Nei Lisboa e as velhas trapaças do novo mundo

Foto de Marian Starosta

Foto de Marian Starosta

Luiz Paulo Teló

Nei Lisboa dispensa apresentações. Afinal, há mais três décadas já é nome indispensável da cena musical gaúcha e porto-alegrense. E não só daqui, pois Nei é cosmopolita, transitou de Berlim ao Bom Fim, conheceu uns carecas na Jamaica, tocou o candombe uruguaio e não pagou pedágio, e sequer gasolina, para viajar pelo Cosmos.

Esse mesmo cara que, na noite de 13 de junho deste ano, um sábado, subiu ao palco do Salão de Atos da UFRGS para gravar Telas, Tramas e Trapaças do Novo Mundo. Seu novo projeto de disco ao vivo, que revisita sua carreira pós anos 2000. Contemplado pelo edital Natura Musical e contando com apoio do Pró-Cultura, o disco deve sair ainda em 2015.

Nesta entrevista exclusiva ao Culturíssima, Nei Lisboa falou também desse novo trabalho. Mas não deixou de abordar temas que lhe foram recorrentes durante toda a sua trajetória. O músico e compositor falou de política, de regime militar e se mostrou preocupado com a onda conservadora que parece tomar conta do congresso nacional.

Culturíssima: Que avaliação você faz sobre a escolha de repertório e da noite de gravação do novo disco ao vivo?

Nei Lisboa: O show foi muito caloroso, atingiu o resultado que a gente queria, de funcionar como espetáculo e ser uma gravação de disco. Essas gravações sempre são complicadas, muita coisa termina sendo refeita, ou sendo gravada várias vezes. Tínhamos até um planejamento de fazer um take de cada música na tarde e, na verdade, para o mal ou para o bem, isso não aconteceu. Então a gente gravou o show, corrido, que não teve repetição de música durante ele, e no bis regravamos algumas músicas. Agora no estúdio terminamos a audição, foram duas semanas auditando o material, e ficou muito legal. Desse repertório, boa parte já foi gravado em outros discos, e várias dessas músicas me deixaram um pouco frustrado com o resultado que tiveram no estúdio. Músicas que tinham uma garra que muitas vezes a versão de estúdio não contempla. O processo é todo desmembrado, se grava bateria separado, se opta por colar umas partes nas outras, e acaba que o trabalho fica higienizado, mas sem garra. Esse trabalho novo, que estamos no começo da mixagem, está me dando muita alegria.

Culturíssima: Se sente mais à vontade ao vivo?

Nei Lisboa: Com certeza. Eu já vinha nessa sede. Em 2004, gravei um ao vivo em São Paulo, mas foi quase de surpresa. Fui fazer um show no Itaú Cultural e tinha a expectativa de que duas ou três músicas seriam gravadas, para um disco coletivo, institucional do Itaú. Em cima da hora a gente soube que era um DVD inteiro para cada um. Dei uma segurada nessa gravação, só soltamos um disco em 2011, chamado Vapor da Estação, com esse material, e sem lançamento comercial, só vendendo em show. Então a sede de produzir um disco ao vivo, de carreira, era grande. O A Vida Inteira, que foi o disco anterior, cogitei bastante fazer ao vivo, nem que fosse em estúdio, pelo menos. Mas não deu, era tecnicamente complicadoa e a ideia não vingou. E essa oportunidade da Natura foi fantástica. Justamente com o repertório é que eu tinha um pouco de receio, não sabia o que fazer, porque eu não podia repetir o A Vida Inteira, isso nem eu gostaria e nem era o objeto do edital. Eu não queria gravar um “the best of”, com coisas antigas que já estão muito batidas, com várias gravações por aí, muitas delas já estavam nesse CD que me referi do Itau Cultural. Então isso eu não sabia, mas tinha um nome, que era o nome provisório do A Vida Inteira, que eu queria muito retomar: Telas, Tramas e Trapaças do Novo Mundo. Aí fui fazer esse corte de músicas minhas, de 2000 pra cá, que não fossem as mais conhecidas, e que pudessem se relacionar com esse nome. No final, quase que se construiu um repertório inteiro de show com esses temas. Várias músicas do Cena Beatnik, de 2001, e Translucidação, de 2006, que têm esse viés que de alguma forma se conectam com esse título, que é um guarda-chuva geral, de um olhar crítico para o social, das questões mais coletivas da política, da situação institucional do Brasil e do mundo todo. Um momento importante para botar pra fora, reagir contra essa onda conservadora, que tem sido protagonista na política, no comportamento dos últimos anos. Acho que é a hora de fazermos nossa parte.

