Mano Changes e uma conversa do palco à Assembleia Legislativa

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Luiz Paulo Teló

Há pouco tempo, a Comunidade Nin-Jitsu completou 20 anos de estrada. Em 2015, o disco King Kong Diamond foi lançado e suas 10 faixas inéditas significam muito mais que apenas um novo trabalho. Mano Changes nos explicou que o disco também simboliza essas duas décadas de trajetória, tanto é que convidaram Edu K para produzir o álbum, assim como foi no primeiro registro da banda, o disco Broncas Legais.

Mas desde 2006, Mano Changes não é apenas mais um vocalista e compositor de banda de rock. Ele concorreu e se elegeu por duas vezes consecutivas ao cargo de deputado estadual, pelo PP. Se orgulha de ter colocado na constituição do estado a emenda que determina o acesso à informação através da internet como um direito social, e também por ter sido o deputado que menos gastou dinheiro durante suas duas legislaturas. Por outro lado, revelou uma profunda decepção por não conseguir se eleger deputado federal em 2014. Há cerca de um ano ocupa o cargo de Coordenador de Inovação e Sustentabilidade do Badesul, indicado pelo governador José Ivo Sartori.

Na conversa conosco, Diogo Paz Bier, o Mano, não poupou saliva para falar de política e de música, falando sobre a trajetória de sucesso da Comunidade Nin-Jitju, uma banda que foi transgressora em vários aspectos, até a decisão de concorrer a um cargo eletivo pelo PP, um partido considerado conservador no cenário da política regional.

Culturíssima: Vamos começar falando do teu trabalho aqui no Badesul. Como tem sido?

Mano Changes: Então, estou coordenando a Inovação e Sustentabilidade. Na verdade, a gente tinha uma diretoria de Inovação e Participações. A gente é cotista de alguns fundos de participação e inovação, e como até 2020 todas a agências de fomento e instituições financeiras tem que estar adequadas com o Plano de Responsabilidade Socioambiental, então a gente agregou isso também à minha pasta. A gente trabalha em duas vias: uma é uma linha de crédito exclusiva para inovação, que é o INOVACRED, um dinheiro que vem do Ministério da Ciência e Tecnologia, seja para produto ou para processo. Tem uma amplitude muito legal, porque tu pode desenvolver uma ideia e colocar essa ideia no mercado. Não sou eu que julga o caráter inovativo do negócio, isso é feito por um comitê, com professores da UFRGS, etc., para não ter nenhum vício de origem, já que estamos falando de juros subsidiados. Então no momento que a empresa tem capacidade de pagamento, tem fluxo de caixa, tem capacidade de amortizar a dívida e tem um projeto inovador, aí tudo que está dentro desse projeto pode ser financiado pelo INOVACRED. Mas se precisa de garantias, é uma instituição financeira, e o critério técnico é a lei que impera aqui dentro, não tem como ser diferente nesse sentido.

A outra operação que a gente tem é através dos fundos de participação e inovação. Nós somos cotistas desses fundos. O gestor de um fundo de participação tem que estar atrelado à CVM [Comissão de Valores Mobiliários], bolsa de valores, e passa através de editais nesse sentido. Então existe um chamamento de capital, e aí dos fundos que a gente participa o maior investidor normalmente é o BNDES, com o Criatec. A gente participa do 2, e agora está iniciando o 3, em que tu faz um destaque de capital de cada um desses cotistas em relação ao fundo, e cabe ao gestor prospectar empresas inovadoras e ideias inovadoras. Startups normalmente não têm garantias, nem performance para se enquadrarem em um risco conservador com o perfil de investimento do Badesul, então como não tem garantia, a gente faz uma proposta para adquirir por um tempo determinado, uma porcentagem de ações daquela empresa. Aí vem todo um direcionamento gerencial, financeiro e contábil para que aquela empresa possa performar. E quem faz esse meio de campo é o gestor, que passa para os cotistas, que votam e etc. A gente só entra em fundos de participação e inovação onde tiver gestor local, é uma exigência nossa. Ah, a gente entra com 10 milhões no Criatec 3, por exemplo. Mas, desse valor, no mínimo, 10 milhões tem que ser investidos no Rio Grande do Sul e tem que ter um gestor local para prospectar, aí a gente dá toda a assessoria para esse gestor. Então estamos direto em contato com parques tecnológicos, com incubadoras, com as aceleradoras, olhando o que tem para induzir que esses fundos nacionais possam fomentar cada vez mais essa economia inovativa dentro do estado.

