Hique Gomez: “Me sentia parte de uma resistência critica, anarquista e criativa”

Hique Gomez_foto Nilton Santolin

Foto: Nilton Santolin

Luiz Paulo Teló

O ator, músico e multi-instrumentista Hique Gomez é um dos grandes artistas do cenário cultural do Rio Grande do Sul. Durante 30 anos, ao lado do amigo e colega Nico Nicolaiewsky, fez sucesso e percorreu o Brasil com o espetáculo musical Tangos e Tragédias. Os dois eternizaram a mitologia da Sbornia no imaginário popular do público gaúcho.

Contudo, a morte repentina de Nico, em fevereiro de 2014, quando o espetáculo partia para mais uma temporada no Theatro São Pedro, encerrou o ciclo de Tangos e Tragédias nos palcos. O universo lúdico de onde saíram os personagens Kraunus Sang e Maestro Plestkaya, porém, segue vivo e ainda deve ser inspiração para outras obras. Pelo menos é o que dá a entender Hique Gomez, em entrevista exclusiva ao Culturíssima.

O artista segue escrevendo uma bonita trajetória nos palcos. Seja dirigindo o excelente Rock de Galpão, seja em seu projeto pessoal, o espetáculo Tãn Tãngo, no qual desfila um repertório musical refinado, buscando pontos de encontro entre a música portenha, a música brasileira e a música eletrônica.

Culturíssima: Você acaba de tocar no Porto Alegre Jazz Festival. O que você achou do festival? Chegou a acompanhar o restante da programação?

Hique Gomez: Fiquei muito feliz porque imaginava no inicio de minha carreira que estaria me dirigindo para isso, até que encontrei o Nico Nicolaiewsky, que me oportunizou um desvio de trajetória fantástico, onde pudemos nos expressar como artistas integralmente e onde fomos muito felizes nestes 30 anos.

O Carlos Badia, curador e idealizador do festival, foi ver o nosso show TãnTãngo e adorou, e fez o convite na mesma hora. Ele viu que o conteúdo instrumental do espetáculo se prestava muito bem para o PoaJazzFestival. O Festival nasceu grande é já um dos principais do gênero no Brasil e, segundo Nelson Aires, que é o grande pianista de Jazz brasileiro, internacionalmente conhecido na área, não há nenhum outro festival de jazz com a qualidade deste. Vi todos os shows desta edição e todos foram incríveis. Lotou todas as sessões porque o publico que consome e gosta de jazz soube que a programação valeria a pena.

Culturíssima: Atualmente o Tãn Tãngo é o principal projeto da tua carreira. Você pretende fazer algum tipo de registro em áudio ou vídeo? Como você chegou a esse repertório e a esta estética?

Sim, já temos o DVD e a VideoMakers, com direção do Aloísio Rocha, está montando um documentário sobre minha trajetória. Este repertório e esta estética vem do fazer, vem da prática, vem de eu ter aprendido musica com meus amigos, com o Fábio Mentz, Fernando Corona, Rafael Vernet, Michel e Paulo Dorfmann,  Pedrinho Figueiredo, Clóvis Boca, com a minha banda, os Cosmic Tango Agents, Dunia Elias , Felipe Lua, Carlitos Magallanes e  vem de eu ser influenciado por caras como Vitor Ramil, Borghetinho, vem da força da musica brasileira, vem dos pioneiros, Pixinguinha, Nazaré, Chiquinha Gonzaga, vem da Tropicália, da Rita Lee. Algo que eu chamo de HiperPampa – O Pampa que não só  tem como vizinho os países do Prata, mas traz dentro de si o que foi fecundado pelos Baianos, Mineiros, Nordestinos, Ingleses, Celtas em geral e por toda a linguagem musical acessível aos nossos ouvidos hoje.

Culturíssima: O que mais você pode falar sobre o documentário?

Hique Gomez: Ele [Aloísio Rocha] quer falar de minha trajetória. As musicas são introduzidas com entrevistas e o show está lindo, um registro maravilhoso, muito profissional.

 Culturíssima: Como foi trabalhar com os guris do Rock de Galpão e como surgiu o termo HiperPampa?

Hique: Desenvolvi o conceito do HiperPampa quando dirigi o primeiro DVD do Rock de Galpão, e foi uma coisa incrível. Rolou uma interação fantástica entre eu e a banda. Eles permitem que eu dirija, confiam nas minhas observações e incorporam minhas sugestões com uma rapidez e com um profissionalismo total. Mexer no cancioneiro gauchesco com uma pegada criativa trouxe uma coisa muito boa para a as gerações. As familias curtem juntos. Os jovens porque gostam da pegada e acabam reconhecendo o valor daqueles compositores e da musica de inspiração folclórica  e os mais velhos porque sentem que tratamos as musicas com muito respeito e até com devoção. No documentário do 2° DVD temos uma parte no Festival da Barranca onde somos recebidos pelos mais renomados folcloristas e tradicionalistas. Estamos nas veias da musica brasileira feita no RS.

Culturíssima: Vocês ainda enxergam um caminho a ser percorrido pelo Rock de Galpão? Esse projeto ainda pode expandir ou, depois de dois DVDs, ele já cumpriu o seu papel?

Hique: Este é o tipo de projeto que não tem fim. Temos idéias para vários volumes. Inclusive gravar um dos proximos DVDs fora do estado. Ainda não aconteceu praticamente nada do que o projeto apresenta em seu potencial.

