Entrevista | Júlia Rodrigues, uma das fundadoras do Bloco da Laje

julia rodrigues _bloco da laje entrevista

Diego Rosinha

Criado em 2012, com o objetivo de resgatar o Carnaval de Rua de Porto Alegre, capital gaúcha, o Bloco da Laje fez muito mais do que isso. Além de resgatar a ocupação do espaço urbano nessa data tão célebre no Brasil, o grupo trouxe um novo ar para a música de contestação, que transcende o discurso e convoca, na prática, o significado de Revolução. Sem se importar com os choques causados numa sociedade – infelizmente – cada vez mais conservadora, grupo aborda temas políticos e comportamentais de forma bem humorada e mesclando ritmos, desde o samba até o funk.

No Morrostock 2016, comemorativo dos 10 anos de evento, o Bloco da Laje esteve lá, mostrando tudo isso e mais um pouco para algumas centenas de jovens sedentos por um mundo livre de amarras. A convite do site Culturíssima, entrevistei a diretora de teatro e professora Júlia Rodrigues, uma das fundadoras do grupo.

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Culturíssima: Como surgiu o Bloco da Laje?

Júlia Rodrigues: Surgiu da ideia de fazermos um bloco de rua para brincar o Carnaval de Porto Alegre em 2012. Éramos um grupo de amigos, autônomos, profissionais liberais e do teatro, que tinham uma forte ligação com os movimentos de rua.

Já tinha esse caráter político de contestação?

Naturalmente, mas o objetivo principal era brincar Carnaval fora do esquema oficial, da prefeitura, dos grandes clubes, fugindo dos patrocínios de marcas, o que poderia tirar o caráter espontâneo da manifestação.

Quantos integrantes possui o Bloco?

Temos 28 integrantes fixos, mas o Bloco, no Carnaval, é formado por mais de 100 pessoas, com uma bateria forte de pelo menos 60 integrantes.

julia rodrigues _bloco da laje entrevista_crédito Guilherme Santos

Bloco da lage no Morrostock 2016 (foto: Guilherme Santos)

Eu fiquei impressionado com a performance de vocês no palco e também com a interação com o público. Qual a importância disso para o grupo?

É essencial. O Bloco da Laje tem ensaios abertos todos os domingos pela manhã – às 10h – no Parque da Redenção, em Porto Alegre, e tem uma forte ligação com o público, que participa ativamente da brincadeira. Nos shows, temos os caminhantes, que são membros que circulam entre o pessoal para tornar músicos e público uma coisa só. Geralmente não temos palco. Essa hierarquia até nos atrapalhou um pouco no Morrostock – o palco era alto -, mas não foi impeditivo pra nossa interação.

E o cárater político?

Temos isso. Mexemos com muitos interesses, atraímos uma forte carga de resistência de grandes grupos políticos econômicos, grupos que são cada vez hegemônicos não somente em Porto Alegre, mas em todo o Brasil. Nas apresentações, além da brincadeira, trouxemos assuntos importantes, especialmente no que diz respeito ao comportamento, contra a homofobia presente na sociedade brasileira.

Vocês me parecem um tanto anarquistas…

Temos um caráter de autonomia, de autogestão, e queremos que isso se espalhe. Sabemos que, apesar da onda conservadora que vem dominando o País – ela já existia, mas era mais velada -, temos um público que quer a liberdade de ser o que se é.

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