Na gravação de "Telas, Tramas e Trapaças do Novo Mundo"

Na gravação de “Telas, Tramas e Trapaças do Novo Mundo”

Culturíssima: Você vem de uma geração que pegou o final dos anos 60, depois anos 70, 80… E agora o século XXI. Apesar de reconhecidos avanços sociais, de um olhar cada vez mais atencioso e preocupado com as minorias, o mundo ficou mais careta?

Nei: Exatamente. A história é um espiral, que está sempre retomando, e com sorte a gente pode ver ela como um espiral que, a cada volta, avança um centímetro. Quero ter essa visão otimista ainda, mas estamos em um lado da volta que é muito cruel. Depois de tudo que a gente pensa que avançou, tem que estar ouvindo Eduardo Cunha falar em direitos heterossexuais, e daí pra fora. Quem tem, como eu, uma história com a esquerda brasileira, e o sonho do PT e etc., também está em um momento muito frustrante. Tu está vendo a direita evangélica tomar o poder de assalto, e também está vendo a tua aposta em um governo de esquerda não contrapor, não se posicionar em relação a isso, pelo contrário, ainda fazer acordos e dar mostras de que quer se ajustar a esse modelo. Então é um momento bem cruel da história, mundo a fora. A Europa com um momento de tanta xenofobia, tanta repulsa à imigração, a religião protagonizando crimes bárbaros, enfim. Não é um momento bom pra quem é saudosista, e o show da reitoria da UFRGS teve um pouco disso, em relação ao Fórum Social Mundial, muito por ter sido em Porto Alegre. A gente viveu aquilo cara a cara, com uma atmosfera de que as coisas realmente podiam mudar. Um momento muito otimista, diverso a tudo isso que vemos hoje. Mas é assim, a história dá dois passos para trás, às vezes dá três pra frente.

Culturíssima: Nas últimas eleições você se posicionou como figura pública em apoio aos candidatos do PT. Com essa frustração que você falou, isso pode não acontecer nos próximos pleitos?

Nei: Eu apoio o PT há 30 anos, desde o final dos anos 80, começo dos anos 90. De uma década pra cá, de uma forma um pouco diferenciada. Como eu vinha dizendo, o PT deixou de ser uma causa, passou a ser um grande partido e a assimilar o que há de ruim na politica partidária brasileira. Não sei te dizer em quem eu vou votar ou não na próxima eleição, mas não acho, assim como tantos, que o PT morreu, nunca me fiz também de surpreendido. Claro, lamento tudo o que aconteceu, mas foi um processo que era visível, de ver que o PT estava se estruturando como um partidão e, como tal, incorporando todos os vícios da política brasileira. Continuei votando e fazendo campanha para o PT, mas de uma forma pragmática, votando em quem eu achava que faria um bom trabalho, ou votando porque era a opção menos pior. O apoio continuou, mas o calor já não é o mesmo. Há um momento que o PT parece dizer que os fins justificam os meios, mas agora nem os fins justificam mais. Por meios escusos, ilícitos, dúbios, discutíveis, no mínimo, a gente está dando poder para o Eduardo Cunha! Então começa a ficar bem difícil, mesmo.

Culturíssima: Com as atuações de figuras como o Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Michel Temer, o PMDB meio que conseguiu escantear a Dilma Rousseff.