Certo. Agora vamos falar de música. Depois voltamos à política. Ano passado a Comunidade Nin-Jitsu lançou o King Kong Diamond, com a produção do Edu K. É um álbum de inéditas, mas tem um caráter comemorativo também, né?

 Sim, é verdade. O Edu produziu nosso primeiro disco. Ele sempre foi uma referência pra nós, por causa do DeFalla, e quando a gente se conheceu, ele foi influenciado pela gente também. Naquela fase popozuda ele conviveu muito com a gente, bebeu muito daquilo que a gente queria fazer como músicos. A gente criou uma harmonia muito legal. Depois trabalhamos com o Dudu Marote, depois com o Rafael Ramos, e depois começamos a produzir os nossos trabalhos. Quando fechou esse ciclo de 20 anos, a gente entendia que o Edu era o cara que tinha mais a ver com a gente, então convidamos ele para produzir o disco. O KKD tem uma brincadeira meio “lado A e lado B”, pensando justamente nos vinis. As primeiras cinco faixas são com programação eletrônica, e as cinco faixas restantes, que seria o lado B, são faixas que predomina a batera orgânica. Justamente para ter esses dois lados da banda, de brincar com a batida eletrônica, mas de mostrar que, pô, acima de tudo a gente é uma banda de rock, e sempre chamou mais atenção ao vivo do que em estúdio, justamente porque ao vivo todas as músicas que têm a batida eletrônica tem o baterista tocando junto.

Foi um disco que nos deu muito prazer. Fizemos com muita calma. Praticamente finalizamos ele em maio de 2014, e como era um ano eleitoral e a gente entendia que aquilo poderia prejudicar o próprio disco, decidimos segurar e lançar ele em 2015 para não ter nenhuma conotação política e parecer que estamos nos aproveitando de alguma coisa. É um disco que a gente gostou muito de fazer e é legal de ver que os fãs gostaram muito e sentiram justamente isso de ser um disco comemorativo, que olhou para toda a trajetória da banda. Mas é um disco diferente, porque normalmente a gente compõe através do ócio, e tínhamos muitas ideias jogadas ao leu, e usamos justamente 2014 e a própria produção do Edu como um estímulo pra gente se reunir, criar, juntar todas as nossas ideias e transformar isso em um produto. Então também nesse sentido, foi uma experiência nova, porque trabalhamos com prazo, coisa que a Comunidade nunca fez.

O outro disco havia sido lançado apenas em 2008 [Atividade na Laje]. Por que esse hiato tão grande?

Cara, acho que é uma coisa meio Beastie Boys [risos]. Na Comunidade todo mundo tem outros projetos. O Fredi é DJ, o Nando é produtor, eu tenho minhas outras atividades. Foi muito mais no sentido de que a gente fez o disco, o Atividade na Laje, que funcionou, e começamos a ter bastante show. Nesse hiato a gente lançou um disco e um DVD ao vivo, que mostra toda a trajetória desses 20 anos da banda, e que a gente teve a ideia de convidar as participações especiais não para tocar uma música nossa, e sim fazer o show, e depois do show, como se fosse um presente para as pessoas, ter artistas que tinham a ver com a nossa história, com a gente interpretando músicas que tinham a ver com a gente, mas que não necessariamente eram nossas. Só no caso do Lucas, da Fresno, que ele participou de Quero te levar, e foi muito mais porque a gente sempre brincou com ele dizendo que ele era o Justin Timberlake brasileiro e que, quando gravássemos esse som ao vivo, queríamos que ele cantasse. E com os outros participantes a gente revisitou músicas. Com o Papas da Língua foi Ela vai passar, que é uma música que brinca com a história da Comunidade, gravamos Us mano e as mina, com o Xis, pela relação pessoal que a gente tem com ele; O BNegão, que nem se fala! Não só pelo Planet Hemp, mas ele tinha uma banda chamada Funk Fukers, que misturava o batidão miami bass com rock, e lá em 1996, quando a gente ganhou o VMB [prêmio da MTV] com melhor demo clipe, com Detetive, a Funk Fukers concorria também com um som que era um pancadão com guitarra. Ali já criou uma relação muito legal. Pô, como que duas bandas, que não se conhecem, tem tanto a ver em termos de influência musical? Acho que para o carioca fica muito mais fácil de entender essa cultura da black music e o que o baile funk representa, o miami bass, o Afrika Bambaataa e o próprio 2 Live Crew, mas a gente sempre bebeu muito da música negra também e tem muito orgulho disso, acho que é o que destoa um pouco a Comunidade Nin-Jitsu dessa coisa de “rock gaúcho”. A gente sempre gostou muito de rock mas também sempre gostou muito de black music, e quando a gente ouviu baile funk, a gente entendeu que aquilo era o Afrika Bambaataa, era o hip hop um pouquinho mais acelerado, que era o miami bass e que legal que se estava fazendo isso com pouco recurso na periferia. Daí começamos a mesclar isso, e conhecemos a Funk Fukers, que tinha tudo a ver com a gente, e se criou uma relação direta.

