Entrevista: Nei Van Soria em busca da simplicidade

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Luiz Paulo Teló

Nei Van Soria está em busca da simplicidade, está de volta ao rock’n’roll dos velhos tempos, daqueles que abriram caminho para toda uma geração que surgiu depois das seminais TNT e Cascavelletes, bandas das quais Nei fez parte nos anos 80, antes de partir em carreira solo, em 1992.

Acaba de chegar nas lojas e mídias digitais o álbum RockLUV, oitavo disco de sua carreira. No próximo dia 12 de novembro, o músico sobe ao palco do Centro Histórico-Cultural Santa Casa, em Porto Alegre, para começar a apresentar o novo trabalho ao público (saiba mais aqui).

RockLUV parece refletir as preocupações de um músico experiente, um profissional da industria cultural calejado, que mantém um olhar atento às mudanças ao seu redor. Nesta entrevista exclusiva ao Culturíssima, Nei Van Soria contou sobre o conceito deste novo disco, além de falar um pouco dos áureos tempos de Cascas e também expressar sua leitura sobre os rumos do mercado musical.

Culturíssima: O que você pode nos falar sobre esse novo trabalho?

Nei Van Soria: RockLUV é um disco com mais ritmo, com mais velocidade. É um disco mais rock do que os últimos que eu tenho feito. Tentei me reconectar à simplicidade da história, a essência da música que eu fiz a minha vida inteira, de rock mais básico, de coisas mais simples e diretas. Claro, isso é uma intenção, não saíram todas assim, com coisas tão diretas, mas essencialmente, o conceito do disco é esse. Até no número de canções que ele tem [9]. Sempre faço discos longos, e esse eu acabei conseguindo sintetizar um pouco, não só o conceito, como a quantidade de músicas. Umas eu gravei e acabaram não entrando, e é sempre uma escolha difícil artisticamente. Mas acho que o resultado ficou bacana.

A história também do disco ser preto e branco. Trabalhar com menos. Hoje a gente vive em um mundo e em tempos de completa acessibilidade a tudo, disponibilidade de absolutamente tudo. Quem tem um pouco mais de recurso financeiro tem a possibilidade de, essencialmente, ter o que quiser. Ao invés do lado bom que as pessoas possam achar que isso tem, trás uma perversidade, tira as pessoas do foco essencial da vida que é: quem somos, de onde viemos e pra onde vamos? Então a busca da simplicidade e estar falando de forma direta, preto e branco, sinteticamente, é o cerne deste disco.

Culturíssima: Teus últimos dois discos de estúdio possuem um trabalho gráfico muito bonito, muito cuidadoso. Como trabalhar isso dentro desse conceito?

Nei Van Soria: Justamente. Pego o gancho de novo do que falei antes. Conceitualmente, simplificar é mais difícil. É mais difícil fazer um prato com poucos ingredientes, mas é uma proposta, é uma intenção. Tu mostra com clareza o que tu quer fazer. Em todos os meus discos, quem fez o projeto gráfico foi a Ângela Fayet, que tem uma sensibilidade muito grande e uma afinação muito grande com o que eu quero. Claro, muitas vezes vem sugestões que eu acabo redirecionando. O preto e branco é muito mais difícil de trabalhar, porque a cor te dá recursos, mais acordes, te dá outros cheiros, e eu não queria isso, não queria cair nessa tentação. Eu queria café sem açúcar. Não foi fácil chegar nesse conceito. O disco mantém a qualidade dos trabalhos anteriores, está em linha, apesar de se diferenciar muito dos outros discos, a gente teve o mesmo cuidado e apreço que tivemos nos outros. Isso se estende, passa a questão musical e da parte gráfica, e vai ser levado para o show também, que só vai ter luz branca. É um conceito que faz repensar tudo, o momento em que a gente vive, com absolutamente tudo em nosso telefone, a um clique. A vida é muito mais do que isso.

Culturíssima: Como foram as gravações?

