Pegadas: Bebeto Alves, parte 2

Luiz Paulo Teló

Nas pegadas das botas de Bebeto Alves estão muito mais que apenas as ruas de Porto Alegre. Se no último sábado, 4, publicamos a primeira parte desta entrevista, em que o músico fala muito de sua recuperação e inspirações após o transplante de fígado, em 2013, aqui Bebeto fala um pouco mais de sua trajetória desde os meados do anos de 1970.

De Uruguaiana para Porto Alegre, depois para São Paulo, então para o Rio de Janeiro. Do Rio para os Estados Unidos. Depois Porto Alegre novamente. Aí para fazer mais que música. O milongueiro, além de ajudar a fundar uma cooperativa de músicos, também participou da administração pública dentro do Governo Federal, no Governo do Estado e nas prefeituras de Uruguaiana e São Leopoldo. “As minhas músicas sempre estiveram ligadas àquilo que vivi, nunca separei nada. Sou um autoral existencial”, define.

Retomando a conversa, Bebeto Alves fala sobre a construção cultural do Rio Grande do Sul e como o seu trabalho é recepcionado dentro do movimento tradicionalista.

Culturíssima: A tua música é reconhecida pelo movimento tradicionalista aqui do sul?

Bebeto: Não é.

Culturíssima: isso te incomoda?

Bebeto: Me incomoda se me trava. Já me travou. Já me incomodou muito, hoje não. Nada mais me trava. Nada me freia. Pode ser que não tenha longo alcance, mas eu falo o que quero, digo o que quero e canto o que quero.

Culturíssima: Por que o movimento não entende algumas vertentes mais progressistas dentro da música regional?

Bebeto: Há um corporativismo. Acho porque não é de verdade. Nada é de verdade. E quando surge alguma coisa que é de verdade, assusta e assombra. Tem artistas regionais, e não quero ser injusto, que são maravilhosos. Podemos falar do Noel Guarany, Cenair Maicá, o pessoal ali das Missões. Pessoas incríveis, que são autênticas. Tem muita gente boa, que se confunde com essa esteriotipização do gaúcho. Nós ainda sofremos esse tipo de coisa porque, na verdade, não temos a cultura rural. O entedimento do regional parte de uma outra situação, de uma outra visão, que é a urbana. E mais que urbana, uma visão cosmopolita disso. Até me incomoda muito isso de ‘Ah, a música urbana gaúcha’. Que história é essa, que música é essa? Existe sim é uma música contemporânea gaúcha.

Culturíssima: Aquele movimento dos anos 70 foi classificado assim, como música popular gaúcha (MPG), né?

Bebeto: Foi uma tentativa de entender, colocar um perfil, mas depois caiu num pejorativo. Se tornou uma sigla que não representava aquilo mais. Não por nada, mas pelo movimento que se viveu ali, com a história do rock Brasil, acho que isso de uma certa maneira agrediu, não no mau sentido, mas de uma maneira geral, a música popular. Então aqui no Rio Grande do Sul também. Há essa música que se fazia, dita MPG, que misturava a música popular e a música pop com elementos regionais, enfim…

Culturíssima:  Mas vocês não se enxergavam MPG, então?

Bebeto: Não, nunca me enxerguei assim. Acho que ninguém nunca se enxergou. Não acredito que nenhum artista se enxergava representante da MPG. Era apenas uma coisa que falavam a nosso respeito.

Sem título

Capa do primeiro disco, lançado em 1981

Culturíssima: Vocês aparecem nos anos 70 mas todo mundo vai gravar disco no início dos 80. Como se dá essa transição?

Bebeto: Foi uma transição natural, no aspecto da indústria. Nos anos 70 a industria fonográfica no Brasil ainda não era tão profissional, já nos anos 80 ela se torna um pouco mais profissional. E existe o interesse de algumas pessoas aqui com o sul. Quando surge aquele primeiro movimento, houve um interesse da mídia com o que estava acontecendo aqui no Rio Grande do Sul.

Culturíssima: Na gravação do teu primeiro disco, tu já estava morando no Rio de Janeiro. Como foi?

Bebeto: Morei em 1979 e 1980 em  São Paulo. Em 81 fui contratado pela Sony, antiga CBS, e fui morar no Rio de Janeiro para gravar o primeiro disco. Naquela época ainda não existia uma indústria aqui [no Rio Grande do Sul], eram ainda as grandes gravadores que davam as cartas da produção no país. A partir daí vários outros artistas gravaram em grandes gravadoras. O Nelson [Coelho de Castro] acho que gravou na Ariola. O Fernando Ribeiro, na época, gravou na EMI-Odeon. Mas teve sim um produtor que veio aqui, que viu e gostou, que chamava-se Carlos Alberto Sion, que trabalha na CBS e tinha lançado todos os nordestinos naquela época: Zé Ramalho, Elba Ramalho, Belchior, Fágner, todos eles! E de repente tinha um movimento musical aqui, que começou a chamar a atenção da mídia, a revista Veja vinha aqui e fazia umas matérias. Despertou o interesse e os caras das gravadoras começaram a olhar pra cá. Aí vieram, pegaram um, pegaram outro… E esse cara gostou do meu trabalho, viu o show, levou meu material e puxou um contrato dentro da CBS.