Nei: O PMDB é a desgraça da política brasileira, não saiu do poder nunca. Mesmo durante a ditadura, cumpriu um papel importante para a ditadura. Todo mundo fala do antigo MDB como resistência… Verdade, parte foi, mas também no final da ditadura cumpriu o papel de sustentar uma fachada democrática que era importante para o regime. Também contribuiu muito para aquela saída lenta, gradual, que os militares queriam. Dali para frente foi sempre esse centrão, essa mesa de negociação da política brasileira, que sempre passa por ali. Eles não governam nunca, mas governam sempre. E a outra coisa também que tem de se pesar é o papel da mídia, do empresariado, da elite brasileira, que se nega a aceitar, por exemplo, um resultado eleitoral, e está sempre agindo, boicotando, quer ver a casa cair. Pouco importa se a economia vá pro brejo, contanto que o PT caia do poder, que o Lula não se reeleja. É uma briga difícil.

Culturíssima: Na faixa Publique-se a Versão, do seu disco mais recente, você faz essa alfinetada mais direta na mídia.

Nei: Ela passeia um pouco por todas as mídias, redes sociais também, ou o papel em geral das pessoas, lá pelas tantas ela fala de comportamento também. Mas, sobretudo, se ela tivesse que ter uma dedicatória, teria que ser para a revista Veja. Hoje se fabrica factoides, se publica aquilo que interessa mesmo aos donos do poder e fim de papo, não se tem mais escrúpulo nenhum. Sou a favor de uma regulação, evidentemente que não a censura à imprensa, como eles [os grande veículos de comunicação] gostam de dizer, argumentando que seria o um atentado à liberdade de imprensa. Muito pelo contrário, quer que a gente tenha a liberdade de ter a informação correta.

Culturíssima: Você sempre falou de Porto Alegre nas suas músicas. Como você acha que a cidade está hoje?

Nei: A cidade não é uma coisa fora desse contexto todo. É um momento difícil para todo mundo, na economia, então você olha e as pessoas estão um pouco mais tristes, mais fechadas, não se tem recurso para nada na área da cultura. Mas isto que estou dizendo é o óbvio. Não consigo mais falar da cidade, estou tão entranhado, envelhecendo dentro dela… Mas ela me parece meio descuidada. Já vi a Redenção melhor cuidada, já vi a cidade mais alegre.

Culturíssima: Você é natural de Caxias do Sul. Como se criou esse vínculo artístico com Porto Alegre, especialmente com o bairro Bom Fim?

Nei: Sou de Caxias mais vim muito novo pra cá, com seis anos de idade. Então de Caxias eu guardo imagens muito primárias. No fundo, eu sou um porto-alegrense. Logo de saída a gente veio morar no Caminho do Meio, mas aos 8 anos já estávamos morando no Bom Fim, em frente à Redenção, e ali passei a minha adolescência. Por muitos outros anos ou eu vivia, ou retornava para essa casa da família no bairro. Me tornei uma figura do Bom Fim, um frequentador daquele “auê” todo dos anos 80, e depois como músico, também com uma identificação com o bairro que muitas vezes me prendeu a ele, mas morei em outros bairros da cidade. Acho até que se desfez um pouco essa amarração Nei Lisboa e Bom Fim. Hoje eu circulo por aqui de dia, nos cafés, e o bairro também não é mais o mesmo.

Culturíssima: Que comparação você pode fazer da cena cultural que existia quando você iniciou a carreira com a cena de hoje, em Porto Alegre?

