Entrevista | Patsy Cecato fala sobre seu novo espetáculo ‘Hotel Rosashock’

Patsy Cecato crédito Marcelo Nunes - MÉDIA

(foto: Marcelo Nunes)

Luiz Paulo Teló

Em 2006, foi sucesso nos palcos gaúchos o espetáculo Hotel Rosa-Flor, com direção de Júlio Conte e dramaturgia de Patsy Cecato, que também fazia parte do elenco. Agora, 10 anos depois, a autora retoma o texto e propõem ao público uma nova abordagem, com outro nome e um elenco formado por só por homens, todos eles travestidos de mulher. Hotel Rosashock tem pré-estréia na quinta-feira (3), no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, e depois entra em curta temporada na Sala Álvaro Moreyra (o serviço completo você confere ao final da entrevista).

“A montagem de 2006, com mulheres, cumpriu muito bem a função de representar um drama de costumes, mas o texto tem uma faceta de Vaudeville que precisava ser explorada”, explica Patsy, que agora dirige o espetáculo. Justamente por entender esse potencial baseado nos shows de variedades surgidos nos EUA no fim do século 19, é que ela optou em trabalhar com atores nos papéis femininos, fazendo valer técnica do transformismo e do conceito de Drag Queen.

Hotel Rosashock se passa no espaço da portaria de um hotel na serra gaúcha e de um mezanino que leva aos quartos. Durante a peça, vão se revelando os dramas pessoais de cada uma e as personagens se deparam, a todo momento, com seus preconceitos sociais, raciais e sexuais. “Penso que ele pertence muito ao Rio Grande do Sul, somente o olhar sobre a regionalidade, neste caso, está vindo de outro lugar e apontando para outro lugar. Não é um lugar de ufanismo, mas de crítica social”, conta a autora, que iniciou sua trajetória no teatro em 1980, após participar de oficina com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone e, logo na sequência, já fundar a Cia. Tragicômica Balaio de Gatos.

Nesta última semana, conversamos com Patsy Cecato, que falou sobre essa nova montagem e como foi selecionado o elenco que, entre outros nomes, conta com  João Carlos Castanha. A artista, que desde o ano 2000 coordena as produções do Complexo Criativo Cômica Cultural, também comentou a cena atual do teatro gaúcho e como seus textos sempre dialogaram com a temática feminina, como os espetáculos Manual Prático da Mulher ModernaSe Meu Ponto G Falasse. Confira:

Culturíssima: Patsy, por quê remontar o texto de Hotel Rosa-Flor, e ainda mudando o nome e o gênero dos atores que interpretam as personagens?

Patsy Cecato: Porque é um tipo de texto que faz falta na cena gaúcha. Um drama de costume clássico com uma roupagem de vaudeville, com muitas surpresas e segredos que se revelam durante a história. A montagem de 2006, com mulheres, cumpriu muito bem a função de representar um drama de costumes, mas o texto tem uma faceta de Vaudeville que precisava ser explorada. Para isso, a opção da minha direção foi trabalhar com atores masculinos nos papéis femininos e, mais, atores que estivessem disponíveis para trabalhar com a técnica do transformismo e da arte do conceito de Drag Queen. Quanto ao título, ele representa o que se vai ver em cena. O foco não está mais na história do Hotel Rosa-Flor, que continua com o mesmo nome na peça e, sim, nos personagens Drags. Hotel Rosashock representa melhor o que se vai ver.

O texto é teu, mas na primeira montagem você fazia parte do elenco. Agora você dirige. Isso implica em uma percepção diferente do que você tinha em relação ao seu próprio roteiro? Há uma mudança de tom na nova montagem?

Na primeira montagem eu acumulava muitas funções e, com direção do Julio Conte, fizemos um grande teatro com o texto. Confesso que agora me sinto livre para encontrar outros propósitos dentro do texto e poder desfrutar o prazer legítimo que assinar esta direção me traz. Posso não me levar tão a sério e não pretender que o público se emocione com a história, ou que a experiência deste texto em palco seja transformadora. O texto é uma ficção, portanto, uma mentira, e homens vestidos de mulher, representando mulheres, também é outra mentira. Destas muitas mentiras contamos a história e deixamos que o público crie uma verdade dela. Ou não. É um jogo. O que vale é a experiência do momento. O jogo acaba junto com o final da peça. Assim fica leve e libertador.

Hotel Rosashock (foto: Alisson Fernandes de Aguiar)

Hotel Rosashock (foto: Alisson Fernandes de Aguiar)

Como foi a seleção do elenco e como está sendo trabalhar com o icônico Castanha?