Culturíssima: Era todo mundo muito autoral, todos compositores.

Bebeto: Ano 70 era isso, era essa a escola, era essa a ideia, de ser autoral, de ser um cantautor.

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Culturíssima: Tem um momento, no meio dos anos 80, que a gravadora te propõe virar um cantor romântico. Como tu reagiu?

Bebeto: Isso foi com o André Midani [influente executivo da indústria fonográfica]. Eu estava contratado pela Warner. A gente tinha lançado Notícia Urgente, em 83, aí depois gravei um compacto que estourou no Brasil inteiro, chamava Quando Eu Chegar, que já era um proposta do André. Ele me disse que o disco tinha acontecido em vários países, que a Warner tinha lançado o disco em vários países, que tinham adorado. Então ele me propôs gravar uma música do León Gieco. Queria que eu fizesse uma versão. León é um artista argentino, do caralho, com uma verve poética e política importante, um cara fodidão, que não era nenhum bobo. Não conhecia o trabalho dele, adorei e fiz uma versão para lançar no final do ano. Ele tinha uma música chamada La navidad de Luis, que contava a história de um cara que era empregado e recebia da patroa, de natal, uma garrafa de vinho e um pedaço de pão. E ele não aceita, pois queria que todos os dias fosse isso. A versão chama-se Nosso Natal, com o mesmo perfil, com aquele caráter social. Só que o compacto saiu em janeiro! Pô, a gravadora estava muito bem programada! E como ele [André Midani] tinha dado o outro lado [do campacto] para gravar o que eu quisesse, gravei Quando Eu Chegar. Aí a música estourou, fez sucesso, falava dessa coisa de estar sempre viajando. Nisso eu estava com um projeto chamado Retaguarda, que era uma história com o poeta Retamozo. Esse projeto tirava um pouco de sarro da vanguarda paulista, que na época era o Arrigo Barnabé e aquela turma. Levei o projeto, que era legal pra caramba, para o André, mas ele não topou: “Pô, cara, não dá. Você é um cara bonito, vamos fazer um disco romântico”. André, na boa, velho, não dá! [Risos] Faz o seguinte, me libera, me despede aí pra eu ir embora. Aí ele disse assim: “Tu é vira-lata, hein cara”. Eu sou, sou um artista vira-lata. Então prontamente ele me liberou. Nisso um cara dentro da Warner, um diretor, que gostava muito de mim, saiu de lá e foi para a Som Livre. Eu estava com a Ivânia de Virgilis, que hoje é a esposa do Kledir (Ramil), e ela vende a ideia pra ele de gravar um disco na Som Livre, aí ele topa. Então eu gravei o dico Novo País, que não era mais a história da Retaguarda. Tinha um pouco daquilo, mas não era mais, era uma outra história. Resolvi fazer um disco pop, super dentro daquilo que estava acontecendo no país naquele momento.[Silêncio] E não aconteceu nada! Aí enchi o saco e fui embora, fui morar nos Estados Unidos. Sai daqui acho que no início de 86.

Culturíssima: Encheu o saco de que?

Bebeto: Desse negócio, do mainstream, do business, da música. Aí fui embora, queria ter uma experiência lá fora. Nunca tinha saída, já estava com 30 anos, com duas filhas, estava separado. Saí, fiquei uns meses. Foi legal, uma experiência bacana, vi coisas importantes. E lá eu compus todo o disco Pegadas. Então voltei e gravei, isso que me trouxe de volta ao Rio Grande do Sul. Fiquei por aqui, trabalhando e criando uma nova história, diferente daquilo que a gente vivia antes.

Culturíssima: Nos EUA, morou onde e com quem?

Bebeto: Morei em Cambridge, junto com um amigo meu que era do Utopia, Ricardo Frota, que tocava violino e estudava na Berklee. Fiz várias coisas lá. Mas o que mais fiz foi ser modelo nu, ficava peladão pra desenho e pintura. Era legal, conheci muita gente interessante, de frequentar o mundo universitário. Entregava jornal. Tinha um jornal de uma grega que a gente entregava, uma vez por mês. E também trabalhei com o cara que era dono do prédio onde a gente morava. Ele era carpinteiro, e comecei a pintar paredes com ele. Foi uma experiência de vida maravilhosa. Em casa eu criava canções, ia muito a shows, ouvia muita coisa. E nesse período os EUA invadiram a Líbia, fizeram guerra. Isso tudo está no Pegadas.  As minhas músicas sempre estiveram ligadas àquilo que vivi, nunca separei nada. Sou um autoral existencial.

Culturíssima: Na virada da década de 80 para a de 90, tu ajuda a funda a COOMPOR – Cooperativa Mista dos Músicos de Porto Alegre. Como foi isso?