Nei: São épocas muito distintas. Hoje a gente vive um fenômeno demográfico. Porto Alegre era muito menor e tudo era muito mais precário. A cena era muito menor, em números. Em número de gente que fazia música, de gente que assistia, e assim por diante. A diversidade é uma coisa que hoje me impressiona, a quantidade de gente fazendo coisas distintas, e acho isso ótimo. Naquela época era um mutirão de todos que estavam querendo fazer alguma coisa, e se juntando para que aquilo acontecesse. Em termos de teatro, por exemplo, a coisa não mudou muito, continuam horríveis e pouco aparelhados. Na época era só um pouquinho pior, mas em termos de equipamento, tecnologia, know how, era tudo menor e mais precário. São cenas bem distintas e, filosoficamente, acho que as pessoas estão mais bem resolvidas hoje. Naquela época se discutia muito o que cantar, o que compor, o que fazer ou o que se deveria fazer, em termos ideológicos. Uma preocupação muito grande com uma distinção, ou uma recusa que o resto do país tinha com Porto Alegre. Havia todo um drama envolta, se taxou até de coitadismo da música gaúcha. Hoje em dia me parece que não é assim, é todo mundo mais livre artisticamente, mais resolvido em relação ao que quer fazer, escutar, misturar. Sem falar no universo das redes sociais. A internet aproximou muitas coisas, muitas linguagens, a circulação de informação é tremenda. Naquela época se esperava um ano para chegar um disco de fora, televisão era a Globo, aí quando se criou uma rádio alternativa, que era a Ipanema, aquilo foi um oasis. A rádio Continental, que era AM, também tinha cumprido esse papel nos anos 70. Posso estar enganado, mas parece que hoje é mais fácil para quem está começando, mais saudável também o ambiente. Essa diversidade é sempre saudável. Agora, essa coisa dos teatros me impressiona, como falta em Porto Alegre uma estrutura de palco. Que fossem bares, casas noturnas bem equipadas, para ter uma circulação de agenda para todo mundo. Qualquer lugar que tu vai tem isso melhor do que em Porto Alegre. Vai para Curitiba e tem um monte de teatro, com manutenção, funcionando a pleno. Aqui se tem meia dúzia de coisas e, ainda assim, os teatros municipais são uma vergonha, nada funciona, chove dentro, não tem ar-condicionado. O pessoal toca em bares na vontade, porque os lugares também não são muito preparados para o espetáculo. Há uma apropriação também. O que há de mais equipado e moderno, que é o teatro do Bourbon Country, está a serviço de uma agenda específica de uma única produtora, e que tomou conta do Araújo Viana. Porra, é um espaço municipal nobre, tinha que ter tido a competência de reformar ele e por a serviço público, manter o caráter que sempre teve, que nem era exclusivo de espetáculos, era uma arena de debates da cidade, de sindicatos e etc. Acho que o Araújo Viana foi privatizado de forma equivocada.

Culturíssima: O disco A Vida Inteira foi gravado com recursos de um financiamento coletivo na internet. Seu primeiro álbum, de 1983, também foi gravado de forma independente. Traçando esse paralelo, como você enxerga o mercado fonográfico hoje?

Nei: Gravar um disco hoje em dia não é das coisas mais fáceis, em contrapartida, circular com ele é bem mais fácil. A tecnologia tornou mais simples gravar um disco em casa, por mais que não seja recomendável, é possível. Mas o caminho que se tinha na época, dentro da indústria fonográfica, para gravar um disco, esse se fechou bastante. As vendas de disco caíram, as gravadoras quase faliram, então elas reduziram o casting ao mínimo indispensável e à qualidade mínima também. Só apostam naquilo que tem a garantia de uma grande vendagem e de qualidade discutível. Não que historicamente elas tenham se preocupado muito com cultura, mas por estarem sempre com o bolso cheio de dinheiro, apostavam em novidades, então se tinha um leque bem mais amplo nas gravadoras antigamente. Era um caminho possível, o que é mais raro hoje em dia, há pequenos selos fazendo esse papel, mas ter um disco bancado atualmente é mais complicado, em geral vai ter que tirar alguma coisa do bolso, ou optar por uma coisa caseira, ou uma parceria com um estúdio. Mas eu prefiro assim. Aquele era um caminho que passava por um cartel, de três ou quatro multis dominando o mercado, em conluio com as rádios, enfim, um jogo bem sujo. Hoje os caminhos são mais democráticos, o crowdfunding é uma das alternativas bem interessantes, e o pessoal está sendo criativo.

Culuríssima: Há cerca de 10 anos você já disponibiliza toda a sua discografia para ser ouvida em streaming, no seu site.

