final colocava o que não estava bem. Isso fiz com o Nelson Coelho de Castro, com o Vítor Ramil. Falava com certa dureza, mas nunca de forma agressiva. “Pô, cara, olha o que tu está fazendo. Já vi tudo de bom que já fez, mas agora não está legal”.  Disco internacional cansei de malhar, principalmente nos anos 70, quando estava muito forte a soul music, com artistas da Motown. Achava aquilo muito comercial, muito ruim, e eu falava que achava ruim, mas o cara da [rádio] Continental, o Julio Fürst adorava, então ele se sentia pessoalmente ofendido quando ele lia. Eu gostava de várias coisas da música negra americana, e quando gostava eu dizia. Tinha também coisas assim: dizer que uma formação do Deep Purple era melhor que a outro e receber correspondência me xingando, discordando. Mas nunca teve uma coisa mais aguda por emitir opinião.

Em 94, você publicou uma coluna criticando duramente o Nico Fagundes por um texto que ele tinha publicado dias antes na própria Zero Hora. Que tipo de problema aquilo te causou na época e como foi ver esse texto voltando a circular nas redes após a morte dele em 2015?

Na época eu era um dos editores do jornal. Eu que baixava a coluna dele, que era no sábado, como a minha. Ele escreveu um texto sobre uma notícia de que iam fazer um memorial para Elis Regina e Cazuza em Porto Alegre. De forma bem agressiva, ele disse que a Elis esnobou o RS, morreu drogada, que o Cazuza era um aidético pederasta. Coisas desse tipo. Fiz um texto chamando ele de fascista e a ZH publicou no sábado seguinte. Aí no outro sábado teve uma réplica dele, e não me deixaram escrever a tréplica. Então ficou ele dizendo aquilo, eu malhando ele e ele me malhando. Falei na época que ele tinha um monte de títulos, de historiador, de folclorista, de advogado, presidente disso, daquilo, e que um cara com todos esses títulos não podia baixar o nível assim, dizer um monte de inverdades. A Elis adorava o Rio Grande do Sul, nunca esnobou o estado, os gaúchos que sempre criticaram ela. Enfim, recebi telegramas, cartas, telefonemas, muitos concordando com o que eu estava dizendo. Bem, isso passou. Agora na morte dele [junho de 2015] os caras trouxeram o texto de volta para o fecebook. Achei que era um dia inadequado e pedi para que as pessoas tirassem. Alguns tiraram e outros não, dizendo que a censura já tinha passado. Era uma grosseria que estavam cometendo no dia da morte do cara.

Em que período você foi Coordenador de Música da Secretaria da Cultura de Porto Alegre?

Foi em 87 e 88. O prefeito era o Collares e, na verdade, quando entrei não havia ainda a secretaria da Cultura. Tinha a divisão de cultura, ligada à secretaria de Educação. O secretário era o professor Joaquim Felizardo, e com ele começamos a secretaria da Cultura. No meio desses dois anos foi criada a secretaria.

Na condição de ter ocupado esse cargo e de ter vivo o auge do Auditório Araújo Vianna como aparelho de ebulição cultural em Porto Alegre, como você  vê a utilização desse espaço atualmente?

Se dependesse de mim, o Araújo continuava como era originalmente, aberto. Ele é um espaço público, e cada vez que houve interferência nele, foi porque ia virar ruína. Quando colocaram a cobertura plástica, que já sabiam que duraria um “x” número de anos, ele estava abandonado, com bancos podres, quebrados, não acontecia nada lá. Em 86 ele fechou e só foi reabrir uns 10 anos depois, com show do João Gilberto. Então foi feita a cobertura, colocaram cadeiras de ferro  e ficou com uma aparência de teatro, auditório e tal. Aí começou a se esfrangalhar aquela cobertura, que nunca teve nenhuma manutenção. Na época falavam em colocar uma cobertura móvel, mas aí estraga um parafuso e tem que fazer uma licitação. Então levaria cinco meses para trocar um parafuso. Aí começou a entrar mendigo, ratos, pombos. Banda fazendo ensaio teve que sair de lá. O pessoal que trabalhava na parte de cima, com o acervo de discos antigos, em 38, com matérias, que seria um futuro museu da imagem e do som de Porto Alegre que até hoje não existe, esse pessoal teve que sair de lá, porque ameaça desabar e também estava invadido. Aí demorou esse tempão até achar essa solução de arrendar para a Opus Promoções, que fez um teatro de primeiro mundo. Não concordo com manifestações, principalmente de gente do PT, vereadores e tal, dizendo que isso é apropriação do bem público. O bem público estava abandonado, estragado, e se não fizesse aquilo ia continuar como estava e acabaria em ruína. Então tem a administração privada, com algumas datas da prefeitura, e até hoje a prefeitura não utiliza essas datas na íntegra. Nunca ocupou. O Araújo viveu a maior parte do tempo dele fechado, durante toda a sua existência. Não é qualquer show que dá para fazer lá, não dá ara ser um evento para 100 pessoas. Então tem uma despesa grande, cuidar do entorno, manutenção dos banheiros, uma coisa enorme. Pelo menos ele está lá cumprindo a missão de ser uma auditório. Tem vários espetáculos gratuitos, mas a prefeitura poderia fazer valer o direito que tem para usar mais dias, oferecendo espetáculo não gratuitos, mas a 10 ou 15 pila. Isso não tem, essa coisa mediana não tem. Isso deve estar no contrato, mas é fácil de tirar, e uma disposição nesse sentido, da secretaria da Cultura, poderia fazer isso, mas ela não tem interesse, não tem quadro nem disponibilidade para gerir aquele espaço.

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