Nei Van Soria: Esse foi um disco que levou muito mais tempo do que inicialmente era para levar. Comecei a gravar em janeiro do ano passado, e queria lançar poucos meses depois. Eu queria fazer um disco muito rápido. Mas enfim, entrei em outras frentes, não consegui me dedicar o quanto eu queria, e no começo do segundo semestre acabei pegando um pneumonia que me derrubou. Não podia fazer shows, perdi massa muscular e não conseguia cantar. Só esse ano consegui retomar a gravação do disco, terminei ele ali por março.

Quanto a gravação, eu produzi o disco todo. O Leandro Schirmer toca bateria em três músicas. Fernando Samalea, que também gravou vários outros discos meus, argentino, gravou bateria também. O Juliano Pereira toca baixo em todas as músicas e eu toco pianos, teclados, guitarras, violões e etc. E tem a participação do meu filho em uma das músicas, o Theo. Ele toca guitarra na faixa Muito Obrigado.

Culturíssima: Ele está com que idade?

Nei VanSoria: Ele fez 14 agora. Foi engraçado porque ele tinha gravado lá no começo, ano passado. Aí quando eu retomei as gravações esse ano disse pra ele “filho, quem sabe vamos regravar a guitarra”. Botei pra tocar o que ele tinha gravado no ano anterior, e ele: “Quem gravou essa merda?” [risos] Então, ele evoluiu muito do ano passado pra cá.

Culturíssima: Para o pai deve ser uma vaidade especial…

Nei Van Soria: Ah, é uma alegria compartilhar isso com o filho. Um gosto que ele desenvolveu, claro que tem uma sensibilidade pelo nosso convívio, mas sempre ele que se interessou pela música.

nei van soria disco RockLUV

Culturíssima: Nesses mais de 30 anos de estrada, o que mudou na tua maneira de compor? Ou não mudou?

Nei Van Soria: Tenho escrito muito no piano. É uma ferramenta de composição que eu toco todos os dias, tenho piano na sala, então, em geral, depois do almoço sento um pouco para tocar. Às vezes tem melodias que ficam rodando na minha cabeça por muitos dias e o piano é uma ferramenta que tem ganho importância ao longo dos anos. A composição em diferentes instrumentos é diferente, ela te leva por caminhos diferentes. Se eu componho na guitarra e no violão é uma coisa, e no piano é completamente diferente. Para esse disco novo eu me direcionei de volta para a guitarra, para ter músicas um pouco mais roqueiras, apesar de ter músicas com piano também, eu queria resgatar a história da guitarra com mais força, mais ênfase.

Não sei o que mudou em termos de composição, da maneira de compor. O cara amadurece um pouco e vai ficando mais tranquilo pra ver como as coisas vão chegando e como tu quer traduzir elas, não tem fórmula nem conceito, cada dia é um dia, cada música é uma música.

Culturíssima: Hoje você tem a loja Good Music e tem o estúdio. Você já imaginou ter esse tipo de estrutura lá nos anos 80, com TNT e Cascavelletes começando? Acha que mudaria alguma coisa?

Nei Van Soria: Não sei. Acho que as coisas são como são, foram como tinham que ser. A gente sempre foi independente, na real. No começo dos Cascavelletes, talvez a gente tenha sido uma das primeiras bandas autenticamente independentes. Mesmo tendo em algum momento assinado com a EMI, a gente sempre se moveu com as próprias pernas. Quando tocava muito e ganhava uma boa grana, a gente sempre separava dinheiro para fazer as ações que a gente achava que tinha que fazer. Custava muito caro gravar naquela época. Então, não dá para fazer esse paralelo. Acho que a gente fez, se não o máximo, muito do que poderíamos fazer.

Culturíssima: Vocês viveram um momento meio rockstar, meio beatlemania com o Cascavelletes. Como foi isso?