Inicialmente procurei atores que já tivessem uma Drag Queen. Como a Maria Helena Castanha, do João Carlos Castanha, Gracinha, do Andryos Montanari, Drag Bufa, do Luiz Manoel Oliveira Alves e Lady Cibele, do Everton Barreto. Mas o mercado de “Drags” que sabem atuar não é muito vasto na cidade. Recorri, então, a atores experientes que topassem entrar no jogo de interpretar sob o signo de uma Drag Queen. Foram convocados então o Carlos Paixão e o Áquila Mattos. E como uma participação especial foi convocado o Caio Prates que vai defender Helga, a cozinheira que era citada e não aparecia na primeira montagem. Caio oferece a possibilidade, graças ao seu domínio da dublagem, de números musicais que vão representar as passagens de tempo na história. João Carlos Castanha foi o grande idealizador deste projeto, pois desde a primeira montagem, me falava do seu desejo de atuar neste espetáculo. E assim é. Agora ele defende a Condessa Jane Marie, misteriosa personagem vinda da velha Europa.

A trama não dispõem de uma linguagem cênica e de roteiro baseada na nossa regionalidade. Na época da primeira montagem, chegaram a viajar com a peça? E agora, você pensa nessa possibilidade?

Bem, o texto trata sobre o preconceito de raça, de classe social e de opção sexual. O Hotel está localizado na serra gaúcha, bem no centro da colônia alemã e italiana. Penso que ele pertence muito ao Rio Grande do Sul, somente o olhar sobre a regionalidade, neste caso, está vindo de outro lugar e apontando para outro lugar. Não é um lugar de ufanismo, mas de crítica social.

A primeira montagem não realizou turnê, porque o espetáculo clássico precisa de um cenário a altura. A produção ficou cara para viagens. Desta vez, viajaremos, se o interesse maior das cidades estiver na singularidade do espetáculo. Neste caso, estaremos mais pra circo e pra zoológico, do que, propriamente teatro. Pode ser que valha a pena o investimento do produtor local de levar o espetáculo.

Você, como muita gente que faz teatro no RS, cita uma passagem do Asdrúbal Trouxe o Trombone por aqui como principal motivação para entrar nas artes cênicas. Como foi esse momento e por quê foi decisivo pra tanta gente?

O Asdrúbal revolucionou a linguagem do palco, sendo pioneiro em levar os temas, a ação e a fala das ruas para a cena. Era um teatro jovem, que quebrava as correntes do teatro que estava estabelecido. O que ficou da experiência com o Asdrubal? Um interesse maior no texto curto, na performance e nos temas da atualidade. Porém, voltar, depois do Asdrúbal, aos grandes textos de dramaturgia e aos temas universais, me fez amadurecer como artista. Hoje posso ter o melhor dos dois mundos.

Nos últimos anos, o debate de gênero e uma apropriação maior do discurso feminista e empoderamento da mulher tomaram conta das redes. O teu trabalho, de certa maneira, sempre conversou com esses elementos. Como você avalia esse atual contexto e de que maneira você olha para sua obra dessa atual perspectiva?

O grande desafio é continuar trabalhando na temática do feminino e tentar estar sempre ao lado da ficção e não dos discurso ou da linguagem da auto-ajuda. Parece simples, mas é bem tênue a linha que separa tudo isso. Citando Nélson Rodrigues, escrevo sobre a vida como ela é, e o público que tome suas decisões. Cada vez mais acredito que o lugar para o pensamento, os julgamentos, as afeições e o sentimento, devem ser resguardados para alguém que é o alvo de tudo: o público.

Claro que os discursos do feminismo, do novo feminismo, e das lutas pelos direitos civis, me alimentam e me pertencem, portanto, eles estão no meu trabalho, mas sempre sob a máscara da ficção. E o mais importante: há todos os discursos em um bom texto. Eles são como peças contraditórias que se encaixam para completar a visão do mundo do autor. Porém cada espectador pode se ver representado no palco de uma maneira diferente e ter uma leitura própria da história. Pode torcer para o vilão, por exemplo, ou pode odiar a protagonista. Isso não se controla, embora se procure encaminhar.

No sucesso "Se meu Ponto G Falasse"

No sucesso “Se meu Ponto G Falasse” (foto: Emilio Speck)

Você fala que peças como Hotel Rosashock fazem falta na cena gaúcha atual. Como você avalia o que acontece no teatro gaúcho hoje em dia, tanto na questão da produção quanto na estrutura?

Podemos avaliar a cena pela ótica dos recursos de produção: em tempos de crise, as dificuldades de levantar novas produções se complicam. Nós da Cômica estamos montando como nos anos 80, formando uma rede de parcerias em que os profissionais colocam seu trabalho para receber depois. Isto é, correm o risco junto com a produção. Não é a melhor forma, mas é uma forma de não parar a produção. Mas, para isso, se depende de profissionais amigos ou outros profissionais que tenham algum objetivo maior em entrar no trabalho, como conhecer as formas de produção da Companhia ou ganhar experiência ou mesmo aproximar-se de uma proposta que os atrai artisticamente.

