Pirisca Grecco: “Desde a garagem sonhamos ganhar o mundo de bombachas y guitarra elétrica”

Pirisca Grecco_Comparsa Elétrica_entrevista

Luiz Paulo Teló

No final de 2015, em uma campanha de crowdfunding, Pirisca Grecco arrecadou mais de 37 mil reais para custear a gravação do DVD Comparsa Elétrica – o Filme. O vídeo, que ainda não foi lançado, registra a apresentação de Pirisca e sua banda, a Comparsa Elétrica, ao vivo no Coreto da praça Saldanha Marinho, em Santa Maria.

Pirisca é um daqueles caras especiais dentro da música regional, que não impõe limites e nem fronteiras para compor e fazer sua arte. Ele em Uruguaiana e nós aqui, em Porto Alegre, trocamos uma série de e-mails para falar um pouco sobre sua trajetória e sobre o que pensa sobre música. “Cumprimos regras mas não seguimos fórmulas. Estamos aí pra movimentar o Movimento. Em busca do novo. E crendo no Ciclo Evolutivo da  Arte”, contou.

Com 20 anos de estrada, Pirisca Grecco tem seis discos lançados, vários prêmio e muitos festivais na garupa. Deu o que falar quando, em Porto Alegre, criou o projeto Clube da Esquila, recebendo convidados ilustres do cenário pop para fazer um som ao lado de sua Comparsa Elétrica. Buscando deixar o texto mais fiel à personalidade do artista, a entrevista a seguir mantém o estilo de escrita que o músico utilizou para responder os e-mails.

Culturíssima: Teu primeiro disco, O que sou e o que pareço, é de 2001. Que caminhos tu percorre, no que se refere a influências e experiências, até lançar esse trabalho?

Pirisca Grecco: Bueno, Hermano. Esse Disco é fruto das parcerias do Fim do Século onde miramos os Festivais Nativistas. Porém foi lançado com músicas que não lograram exito. Sim, música excluídas, que não passaram em triagens de festivais. Aqui tá nossa cara. Temas espontâneos. De parceiros de 30 anos de idade com tudo que escutamos atá aqui. Califórnias, Gal e Gil, Legião e Titãs, Um pouco de folklore argentino y muito da nossa vontade de fazer história. Meu saludo e gratidão a Tulio Urach, Carlos Omar Vilella Gomes e Cabo Déco.

O Pirisca de 2001 era muito diferente desse artista de agora? 

Apesar de hoje ter 20 kg a mais, me identifico cada vez mais com o disco de estreia. Na verdade tive que percorrer o caminho do Tradicional, que se encaixaria mais nos festivais para, enfim, fazer meu som. Até chegar ao encontro daquele trabalho da virada do século.

Quer dizer que desde quando tu iniciou tua carreira artística, já perseguia essa estética da Comparsa Elétrica? 

Sim. Desde os primeiros acordes sofremos influencias da Califórnia da Canção e do Rock’n Rio.  Da belíssima Musica Popular Brasileira e também do Folklore Argentino y Uruguaio. Desde a Garagem sonhamos ganhar o mundo de bombachas y guitarra elétrica. Hoje tenho a Banda que sonhei desde guri. E me  sinto realizado por nossa música ter nos levado a conhecer y tocar em 4 continentes.

Por que teve que optar pelo caminho do “tradicional”?

Pra ganhar espaço e respeito. Mostrar serviço. Cumprir a tabela pra hoje poder mostrar meu som.

Hoje os festivais ainda são uma possibilidade para quem está iniciando a carreira?

Deveriam ser mas, infelizmente a avaliação, o julgamento inibem a espontaneidade. Gurizada nova y talentosa acaba seguindo fórmulas e imitando artistas já estabelecidos. Isso engessa a arte. Quem perde é a Musica Gaúcha.

Quais os mais importantes atualmente?

Cara…o Festival mais importante é o que vai rolar no próximo fim de semana. Se tivermos a sorte de receber essa ajuda de custo em dinheiro e a premiação não ficar pra daqui nove meses, poderemos manter nossas contas em dia e estar de cabeça arejada pra compor uma milonga nova.

Acontece muito dos festivais não cumprirem o que prometem em relação à prêmios?

Não acontece muito, não. São casos raros e famosos. O que acontece muito é pagarem a ajuda de custo em cheque. E isso obriga o concorrente a desembolsar despesas desde a gasolina, até estadia e alimentação. O festival que paga a ajuda em dinheiro, aumenta a possibilidade dessa grana ficar no comercio local. Musico com uns pilas no bolso, compra lembrancinhas da cidade pra levar pra Família, visita bares e restaurantes, aproveita o turismo local.