Nei Van Soria: A gente estima que tenha feito uns 500 shows nesse período de cinco ou seis anos, sempre com milhares de pessoas. Então, realmente foi muito intenso, muito forte. Foi um momento histórico, que as coisas rolaram, as músicas tocaram, que o público estava se abrindo, a gente estava saindo de uma ditadura militar. Era um mundo novo que se abria para todos, culturalmente o rock ganhava relevância, a gente era mega rebelde, falava um monte de coisas que as pessoas também se sentiam livres para falar bobagem, se divertir, falar sacanagem. Isso era muito protocolar ainda, apesar de ser anos 80. Não estamos falando de 50 anos atrás, mas sim de 25 anos atrás! Ainda era tabu falar essas coisas, e hoje vulgarizou. Não era vulgar, o que a gente falava era uma brincadeira, uma sacanagem, mas tinha uma sofisticação no sentido em que era um código de conduta. A gente tinha uma maneira de se portar, de se vestir, de agir, de cantar e de tocar. Hoje, sei lá, é ridículo, tipo vergonha alheia. Mas foi bacana, enfim, acho que pavimentou para toda uma geração de bandas que vieram depois.

Culturíssima: Depois, em 92, você ingressa em carreira solo. Como foi esta decisão?

Nei Van Soria: Eu estava um pouco de saco cheio de bandas. Não estava afim de discussão de grupo para decidir as coisas, queria eu fazer algumas coisas que estavam na minha cabeça e queria colocar pra fora. Foi natural, não pensei em montar outra banda. Claro, foi um recomeçar de carreira. A gente estava morando no Rio de Janeiro naquela época, e eu disse: pra mim deu, estou caindo fora da banda. Voltei para Porto Alegre e fui para a Argentina gravar. Lancei, alguns meses depois, três músicas: Isso Inclui Você, Tempestade e Você Tem Que Ousar. Depois elas entraram no Avalon, meu primeiro disco, que saiu só três anos depois, porque gravar disco naquela época era muito difícil, muito caro. A primeira música que eu lancei tocou muito bem, ai caí na estrada, começou a rolar super bem e consegui fazer o primeiro disco.

Culturíssima: Não mantém mais o teu blog atualizado?

Nei Van Soria: Não, cara. Eu parei de escrever. Na real, meio que abandonei as redes sociais. Momentaneamente voltei para o twitter para promover o show novo. Gosto de escrever, mas decidi um pouco sair fora, porque estava absorvendo um tempo que eu não quero dedicar para isso. Quero dedicar meu tempo para outras coisas. Hoje todo mundo é tudo. Todo mundo é artista, todo mundo é blogueiro, todo mundo é fotógrafo, todo mundo é tudo. Eu não sou nada, cara. Eu escrevo canções, então a minha posição é um pouco de esvaziar a discussão, de sair dessa e fazer a minha história.

Culturíssima: Tem um post teu, de 2008, que foi muito polêmico, em que você fala sobre a prática do jabá em rádios de Porto Alegre. Segue sendo difícil colocar música para tocar em rádio?

Nei Van Soria: Isso é uma mentalidade brasileira, tu vê o que está acontecendo na esfera política, e é a mesma coisa. Um cara desse, que toma 20 mil de uma banda que está começando, porque diz que vai tocar a música por 15 dias, promete que vai fazer e acontecer, ou nem promete, esse cara chega em casa e vai dizer o que para o filho dele? É uma falta de nível, uma falta de educação, uma falta de cultura. É complicado. E isto está estabelecido, está acontecendo. É o próprio destino final das rádios. Claro, não são todas, mas as principais, mais importantes comercialmente, onde seria importante tocar as músicas para divulgar para as pessoas, isso continua rolando normal. É um descaminho, um despropósito, é jogar contra a cultura, jogar contra o próprio negócio deles, porque se uma rádio local fortalece a cultura local, ela cria um canal de produção de conteúdo exclusivo, onde ela vai levar o público exclusivo, pelo conteúdo exclusivo, e é uma cadeia que se alimenta. Isso aconteceu um pouco ali nos anos 90, mas logo se desmanchou.

É uma pena que esta seja uma realidade. Este post teve muita repercussão, fui ameaçado de ser processado, tive pressão para tirar do ar. Pode me processar. Não vai ser eu quem vai sair machucado.