Se avaliarmos a cena pelas condições de estrutura, encontramos na área dos espaços públicos uma grande defasagem entre o número de espaços e o número de produções. Continuam faltando espaços competitivos com condições técnicas e de conforto para o público. Por outro lado surgem, como uma tendência, novos pequenos espaços particulares com a intenção de oferecer uma alternativa aos artistas, porém, ainda são uma alternativa. E, numa outra perspectiva, alguns teatros particulares abrem uma negociação maior para completar a programação. O que é uma boa opção para os que confiam no seu poder de fazer uma boa bilheteria.

Avaliando pela ótica artística, o teatro que nasce dentro da Universidade vem apresentando bons resultados e como é um teatro patrocinado, tem uma continuidade e acaba dando o tom do que deve ser uma produção artística consistente, mas que tem a ambição de atingir a uma platéia iniciada e crítica e que não se comunica com o grande público. Não por falta de qualidade, mas pelo tamanho e pelo âmbito em que acontece. Já os diretores e Companhias continuam desenvolvendo seus projetos artísticos esperando emplacar algum deles em algum Edital público e assim realizar os seus projetos. Ao menos algum deles. Neste caso, Hotel Rosashock tem tamanho e ambição de atingir ao grande público, já que é um gênero popular, porém, sem maiores recursos de divulgação em massa, a chance de atingir o objetivo é sempre um jogo de azar. Enfim, estamos todos, com suas diferenças, tentando sobreviver a uma cena pobre em recursos financeiros, sempre contando que algo maior aconteça para que possamos continuar. Somos artistas e essa é a nossa vontade: criar algo que, antes, não estava lá.

Você acha que o público privilegia as produções locais da mesma forma que lota as sessões de peças de fora que eventualmente passam por aqui?

O grande público não procura a informação. A informação encontra ele. Tudo faz parte de uma rede de informações que vão fazendo sentido para o público: a casa de espetáculos, os artistas, as notícias, as chamadas para este ou aquele espetáculo. É o processo normal de um mercado de cultura, diversão e entretenimento. Quem está fora do mercado não é conhecido e não atinge este público. Não tem nada a ver com qualidade artística e, sim, em conseguir ou não trabalhar com as formas convencionais de divulgação. Porque nosso grande público é convencional.

Você tem alguns trabalhos em TV e cinema. Você tem vontade, ou projetos, de desenvolver mais trabalhos dentro dessas plataformas? Pra ti, é muito diferente de fazer teatro?

Meu foco está no meu trabalho dentro da Academia. Eu concluí neste ano o Mestrado em Escrita Criativa e estou pleiteando uma vaga no Doutorado em Escrita Criativa. É um curso novo que a PUCRS abriu de forma pioneira no Brasil. Estou focada em manter o Complexo Criativo Cômica Cultural aberto, funcionando e produzindo e, neste ano, estou tendo a oportunidade de lançar três produtos novos: A mecânica do amor e A partícula de Deus, de Julio Conte e Hotel Rosashock. Acho que já são muitas realizações. Certamente sempre haverá espaço para o cinema e a televisão, mas estes são setores que dependem de convites que, se vierem, serão bem recebidos. Mas cinema e televisão estão categorizados como “luxo”no nosso cotidiano aqui no sul. Se vierem, vamos aproveitar, mas se não vierem vou me dedicar a criar material artístico e teórico sobre a escrita, que entendo que tem a importância de legado, de uma contribuição para aqueles que querem saber mais do lhe é oferecido.

Temporada Hotel Rosashock

Pré-estréia: 03 de novembro (quinta-feira), às 20 horas
Onde: Centro Histórico-Cultural Santa Casa (Av. Independência, 75 – Bairro Independência)
Ingressos:
Antecipado: R$ 30,00
No local: R$ 40,00
Pontos de Venda:
– Complexo Criativo Cômica Cultural (Osvaldo Aranha 1070 – sala 503 – bom fim – fone: 51 3268-7016);
– Café Art (Vieira de Castro 158 – farroupilha – fone: 51 3013-3986);

Temporada: 10, 11, 12, 13, 18, 19 e 20 de novembro, às 20 horas
Onde: Sala Álvaro Moreyra (Av. Erico Veríssimo, 307);
Ingressos:
Somente no local: R$ 40,00  (A bilheteria abre 1 hora antes do espetáculo)
Classe Artística, sêniors, estudantes e alunos do Complexo Criativo Cômica Cultural: R$ 20,00 (mediante apresentação de documento no teatro)

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