Nei: Por mim eu disponibilizaria toda ela em mp3, só que não são meus os direitos. O que é meu está disponibilizado. Desde de Translucidação, em 2006, eu liberei. Mas o que era de antes, pertence às gravadoras. Em compensação o streaming é permitido, então lancei de cara. Eu brinquei, nos anos 2005 ou 2006, por ali, de construir um player, que fiquei horas fuçando naquilo, que no final se tornou obsoleto, pois vieram os smartphones, os aplicativos, e esse só funcionava em desktop. Webvitrola Clique no Côco se chamava, era um playerzinho que baixava e tinha todos os discos, tinha vídeos. De lá pra cá, no site, nunca deixou de ter, Soundcloud também. Eu estava escrevendo uma crônica em 2004, e já dizia que a gente caminhava para pagar música como um serviço, que é o streaming. Daqui a pouco estamos pagando conta de música como pagamos conta de luz. Deezer, Spotfy, acho que essas coisa que vão ficar disso tudo. Tudo acaba convivendo, o vinil está voltando, mas o streaming será o mainstream das próximas décadas.

Culturíssima: Você lança trabalhos novos periodicamente, portanto produz sempre material novo. Te incomoda ter que tocar coisas muito antigas em shows?

Nei: Não necessariamente. Em show, às vezes, vou reciclando repertório e deixando na reserva coisas que estou cansado de cantar, e tem bastante coisa. Isso é bom. Em geral, toco com prazer, as pessoas querem ouvir e tal, mas de quando em quando preciso dar um “para-te quieto” na torcida, digamos assim [risos]. Tem que forçar um pouco, do A Vida Inteira pra cá tenho feito shows sem tocar nada das antigas. E já são bem antigas, muitas delas já têm 30 anos, então você tem que forçar um pouco a percepção das pessoas, no sentido de que muita coisa veio depois, e que é bacana. Isso tem funcionado. Esse show de agora [a gravação do ao vivo] tem um repertório recente, de 15 anos pra cá, mas também uma espécie de lado B desse período, já que eu deixei de for músicas conhecidas como Cena Beatnik e Pra Te Lembrar. Era um repertório teoricamente difícil, e foi bárbaro, funcionou muito. É importante que a gente não fique vivendo do passado.

Culturíssima: Você é um grande letrista. Costuma ceder muitas letrar para outros artistas?

Nei: O material que eu tenho pronto, quando me pedem para gravar, eu libero. Quando me pedem letra, em geral tenho que dizer não, porque está sempre me faltando. Escrevo muito lentamente, minha produção não é aos borbotões, não sai fácil. Então sempre tenho muita música sobrando, para colocar letra que nunca termino. Quase não tenho parcerias nesse tempo todo, nesse sentido de alguém mandar música e tal. Umas vezes eu tentei, mas não consegui. Desde muito tempo também, de um jeito ou de outro, não fiz mais parceria com ninguém. Me acostumei ao fato de que fazer sozinho gera menos probabilidade de constrangimento comigo mesmo, entre o compositor e o letrista. Fazer a quatro mãos é sempre difícil, tem que ter uma afinidade, que tive muito com o Augusto Licks nos anos 80, quando fizemos grandes coisas, mas depois não tive mais parceiros assim e me acostumei a ser parceiro de mim mesmo.

Culturíssima: Com a turnê de Vapor da Estação, há poucos anos, passou por diversas cidades do Brasil. Como é esse público fora do estado e que avaliação você faz do alcance que a sua careira tem ou poderia ter em território nacional?

