Entrevista | Luiz Antônio de Assis Brasil e a sua oficina literária

luiz antonio de assis brasil_foto de douglas machado

Carlos Garcia

Luiz Antônio de Assis Brasil é um nome singular na literatura do Rio Grande do Sul. Além de produzir ficção, conduz novos escritores em seus primeiros passos no mundo literário. Sua oficina de criação forma autores há mais de trinta anos. O resultado do trabalho da turma mais recente pode ser conferido na antologia de contos Onisciente contemporâneo. O livro organizado por Assis Brasil foi lançado na última semana, pela editora Bestiário.

A oficina funciona junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras, da PUC-RS. Foi criada em 1985 e é a mais antiga, com atividades ininterruptas, do Brasil. Pela aula de Assis Brasil, passaram autores como Carol Bensimon, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Letícia Wierszchowski, Luísa Geisler e Michel Laub. Com o lançamento de Onisciente contemporâneo, chega a 45 o número de antologias de contos produzidas pelos oficineiros.

Como autor, Assis Brasil lançou 19 romances desde 1976 e prepra seu próximo trabalho para lançar ainda este ano. Entre seus prêmios estão os troféus Açorianos de Literatura, Jabuti e Machado de Assis. Já integrou, por 15 anos, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e foi secretario de Cultura de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Também é professor titular da Faculdade de Letras da PUC-RS. Em entrevista exclusiva, Assis Brasil nos falou da oficina de criação literária e da sua carreira.

Culturíssima: Como surgiu a ideia de criar uma oficina literária em um momento em que, ao menos aqui, era novidade?

Luiz Antônio de Assis Brasil: Surgiu da ideia de juntar duas experiências: a do professor que eu era e de escritor já com alguns romances publicados. Em tempos de pré-internet, não havia modelo algum que pudesse ser consultado; tive de usar muito da intuição e experimentação.

A partir de que momento você conseguiu conseguiu olhar para o trabalho realizado na oficina e dizer “deu certo”?

Quando alguns de meus ex-alunos começaram a ganhar prêmios e publicar em grandes editoras nacionais. Isso foi por meados dos anos 90 do século anterior.

São mais de trinta anos formando escritores. A que você atribui o sucesso da oficina?

Antes de tudo, ao talento dos alunos; em segundo lugar à dedicação completa ao que eles escreviam e, particularmente, pela renovação sistemática de conteúdo e de métodos.

Luiz Antonio de assis brasil turma oficina literaria

Turma que tem seus contos publicados em “Onisciente contemporâneo”

Quem participa da oficina, que tipo de público?

Ultimamente os alunos estão na casa dos 20-30 anos e têm as formações mais diversas, predominando jornalistas e pessoas da área de Letras.

Tem diversos alunos que se destacaram no cenário literário. Você acompanha o trabalho deles? Consegue enxergar a sua influência na obra deles?

Acompanho o trabalho de todos eles. Cada qual tem sua própria e inconfundível forma de expressão, e escrevem muito diferente de mim. Se há algo que os une é a “limpeza” e essencialidade textual.

Com observação no trabalho dos seus alunos, atualmente existe uma “literatura gaúcha”, com alguma referência que a caracterize além do limite geográfico?

Não existe mais uma “literatura gaúcha”, pelo menos no sentido tradicional. Nossas escritoras e escritores escrevem de tal maneira que podem ser publicados e lidos em qualquer lugar do mundo. Restam, é verdade, algumas expressões textuais, como o uso do “dialeto” de Porto Alegre, mas essa é uma questão secundária. Por exemplo, o uso do “tu” com a terceira pessoa do singular. O fato é que o campo, o pampa, deixaram de ser temas literários. Até a minha geração, o Rio Grande era uma questão a ser resolvida. Agora não – felizmente.

Na oficina, certamente é trabalhada a técnica, mas é possível ensinar também o aluno a desenvolver a criatividade?

Sim, por certo, e o maior tempo da oficina é destinado a exercícios de criatividade.

Muitas de suas narrativas são ambientadas no passado, ligadas a personagens e fatos históricos. Você se definiria como um autor de romance histórico?

Jamais. Nunca escrevi um romance histórico na minha vida e, na verdade, é um gênero que está muito longe de ser minha leitura preferida.

A literatura ficcional tem o poder de fazer o leitor compreender o passado tanto quanto um livro de história?

Os escritores que escrevem romances históricos costumam dizer que se lê a melhor História nos textos ficcionais. Aliás, Marx disse que, para entender a França da Restauração Burbônica, ele lia os romances de Balzac.

Na sua criação, você prefere priorizar a fidelidade histórica ou a “magia ficcional”?

Prefiro priorizar a alma humana e seus conflitos, que existem independentes do momento histórico.

A ambientação no passado pode ser uma escolha que afaste do texto uma reflexão sobre problemas atuais da sociedade. Mas, nas suas histórias, muitas vezes, os personagens parecem atuais. Você busca justamente essa integração entre o passado e o presente?

Sim, as personagens parecem atuais porque são atuais. A essência humana é a mesma em 2016 como em 1916 ou 1816.

Na sua carreira, houve um momento em que você reformulou o seu estilo, buscando apresentar um texto mais direto. Como aconteceu essa mudança? A era digital (e o consumo de cultura a partir dela) influenciou nisso?

Não. Mudei porque meu estilo não mais dava conta do que eu queria narrar.

Você teve experiência nas secretarias de cultura de governos municipal e estadual. De que forma a cultura pode ajudar o Brasil a superar essa crise política atual?

Uma resposta impossível a uma pergunta inteligente. A cultura seguirá fazendo o que sempre fez, e está aí para dar testemunho social e humano.

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