Bebeto: A gente vem de uma história de uma articulação política. A gente passou pela ditadura militar ainda criança, vimos uma geração lutar contra a ditadura e nos cobrar coisas. Aprendemos muito com essa gente, de como se articular politicamente. Só que as questões dessa luta política tomaram um outro rumo, um outro foco. Com a abertura política na metade dos anos 80, nos ajudou a compreender o que significava a gestão da cultura no universo político. A cooperativa surge através da militância e do entendimento de que através da cultura a gente podia fazer uma transformação. Já existia um exemplo, que era o Coojornal, que era uma cooperativa de jornalistas, que nos ajudaram a fundar a nossa. Estávamos sempre solidários a eles, nas lutas políticas, nos eventos que o Coojornal montava. Ficamos uns quatro ou cinco anos com o projeto. É um momento que nos ajuda a formar uma ideia de gestão. A cooperativa de uma certa maneira, ajudou no entendimento da gestão pública na área da cultura. Naquele período acho que já existia a secretaria municipal de cultura, não recordo direito, mas com a nossa iniciativa conseguimos interagir com a gestão pública, que também estava engatinhando nessa questão.

Culturíssima: Depois, então, tu participa da gestão do Governador Olívio Dutra (1999-2003).

Bebeto: É, fiquei dois anos no Instituto de Música. A gente fez um trabalho maravilho, que foi o Roda Som, um projeto grande, amplo e agregador, que misturava programa de televisão, itinerância e programa de rádio. Tínhamos outros projetos. No Museu Julho de Castilhos tinha um projeto de música instrumental e num outro trazíamos músico do interior do estado para o memorial do Rio Grande do Sul.

Culturíssima: Na sequência, secretário da cultura em Uruguaiana.

Bebeto: Esse foi um desafio. Fiquei dois anos também. Conseguimos pensar a cultura através de uma situação de fronteira, com uma tentativa de aproximar a cidade vizinha. Nós fizemos um encontro internacional de cultura, onde a gente reunião Uruguaiana, Porto Alegre e três províncias argentinas. Foi maravilho o que se pensou e se projetou naqueles três dias. Era um trabalho que não se pôde dar continuidade, era de difícil entendimento. O próximo prefeito não era afeito a este tipo de coisa. Eu tinha incluído a cidade a um projeto de redes, na época, que tinha Barcelona, Porto Alegre, e outras, por ser uma cidade de fonteira, que poderia ser um corredor cultural importante. Se tentou várias coisas lá. Ali também é uma área muito dura, de uma cultura pecuária, de uma cultura rural, então foi também um trabalho de auto-estima, de fazer as pessoas entenderem que aquilo era de propriedade delas.

Culturíssima: Já teve vontade ou foi convidado a ingressar na política como candidato?

Bebeto: Não, não tenho vontade. A política, do jeito que está, não me emociona. Fico com muito dó. Gosto muito do trabalho de gestão, acho que é um trabalho de criação. Se não for um trabalho de criação, não é um trabalho de gestão. Porque tu tem que criar perspectivas, tem que inventar. Não é administrar, simplesmente.

Culturíssima: Como tu vê a gestão da cultura hoje, no estado, pegando os últimos anos de governo Tarso e agora os primeiros meses de Sartori?

Bebeto:  Uma merda. No governo Tarso foi uma merda, na boa. Acho que o Tarso nunca se deu conta disso, de quanto foi ruim a cultura, pelo menos na relação institucional da gestão com o que representava a cultura no Rio Grande do Sul. Eles calcaram em duas coisas. Primeiro a cultura digital e, segundo, uma cultura de editais e financiamentos. O resto era política, uma visão política da cultura. Isso não me interessa. E a questão da cultura digital, acho que ela faz parte de um conceito de cultura. Ela não pode conceituar tudo, abranger tudo. Eu entendi a coisa dessa maneira e não concordei nunca. Foi um problema que se teve na esfera federal. Eu estava na Funarte quando houve o embate com a Ana de Hollanda. Lincharam essa moça, foi a coisa mais escrota que já vi na minha vida. Foi o Juca Ferreira, que é o atual ministro, que orquestrou, junto com a cultura digital e queles malucos do Fora do Eixo, e não sei quem mais, todo um plano maquiavélico e cruel para a derrubada dela.

Culturíssima: E agora, no âmbito estadual, vê algum movimento de mudança?

Bebeto: Olha, tenho simpatia com as pessoas. Elas estão mais dispostas no sentido da relação e do trato. A administração da cultura por parte do PT era uma coisa fechada, segregadora. Ela não era agregadora. Acho que esse momento pode ser diferente. Ontem tive lá na Casa de Cultura Mário Quintana, conversando com a Cida Pimentel. Achei o maior barato, pois é uma figura ímpar! Ela não tem dinheiro, mas ela está lá, criando. Ela está fazendo escambo. Quer espaço para tocar aqui? Ok, mas preciso de uma furadeira e de um serrote. Isso é genial! São pessoas que estão com vontade de fazer, independente de ter dinheiro ou não ter dinheiro.

Leia também as entrevistas com:

Bebeto Alves, parte 1
Arthur de Faria
Lloyd Kaufman
Cida Pimentel

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