Nei: É um público pequeno, de um modo geral, mas em alguns lugares surpreendente, em outros lugares não é tão pequeno assim. Claro, gostaria de ter tido um alcance maior, mas algum reconhecimento há. Alguns lugares são surpreendentemente receptivos e maravilhosos, tipo Belém do Pará, que tu não imagina ver um teatro cheio, com pessoas conhecendo o teu trabalho, e outros são repetidamente frustrantes, como São Paulo. É um lugar que eu gostaria de ter uma entrada, muito mais que o Rio de Janeiro. Sempre tive uma empatia maior com São Paulo, ia desde pequeno, tinha parentes lá, morei por algumas temporadinhas no começo do anos 90, gravei meus primeiros dois discos lá, enfim… Fiz muito show em São Paulo, e tu tem essa expectativa de que lá pudesse se fortalecer uma cena que nunca aconteceu. Existe, mas é para 200 pessoas, no melhor dos casos. Mas não joguei a toalha ainda, é um circuito que me interessa muito. Fora isso, sou um nome que, quem está envolvido com música há algum tempo, conhece, tem referências. Qualquer lugar tem um público e um retorno de mídia, o mínimo que seja, ainda mais com o advento da internet, que tornou mais fácil colocar o material para circular. Final do ano passado fui ao Rio Grande do Norte, segundo semestre agora volto a fazer show em Florianópolis e Curitiba. Então é um circuito pequeno, alternativo, mas que está ali. Vou fazer 56 anos, mas acho que ainda tem um potencial mercado a se abrir e ser explorado. Não tenho a mínima pretensão, nem o desejo, de participar de um marcado de grande mídia. Ali, realmente, não tenho mais idade, cabelo, nem paciência para estar.

Culturíssima: Ao longo da carreira você se relacionou muito com jazz, folk, blues, MPB e até mesmo reggae. Curiosamente, há pouca influência da música regional aqui do sul da América Latina. Por quê?

Nei: Acho que uma barreira é o tradicionalismo, é uma coisa que me afasta ideologicamente de muito do que é feito aqui em termos de música regional, que naturalmente se relaciona com a música latino americana. Outra coisa talvez seja que, em determinado momento da minha juventude, final dos anos 70, a música latina ficou identificada, ou erroneamente identificada com um ranço pasadista, por demais ideológica. Isso, no momento que comecei minha carreira, era uma questão muito viva. A ditadura estava terminando, e estava se abrindo espaço para respirar, e a tendência de boa parte da juventude era justamente buscar uma arte para o corpo, uma coisa que lhe fosse alegre. Enquanto que muito da música latino americana que aqui se ouvia e se reproduzia, tinha essa feição mais tristonha, mais cancioneira, politizada. Então foram dois pontos que naquele momento se opuseram, e pra mim foi difícil lidar com aquilo, porque eu vinha de uma tradição em casa de luta contra a ditadura, tenho um irmão que foi morto pelo regime, e outros familiares que se envolveram. Mas, ao mesmo tempo, meu coração estava mais para o lado da minha geração, de uma música que me trouxesse um contraponto orgânico àquilo, não discursivo, mas mostrar alegria, que não me abalava. Sou outro, e não um produto da ditadura. Então naqueles anos 80 eu me conectei mais com o pop e o rock, não com a música latina. Mais tarde, quando fui fazer um trabalho voltado para isso, me aproximei de uns amigos uruguaios, músicos de lá, e fui conhecendo o candombe, que é uma tradição negra do Uruguai. Uma música que durante muito tempo foi relegada ao ostracismo, não muito bem vista, e que naquele momento estava fluorescendo. Hoje já está totalmente incorporada, os músicos urbanos da classe média se voltaram para isso também. O candombe foi aceito, assimilado e tido como riqueza no Uruguai. Então fui ali fazer esse trabalho, que não tinha esse viés da música latino americana engajada. Sim, era também uma música politizada, um gesto político, não deixava de ser. Acho que a ditadura produziu até isso de ruim, na estética daqueles que reagiam a ela, um congelamento, uma dureza que não ajuda nem na própria luta que ela está pretendendo. É preciso que a gente saiba não só discursar, mas ser na vida, dar exemplo daquilo que se pretende mudar no mundo.

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Culturíssima: Como irmão de alguém que foi morto pelo regime militar, como você acha que o Brasil vem tratando dessas questões históricas no últimos anos?