E o Chorão! O Charlie Brown sempre foi uma banda que, junto com a gente, no Planeta Atlântida, destoava um pouco daquele mainstream do pop e tinha uma coisa mais politicamente incorreta, uma linguagem mais rock mesmo, e com atitude. Pra nós foi uma honra ter gravado com o Chorão, e ele se disponibilizar a vir. Ele gostou muito de ter participado, tanto que depois dessa parceria que a gente fez, fizemos vários shows juntos aqui no RS. Uma pena o que aconteceu. Mas também é um orgulho nosso, de poder continuar levando a mensagem do Charlie Brown através dos nossos shows, porque a gente, em virtude até do que aconteceu, incorporou Tudo que ela gosta em nosso repertório, para não deixar a chama de um cara tão relevante para a cultura rock do Brasil morrer.

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Desde o início a banda tem uma sonoridade muito característica. Como surgiu essa identidade com o rock, o funk e a black music tão no embrião da Comunidade?

Os dois maiores denominadores comuns da Comunidade são o Parliament-Funkadelic e o AC/DC. Sempre cultuamos muito eles, e também Sly & the Family Stone, James Brown e tudo o que vinha dessa vertente da música negra a gente sempre entendeu e interpretou muito bem. Ao mesmo tempo, os anos 90 foram muito funk metal, de misturar o hard rock com o hip hop, principalmente ali com o Ice-T, o Body Count, então isso sempre nos chamou a atenção. Quando a gente ouviu o Rap da Felicidade, e todo mundo meio que tirando onda e com preconceito com uma música que estava sendo desenvolvida no Brasil, a gente olhou e pô, isso aí é 2 Live Crew, é miami bass, é o Afrika Bambaataa. Cabe uma guitarra aí pra misturar esse baile funk com rock. E fizemos isso. Foi a primeira banda do planeta a misturar o tamborzão do baile funk com o rock, justamente pela nossa bagagem cultural e por entender que aquilo podia ser uma vertente pra gente ouvir e se divertir, usando uma linguagem mais chinela mesmo. Vamos brincar com isso, porque o gaúcho sempre foi muito irônico e bem humorado nessa cultura rock. Aí começamos a brincar nesse sentido, a samplear as coisas, começamos a revisitar, e fizemos coisas como Merda de Bar com o Sunshine of Your Love [ do Cream]. Então a gente chega ali, falando um monte de merda, com um som novo, inventando gíria, e começou a tocar na rádio e sempre tinha gente falando “ah, eles só estão fazendo sucesso porque pegaram música do Cream”. A gente sempre deu risada pra isso, nada melhor que o tempo para mostrar. Hoje todo mundo paga pau para mashup, e a gente fazia isso ao vivo, há 20 anos! Porque nós não tínhamos essa restrição de ter a fórmula de um bolo e essa fórmula é o que vai nos levar para o rock. Até porque acho que Tati Quebra Barraco é muito mais rock do que muita coisa que se diz rock no Brasil. Rock tem a ver com atitude, tem a ver com fazer o que tu quiser e foda-se.

A própria história fez com que a gente se fortalacesse, que a gente tivesse uma abrangência, que a gente começasse a tocar no rádio, que a gente começasse a fazer shows onde bandas só tocam covers e chegávamos lá e tocávamos apenas as nossas músicas. Eu sou muito mais compositor do que interprete, são pouquíssimas músicas que não são da Comunidade que eu sei de cor e que posso cantar no show. A Comunidade é a fonte de partida da minha trajetória artística, diferente do Fredi e do Nando, que sempre tocaram e não dependem só da Comunidade para fazer música.