Dentro dessa coisa de engessar a arte, por que o movimento tradicionalista parece sempre pouco receptivo com artistas que propõem uma estética musical mais arejada dentro dos nossos ritmos? 

Temos regras y regulamentos. E não estamos  tendo a inteligência de participar das atualizações. Poderíamos discutir mais. Estarmos unidos, mateando juntos. Acredito que a competição nos enfraquece. Essa história de um ser MELHOR que outro, desagrega. Nossa música é nova ainda. Tem quarenta y poucos anos de festivais mal completados. Preservar o Bugio é tão necessário quanto reconhecermos novas “levadas”. Tem muita gurizada criativa nesse Rio Grande fazendo um som de encher a alma e o coração. E, infelizmente, há quem defenda uma reserva de mercado, deixando de ser terra boa para essa seiva nova.

Como tu sente a aceitação do teu trabalho nesse circuito mais tradicionalista? 

Hoje, ótima.  Vejo a gurizada cantando nossas músicas, falando nossas gírias, cada vez mais pertinho de nós. Cortando uma carne y fazendo um som juntos. Isso nos dignifica o DOM. Nossa Comparsa tem as porteiras abertas do CTG ao Chinaredo. Isso é bonito. Cumprimos regras mas não seguimos fórmulas. Estamos aí pra movimentar o Movimento. Em busca do novo. E crendo no Ciclo Evolutivo da  Arte.

Pirisca Grecco_Comparsa Elétrica_Foto de Tiago Benedetti

(Foto: Tiago Benedetti)

Em que momento a Comparsa Elétrica realmente se concretiza na tua carreira?

Em 2009 com o lançamento do CD COMPARSA ELÉTRICA e a Participação do Flautista Texo Cabral. Também foi é o primeiro CD que gravamos com Bateria, até então só usávamos percussão nos Discos. Desde guri quis ter uma Banda e esse Disco nos trouxe uma sonoridade Universal. Tanto que o encarte é escrito em Português e Inglês.

Sobre o projeto Clube da Esquila, como nasceu e de onde vem o nome?

Nasceu na época em que o Nei Lisboa andava de briga com o Nativismo. Optamos por abraçar todas as vertentes da Música produzida no Rio Grande.  Desmistificando os rótulos de “Gaudério”, e “Gauchinho” como éramos conhecidos. Tentando estar perto dos nossos ídolos e referências como Humberto Gessinger, Tonho Crocco e Serginho Moah. O nome é uma Paródia dos Mineiros do “Clube da Esquina”. Fiz uma postagem de brincadeira no blógue (www.pirisca.wordpress.com), inventei uma Capa de CD e publiquei: Vem aí o novo CD da Comparsa Elétrica. E quando vi estava sendo cobrado pelo público. “Cadê o Clube da Esquila?”. Aí virou CD e consequentemente um show que durou 4 temporadas na Capital.

Tu acha que esse formato funcionaria em outras cidades pelo interior que não Porto Alegre?

Acho difícil. Ao passo que tudo aumenta, os cachês dos bares estão cada vez menores. Empresários  também estão assustados e retendo os pilas que outrora eram investidos na Cultura. Fica difícil deslocar uma Banda que mora na Capital e ainda trazer uma Estrela como convidado.

Tu já tocou em muitos lugares fora do RS. Que apresentações e experiências mais te marcaram?

Cada palco foi um mar diferente que naveguei. Tudo marca, pequenas e grandes coisas marcam pra sempre. Ter pisado 3 vezes no Festival de Folklore de Cosquim, em Cordoba, Argentina, foi forte. Buenos Aires, Montevidéu. Portugal, Espanha, Suíça e França foi incrível. Ter pisado duas vezes na China foi muito emocionante. Jamais imaginaria que nossa música nos levaria a um lugar tão distante. E finalmente tocar na Pedra do Arpoador no Rio foi emblemático por encerrar nossa GiraBrasil e ter a sensação de estar levando um povo inteiro junto. Tocar é uma benção!

Há novos valores surgindo? Que nomes têm te chamado mais atenção no estado?

Quem tem me chamado atenção ultimamente são alguns dos EntreAutores de Santa Maria. Principalmente a gurizada que acorda cedo para ser Músico. Quebrando um paradigma de que o músico pode se dar o luxo de dormir até o meio-dia, que o horário do “Gênio” é a madrugada. Esses são meus ídolos e exemplos de hoje.

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