Nei: Nos últimos anos mudou um pouquinho, mas muito pouco. O Brasil sempre teve muito medo de passar isso a limpo. Acho que as pessoas têm receio de se enxergar, se for cavar um pouco mais fundo, de ver como as pessoas colaboraram, a sociedade colaborou com a ditadura com um silêncio, no mínimo. Às vezes com uma colaboração ativa, como a própria mídia brasileira, que adora dizer que resistiu e tal, mas se for analisar, não foi bem isso. E como a gente permitiu uma coisa tão grotesca, os milicos tomarem o poder de assalto e saírem depois de 20 anos sem prestarem conta de nada. Saíram quando quiseram, como quiseram, do jeito que quiseram, esconderam tudo que queriam esconder, não prestaram conta, não contaram a história e não deixaram contar. Até hoje se tem pudores sobre o que o Estado Maior das Forças Armadas pode achar que tal coisa. O país tem uma relação muito complicada com essa história, nossos vizinhos aqui têm um pouco melhor, souberam passar a limpo e contar a história bem melhor do que nós.

Culturíssima: Que idade você tinha quando o Ico desapareceu e como era tua relação com ele?

Nei: Quando o Ico foi morto – na época não sabíamos que tinha sido morto -, eu tinha 13 anos, era final de 1972. A gente tinha uma relação muito legal. Éramos sete irmãos, ele o mais velho e eu o mais novo, com 11 anos de diferença, e aniversariávamos quase juntos: eu em 18 de janeiro e ele no dia 19. A militância dele era aberta, desde 67, 68, no movimento estudantil, quando o golpe já tinha acontecido mas ainda era muito diferente do que veio depois. Ali em casa isso tudo acontecia de forma aberta, ele me puxava pra coisa, mesmo com sete, oito anos de idade, me catequizava ideologicamente, me contava que os pobres do mundo eram assim “porque os imperialista e tal…” Chegou a me introduzir alguma literatura, uma vez mandou eu comprar o disco de um cara novo que estava surgindo e que era muito legal, que se se chamava Milton Nascimento, coisas assim. Mas depois de 68 o regime fecha e ele vira clandestino, aí a gente se encontrou poucas vezes. Duas vezes por ano, tipo assim, e por 20 minutos, meia hora. Uma coisa de eu nem ficar sabendo que ele estava aí, ficava sabendo de última hora. Lembro de uns dias que passei na praia com ele e com a Suzana [esposa de Ico] que já era um momento dramático, todo mundo da organização deles estava morrendo, a ALN [Aliança Libertadora Nacional] estava sendo dizimada. O Ico andava armado, sempre com um pacotinho de presente na mão, que na verdade era uma arma, falava espanhol para se passar por argentino. Então era hora que estava fácil prenunciar que a coisa podia caminhar para onde caminhou. Aí no final de 72 ele desaparece e fica sete anos desaparecido. Em 79, nas vésperas da votação da Anistia, foi que a Suzana encontrou o corpo dele, enterrado no cemitério de Perus, em São Paulo. Ele estava enterrado com o nome falso que ele usava na época, Nelson Bueno. E o processo registrado em uma delegacia era de suicídio em uma pensão. Até hoje a Suzana luta para que isso seja revertido. Todas as evidências são contrárias ao suicídio, mas levou 30 anos para um novo laudo pericial, feito a partir de fotos, comprovando que suicídio não poderia ser. Ele está com uma arma em cada mão, tem marcas de bala pelo quarto todo, a colcha enrolada na arma está toda arrumadinha, enfim, uma série de evidências que ela conseguiu em uma luta insana, de décadas. Nesse caminho ela se tornou um símbolo da luta de todos os familiares. Mas até hoje ainda não foi refeito o atestado de óbito, apesar do novo laudo. Ela ainda está penando com a burocracia, em promotorias daqui e dali. Com essa resistência que, vergonhosamente, em um governo de uma grande guerrilheira, de uma grande mulher que é a Dilma Rousseff, no governo Lula também, nessa questão não avança. Muitas vezes se posiciona contra: se tem uma decisão judicial que favoreça a busca pela verdade e tal, o Estado está ali para colocar uma pedra no caminho, não cumprindo o que a Corte Interamericana de Direitos Humanos já determinou. É impressionante como nesse país não se quer falar abertamente, definitivamente, sobre esse assunto.

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Um Comentário

  1. Eu tambem apoiei o PT desde sua criaçao e gostaria de saber porque o PT nao criou dentro do partido um forum de julgamento dos seus politicos eleitos que se tornassem corruptos ou corruptores?

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