Temos muito orgulho da nossa trajetória, de ter sido inovador, de fazer a nossa música tocar no Japão. Quando a Europa entendeu que o funk é a única música eletrônica realmente brasileira, a gente tocou na Espanha, em Portugal. O Fredi, como DJ, já tocou muito no leste europeu, no Japão, e sempre levando a nossa sonoridade. Tem uma rádio na Alemanha que toca o Kink Kong Diamond, tocou o Atividade na Laje, e isso é legal, porque tu transgrediu as barreiras físicas da tua língua, e isso também sempre chamou a atenção, por essa coisa de uma linguagem diferente, de ser despojado, de ligar o foda-se desde 95, e ao mesmo tempo tendo uma sonoridade diferente. Foi uma coisa despretensiosa. Detetive era uma brincadeira de infância, e quando escrevi a letra fiquei até constrangido de mostrar para o Fredi, e quando ele viu a letra disse “bah, que legal, vamos gravar isso”. Na época eles tinham uma banda chamada Borboleta Negra, que tinha uma relevância no cenário underground, e no show deles eu cantava Detetive, e chamava mais atenção. Aí a coisa aconteceu e deu no que deu.

Isso não é muito comum, mas vocês conseguiram sair e fazer sucesso fora daqui com certa facilidade.

Exato. A MTV abraçou, e um cara que foi importante, tanto para a Comunidade quanto para a Ultramen, que fez com que a gente saísse foi o Dado, da Legião Urbana. Nossa primeira gravadora foi a dele, a Rockit. O cara de uma das bandas mais relevantes do país, tem uma gravadora e vê na Comunidade e na Ultramen bandas com potencial pop, e com atitude, legitimidade e criatividade, e apostou na gente. Depois fomos para a Sony, que comprou os nossos direitos. A gente se decepcionou um pouco com a Sony. Eles nos colocaram para gravar com o Dudu Marote, e um disco que tem Ah Eu to sem Erva, tem Não Aguento Mais. Acho que o disco Maicou Douglas Syndrome consolidou a Comunidade como uma banda de verdade, e não uma banda de um disco só. O mercado era muito grande, rolava muito dinheiro, não pra nós, mas dentro da Sony, em um mercado que estava no auge, e já tínhamos uma relevância, principalmente na região sul, e onde a gente ia, abríamos portas para a Sony, e não ao contrário. Eles nos deram uma baita estrutura para gravar um puta disco, mas na hora da divulgação, deixaram a desejar. Por isso que não ficamos na Sony. Nos demos conta que estávamos divulgando muito mais a Sony que ela nos divulgando. Agora, acho que a Comunidade tinha potencial para ter tocado muito mais fora do estado, porque a gente chegava em eventos como o Planeta Atlântida e via que a repercussão do nosso show era tão significativa quanto Charlie Bown, quanto Ivete, quanto qualquer artista mais relevante no cenário nacional, e que faltou um pouco mais de investimento das gravadoras para reverberar um pouco mais disso. 

Você falou antes do rapper Xis. Li uma vez uma afirmação da Pitty dizendo que em termos de atitude e discurso, ela se sente muito mais próxima a caras como Emicida e Criolo. Acha que o rock brasileiro ficou meio bunda mole?

O poder da linguagem de um MC é muito maior que a do rock, ele se pressupõe muito mais a isso. Agora, uma coisa que a gente brinca, é que tem muita banda de rock que se tu for fazer acústico e tirar a guitarra, ela vai ficar muito mais sertanejo do que rock.

E o contrário acontece também. Os mega shows de sertanejo, desses grandes nomes, têm bandão, pirotecnia, cara vestido como roqueiro…