Culturíssima: A música contemporânea de qualidade sempre busca suas referências em movimentos de vanguarda de meados do século passado. Voltando o olhar mais para essa última década, que artistas têm lhe chamado atenção?

Hique: Alguns grupos Europeus me chamaram muita atenção como o francês TelepopMusik, pela excelência na mistura entre musica eletrônica e grandes orquestrações, o inglês Psap, a dupla inglesa One Giant Leap. Mas também curto a produção do André Abujamra, do Mauricio Pereira, as coisas do Arrigo Barnabé, sempre geniais. Aqui da nova geração temos o Ian Ramil, muito bom mesmo. Tem a Carmem Corrêa, grande cantora e compositora, e Saulo Fietz, também da mesma geração.  Na área do choro tem o Elias Barbosa, grande bandolinista e compositor de choros. Temos uma geração bastante promissora, que teve muito acesso a informação e tem talento para forjar novas formas de expressão. Na área do erudito tem o Marcelo Nadruz , o Dimitri Cervo , os quais já gravei obras no Instituto Marcello Sfoggia, o qual coordeno. Também o Wagner Cunha e o Daniel Wolf que além de grandes compositores trabalharam comigo fazendo excelentes trabalhos de orquestração.

Culturíssima: Nesse momento, na tua carreira, você vem trabalhando em algo além do Tãn Tãngo?

Hique: Não estamos trabalhando em mais nada, estamos aprofundando esta fórmula e fazendo com que as pessoas conheçam o projeto, temos participado de eventos e shows em feiras e outros eventos legais. Demora muito tempo para um projeto que está na estrada se estabilizar no mercado de shows. Anda mais longe da TV, parece que a conquista do publico se dá de um em um, o que é ótimo pois este tipo de conquista nunca de desfaz.

Culturíssima: Pode, ali na frente, você voltar a interpretar uma ‘persona’ que não seja o Hique Gomez no palco?

Hique: Sim, já estou sentido vontade de voltar a fazer humor. O legado do Tangos e Tragedias e a onda positiva que as pessoas levavam para casa deveria continuar. Mas tudo isso é a  natureza quem decide. A natureza se manifesta através de nós e é soberana sempre.  A espontaneidade está ligada a natureza das coisas, e é o principal para que coisas deste tipo aconteçam. Humor forçado ja tem bastante na TV.

Culturíssima: Então, a trajetória do Tangos e Tragédias foi incrível. Quando vocês perceberam que não tinham dado certo apenas aqui, mas também estavam levando o espetáculo pra todo o Brasil?

Hique: Foi uma insistência consequente! Sabíamos que era muito possível que fizéssemos certo sucesso, porque o sucesso interno já era uma realidade. Já percebíamos que  havíamos encontrado uma forma de expressão genuína que nos agradava muito. Eu me sentia parte de uma resistência critica, anarquista e criativa. Não importava o sucesso imediato, sim a descoberta de nós mesmos, de nossas potencialidades artísticas, da arte radical. Até que começamos a dar entrevistas com os personagens. Isso foi um ponto importante. As entrevistas passaram a ser extensões  do espetáculo.

Culturíssima: Nos primeiros anos, o Dilmar Messias fez algumas participações, muito na base do improviso. Como isso funcionava?

Hique: O Dilmar é o meu mestre de teatro. Antes do Tangos e Tragédias, montamos juntos uma peça de sua autoria, chamada As Aventuras de Mime Apestovich do Inicio ao Meio.  Ele me ensinou muitas coisas. Estreamos em 84 e no ano de 86/87 Dilmar trabalhou um ano conosco e foi uma escola incrível. Porque ele já era um comediante experiente e nós contracenávamos com ele enquanto ele improvisava gags na nossa frente. Uma oportunidade e tanto pra quem não sabia direito o que estava fazendo.

Culturíssima: Na época em que o Nico faleceu, vocês estavam trabalhando em alguns projetos relacionados ao Tangos. Teve o filme, que foi lançado. E o restante, eles podem acontecer ainda?

Hique: Sim, pode acontecer sim. Fizemos o Tributo ao Nico que era uma coisa importante ano passado. O universo da Sbornia pode voltar à tona, depende muito da natureza e da espontaneidade de que este universo exige. Esta é a marca da Sbornia. Não vou fazer nada que não esteja intimamente ligado aos fundamentos que desenvolvemos neste trabalho.

Culturíssima: Em que estágio estão?

Hique: No estagio latente dentro do Ovo! Afinal sem um Ovo de qualidade não se pode fazer A Verdadeira Maionese.

Culturíssima: O espetáculo em tributo ao Nico foi muito bonito e extremamente bem produzido. Como foi para vocês, todos amigos muito próximos, subir no palco para fazer aquela homenagem? Vocês pensam em repetir?

Hique: Foi dureza! 28 anos abrindo a temporada do Theatro São Pedro ao lado do parceiro e no 29° fazendo um tributo a ele que havia passado. Mas foi muito bonito. A direção da Marcia do Canto com suporte do Fernando Pezão e do Claudio Levitan.

Culturíssima: Você tem viajado muito com o show do Tãn Tãngo? Fora daqui, as pessoas ainda peguntam muito sobre Tangos e Tragédias?

Hique: Tenho viajado pouco. O projeto esta se estabelecendo bem devagarinho, mas sinto que é permanente também. As pessoas curtem quando veem. Muitos vão porque me conhecem do Tangos e Tragedias, mas já na segunda música entendem que se trata de outra coisa totalmente diferente e se entregam para a experiencia da mesma forma.

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