Culturíssima: Hoje, como artista, você anseia tocar em rádio?

Nei Van Soria: Eu trato com muito carinho os caras de rádio que abrem espaço e fazem questão ainda de manter o contato e tocar as músicas. Falo com alguns, gravo chamada pros caras tocarem nos programas deles. Acho importante, seria ótimo estar nas rádios de maior penetração. Apesar de que toca um pouco, mas não como poderia tocar, que seria uma coisa boa para todos, não só para o meu trabalho, mas de outras bandas daqui também. Rádio é importante ainda, apesar de cada vez virar mais rádio de notícia, a música pode ser ajudada.

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Culturíssima: Como você consome música atualmente?

Nei Van Soria: Eu escuto discos. Qualitativamente é muito diferente. Os serviços de streaming são de boa qualidade, mas o disco soa muito melhor. Costumo ouvir música no carro, tenho 20 ou 30 discos ali que vou trocando. Conheço à fundo o mundo digital, estudo muito o que existe, o que não existe, quais são as tendências, é uma coisa que me interessa. Gosto muito de tecnologia justamente para poder me mover e decidir o que quero fazer. Mas, acho que a gente vive uma grande inversão de valores: os meios tomaram a importância de fim. Nunca se consumiu tanta música e nunca a indústria da música esteve tão ferrada. O grande dono do mundo é a indústria da tecnologia, que está tomando conta de tudo. A música foi uma das primeiras, e tecnologicamente na história, se tu for analisar, a música sempre foi a primeira a romper barreiras. A gente trabalha com digital desde a metade dos anos 80. Música gravada digitalmente e troca de arquivos digitais já era uma realidade. Hoje a industria do cinema também já está sofrendo o revés, o serviço de telefonia e televisão por assinatura, e a industria de carros. Todas essas indústrias, que eram segmentos, estão sendo englobadas pelo indústria da tecnologia, e isso é realmente muito preocupante. É perverso, as pessoas não se dão conta que as comodidades que elas têm, que é vendido como comodidade, nada mais é do que uma nova escravatura.

Culturíssima: No sentido de quem produz ou consome?

Nei Van Soria: Todo mundo. Consumidores e produtores, todos estão, passo a passo, sendo escravizados para a geração de receita. Na escravidão antiga tu recebia casa e comida e tinha que trabalhar, e não podiam sair daquilo ali. Hoje, é um pouco do que está se formatando, só que com outra linguagem. Tu trabalha, recebe teu salário, mas uma parte importante dele é para receber serviços que tu precisa para conectar ao mundo exterior. Sempre foi assim, o salário é um símbolo de valor que você usa para trocar por outras coisas. Mas no momento que toda essa gama de serviços passam a pertencer a um número muito reduzido de proprietários, que passam a ditar como as coisas serão, aí acho muito preocupante.

Culturíssima: Há cerca de 10 anos, quando a industria começou a mudar mais substancialmente, se vendeu a ideia que a coisa ia melhorar de verdade para os músicos, principalmente os independentes. Mas o que se vê hoje é que a maior parte da grana migrou das gravadoras para outros poucos e poderosos.

Nei Vai Soria: Agora que se conseguiu colocar os serviços de streaming, que se cobra umas migalhas, mas para tudo isso funcionar, desde que começaram as trocas de arquivos, tinha a história de que ninguém estava ganhando nada, mas os caras estavam vendendo os meios pelos quais as pessoas faziam isso. Tu paga internet, compra o telefone, o tablet, o computador e esses produtos, que são os meios, são os grandes geradores de receita. O conteúdo, que é a verdadeira preciosidade da história, é nada. Então essa inversão de valor, de que o meio é mais valorizado, é o grande arrecadador de recurso, é complicado. Em algum momento a gente vai ter algum colapso de produção, de geração de conteúdo e coisas novas e que vai ter uma nova revolução de hábitos. Não sei bem como isso vai acontecer, não vejo que em menos de duas gerações possa acontecer, pois ainda há muitos segmentos que a indústria da tecnologia vai absorver.

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