É, isso aí. O sertanejo é um fenômeno no Brasil que serve de aprendizado para as novas gerações que querem fazer rock. A gente perdeu o timing de fazer e devia ter feito, que é se unir mais. Como funciona o sertanejo? Cada um tem um hit, mas todos tem o mesmo show. Eles tocam o seu sucesso, mas tocam todos os sucessos dos outros também. Eles se potencializam, então ocupam muito mais espaço e acabam reverberando toda uma cultura como se fosse um movimento. A nossa geração podia ter criado um nome, criado uma sintonia, ter tido um pouco mais de humildade para reverberar uma cena que foi muito legal. Não que a gente não fosse amigo, não tocasse junto, não que a gente não se gostasse, mas acho que faltou um pouco de inteligência mercadológica pra gente criar uma unidade. E não pensar só que estamos vendendo show e faturando, mas será que não temos que ter uma sintonia, será que não podemos ter um estúdio junto, começar a gerar conteúdo, se modernizar em relação à divulgação do show, pois a internet está aí – estava aí, hoje já é uma realidade. São algumas coisas que acontecem que, depois que a gente amadurece, a gente vê que poderia ter reverberado mais como movimento, como algo que seria mais relevante. Todo mundo, independente de cada um ter sua peculiaridade. Pô, eu gostaria de ter tocado mais em festivais em que tivesse todo mundo junto, Comunidade, Tequila Baby, Papas, etc., e foram raros os momentos em que isso aconteceu.

O Planeta Atlântida ainda é o festival que pode ajudar a fortalecer esse tipo de cena?

Acho que é. Mas não no palco principal. Esse segundo palco que foi criado não deixa de ser algo legal para mostrar a força dessa cultura. Até em virtude disso, e desse show que a gente fez [na edição desse ano] com a Império da Lã e todos os artistas gaúchos que mais tocaram no Planeta, o Foster [repórter do jornal Zero Hora] escreveu uma matéria dizendo que o rock gaúcho morreu, e muita gente ficou brava com ele. Acho que não tem que ficar bravo, acho que ele fez um favor, pois aquilo deu tesão para as pessoas dizerem que não, não morreu, estou aqui, estou vivo etc. E acho que não tem espaço nesse palco que vai tocar Wesley Safadão, e atrações internacionais, não elo público, mas sim pela organização do evento. Ao mesmo tempo, é muito mais revigorante tocar em um palco que não seja o principal e deslocar 15 mil pessoas para ver o nosso show, do que tocar para 10 mil no começo do evento.

Claro, acho que eles podem aumentar um pouco mais esse palco, dar mais relevância, não destoar tanto do grande, ter sincronia de acabar um show e começar outro, até pra cada vez mais a gente mensurar essa qualidade. E se tu for ver, os principais artistas ou são do rock ou são locais. A gente botou 15 mil no nosso show e depois veio os Raimundo e o povo ficou ali, isso não é à toa. Em 2014 a gente tocou junto com Raimundos no palco principal, e o show foi sensacional. Deu a coincidência do filho do Chorão estar no festival. Ele estava lá para fotografar o Supla, no camarote vip, e como conhecemos ele, chamamos e pela primeira vez ele subiu no palco, cantando comigo e com o Digão. A repercussão foi muito boa, e teve uma enquete no G1 e Comunidade com Raimundo foi eleito o melhor show de sábado com 54% dos votos. Então, existe espaço ainda, e não acho ruim a gente migrar para outros palcos, desde que tenham disponibilidade física para que as pessoas possam migrar para um palco paralelo e tu possa botar 15 ou 20 mil. Aí é revigorante para o artista, porque tu está remando contra a maré.

Certo. Agora vamos falar um pouco da tua trajetória política. Você foi duas vezes deputado estadual pelo PP, um partido mais conservador, bem diferente da tua postura como artista à frente da Comunidade, até mesmo como letrista. Como decidiu concorrer e por quê pelo PP?

O grande defeito da direita no Brasil é que extremos, como Bolsonaro, a transformam em uma direita conservadora, e não com liberalidade. E muitas vezes a esquerda está ligada à rebeldia. Eu entendia que a primeira coisa que tem de ter é vontade política para produzir alguma coisa. Não acho certo nem o Estado mínimo nem o Estado máximo, acho que o Estado tem que ser eficiente e necessário, e cada vez mais tem que ser competitivo em relação à economia. Quanto mais transparente, quanto mais harmônico, quanto mais organizado, melhor vai ser o resultado público para o desenvolvimento social. Eu entendia que teria muito mais poder de diálogo com a esquerda se estivesse em um partido de centro-direita. Eu apoiei a Manuela (PCdoB) em 2012. Fiquei contra Yeda (PSDB) e apoiei os professores em 2008. O meu papel na política não era simplesmente vestir uma doutrina político-partidária. Não. Era muito mais importante eu atenuar um ranso e potencializar um debate, porque política pública para juventude é isso. Se eu começar “ah, fulano é de partido comunista, eu não acredito em comunismo, não vou conversar com essa turma”, o que vai acontecer? Quando eu ou esse jovem chegar ao poder, a gente não vai conversar. E não é porque uma pessoa tem uma ideologia diferente da tua que tu não vai respeitar, pelo contrário, o parlamento é para tu discutir e chegar a um denominador comum. Então sempre transitei muito bem em todos os partidos.

Não acredito em partido político no Brasil. O sistema é feito para que os partidos não funcionem, e isso é um dos grandes problemas da política no país. É muito fácil dizer que os partidos estão falidos e precisamos de uma reforma política. Tá, mas por quê os partidos estão falidos? O sistema eleitoral não visa a formação de partidos, ele visa a formação de individualidades. Enquanto a gente tiver eleição ilimitada para deputado e vereador, e tiver o voto em legenda, tu nunca vai fazer partido. Assim, os caras que pensam parecido contigo, são teus maiores inimigos, e ainda tu pode se reeleger quantas vezes quiser. Então algo novo, que venha para melhorar, é visto como uma ameaça e não como algo que vai trazer desenvolvimento e melhorar e limpar o filme da política. Aí tu cria uma união hipócrita, e essa é a estrutura da política brasileira.

Vida artística x Vida Política

Sempre acreditei muito mais nas pessoas do que nos partidos. E, claro, sempre fui um cara do diálogo, sempre fui um cara que olhou e disse “vamos respeitar o que esse cara pensa e vamos respeitar o que o outro pensa”, desde que seja algo positivo. Pra mim, o grande erro da direita é que ela não é inclusiva no Brasil. Isso é uma estupidez. Inclusão gera mercado. Dar acesso à informação através da internet para o cidadão é gerar mercado, é gerar poder aquisitivo, é fazer a economia funcionar. E parece que tem muita gente da direita, principalmente os mais extremos, que quando tu fala em inclusão, tu tá falando em mordomia e penduricalho. Não estou falando em dar uma esmola pro cara, mas sim em ensinar a pescar, em transformar a realidade da educação. Isso foi o que me motivou a estar na política, não foi a questão da internet livre, isso foi uma bandeira que agreguei depois, porque entendi que a gente estava criando um abismo social entre quem tem acesso e quem não tem.

A escola não pode ser chata, tem que ser atrativa. E como tu atrai a gurizada para dentro da escola? Com tecnologia, com cultura e com esporte. Então sempre trabalhei nesse sentido. Há três anos, com 50 milhões de reais tu fechava um anel de fibra ótica público no estado e criava um backbone de altíssima velocidade para todos os municípios. Tu teria como levar o acesso à informação para as pessoas. Aí fui ver como é viável e como as pessoas não se dão conta disso. Um deputado federal tem mais de 15 milhões de emendas por ano, diferente do estadual, que tem zero. Então um deputado federal poderia fechar esse anel de fibra ótica só usando as emendas parlamentares. Escrevi na constituição do Rio Grande do Sul que o acesso à informação gratuita através da internet é um direito social, está lá. É a primeira constituição da América ter um artigo que diz isso. A partir de então, as políticas públicas precisam nortear para isso. Mas foi um ciclo que se fechou, nunca mais vou ser candidato a deputado estadual, o que eu tinha que fazer, eu fiz.

A tua não candidatura para federal em 2014 te decepcionou muito?

Sim. E me decepciona muito a falta de interesse da mídia em boas notícias. Ouvi muito na minha campanha de deputado federal que queriam ouvir de outra pessoa que eu fui o deputado estadual que mais economizou, que era muito fácil eu dizer isso. Sim, entendo, mas ninguém fala. Um músico, que tem o nome de Mano Changes, que entra como um ponto de interrogação, e passa oito anos e ele é o cara que menos gasta e mais abre mão de privilégios, antes mesmo de se falar em crise… Me decepciona, mas ao mesmo tempo me orgulha muito a minha trajetória, e ninguém vai poder mudar isso e as histórias que tenho para contar desses oito anos e agora um ano dentro da Badesul, onde estou muito mais feliz do que se estivesse dentro da Assembleia. Ganhando muito menos, mas continuando um aprendizado que é importante para a minha formação como cidadão, independente do que for acontecer na minha vida, independente se eu for candidato a deputado federal de novo, ou não.

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