Raphael Montes em um papo sobre histórias de crime

Raphael Montes_escritor

Carlos Garcia

O escritor Raphael Montes esteve em Porto Alegre, na última semana, para autografar seu mais recente livro, O vilarejo. Dentro da programação da 61ª Feria do Livro, também conduziu o Workshop Regras para escrever histórias de detetives.

Tendo que atender agenda corrida, o carioca conversou conosco durante seu almoço. Na oportunidade, falou sobre o livro recém lançado, o trabalho para a televisão e a admiração por Moacyr Scliar. Também deu sua opinião sobre o mercado editorial e sobre a abordagem literária nas escolas. Depois da participação na feira, viajou para Passo Fundo para participar de um evento literário no dia seguinte.

Além de O vilarejo, Raphael é autor de Suicidas e Dias perfeitos. Como roteirista, faz roteiros para televisão e cinema. Seus dois primeiros livros estão em processo de adaptação para o cinema. Foi finalista dos prêmio Benvirá de Literatura 2010, Machado de Assis 2012, da Biblioteca Nacional e do prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura 2013.


Culturíssima: O seu livro lançado recentemente, O Vilarejo, foi descrito pela Folha de São Paulo como “uma história para ser lida por uma voz soturna em torno de uma fogueira, em noite de lua cheia”. O que você pode nos falar sobre ele?

Raphael Montes: Eu achei muito legal essa frase, foi o que eu mais gostei da resenha. É muito louco. O nascimento desse livro foi uma coisa meio estranha. Eu sou uma pessoa muito metódica quando vou escrever, em geral programo o livro antes de fazer, enfim, tenho todo o plot, etc. Esse livro, o Vilarejo, foi escrito entre o Suicidas, que é o meu primeiro romance, e o Dias Perfeitos, que é o meu segundo romance. Entre um e outro, fiz esses contos e não pretendia nem publicar, nem fazer nada com isso, estava fazendo por esporte. Estava lendo muito terror na época, que é um gênero que eu não lia tanto. Lia muito mais policial e suspense, e quase nada de terror. Acho que eu estava tomado por esse gênero e pelo estilo e falei ah vou criar um vilarejo e vou reunir nesse vilarejo pessoas levadas ao limite nos pecados capitais e fui criando a história conforme escrevia. Fiz a primeira, a segunda e aí sim decidi que seriam sete pecados capitais, ou seja, quando escrevi a primeira história, eu nem sabia que seriam pecados capitais, eu só queria escrever uma história num vilarejo. Aí eu pensei, ah que tal se virar um quadrinho?. Aí chamei um amigo meu que é ilustrador, que é o Marcelo Damm, que é quem ilustra o livro. A gente ficou um ano pensando em fazer quadrinhos, não deu certo, aí decidimos, então, fazer um livro ilustrado e chegou ao que é hoje o livro.

Culturíssima: A ideia de fazer uma edição ilustrada partiu de ti?

Raphael Montes: Criar o produto final do jeito que ele está hoje, que é o livro ilustrado, cada história tem duas ilustrações e tal, foi algo criado ao longo do tempo, ao longo de três anos.

Culturíssima: E em algum momento foi pensado em direcionar para o publico infantil?

Raphael Montes: O que eu queria ao máximo era evitar que tivesse essa característica. Acho que, assim como Dias Perfeitos abriu o leque de livros de suspense para pessoas que não estão acostumadas a ler suspense policial, conheço muita gente que diz que odeia ler policial e gosta dos meus livros e começou a ler pelo Dias Perfeitos. Queria fazer um livro de terror que servisse de porta de entrada para quem nunca leu livro de terror e que ficasse claro que ele não é infantil ou juvenil, ainda que ele seja ilustrado. Ele é ilustrado, mas é um livro adulto como qualquer outro. Talvez ele seja um pouquinho mais juvenil que os meus outros livros, mas não é um livro juvenil.

Culturíssima: Embora seja de terror, ele tem elementos de uma trama policial também?

Raphael Montes: Tem. Eu sou um escritor policial, não tem jeito. O próprio final do livro que tem uma explicação e uma grande virada, onde tudo é meio que explicado, isso incomoda algumas pessoas que vem falar comigo poxa, não precisava explicar tanto. Isso é agatacristiano, não tem jeito. E eu gosto. Eu entendo quem não goste, mas eu gosto.

Culturíssima: Você escreveu na sua coluna, que “a abordagem das leituras escolares, principalmente clássicos, é a grande responsável pela formação de não leitores”. O que você indica, com que tipo de leitura as pessoas poderiam se tornar leitores?

Raphael Montes:  Isso é muito pessoal. Eu só acredito que não deve haver, da parte dos colégios, uma cobrança de leitura. Qualquer livro que a pessoa TENHA que ler para uma prova na semana que vem é ruim. Qualquer leitura que é cobrada, eu acho errado. O meu livro foi adotado em algumas escolas, o que me surpreendeu porque particularmente não escrevi pensando nisso, e não faço concessões para que meus livros sejam adotados em escolas. Eu escrevo porque tenho que escrever, que bom que adotam. O que eu peço aos professores quando adotam, pelo menos quando me consultam, ah você pode vir falar, eu digo posso, maaaas, que a cobrança seja algo, por exemplo, escrever um final alternativo, fazer uma continuação, que aí a pessoa é obrigada a ler o livro, não tem como fazer nada disso sem ler o livro, mas não é uma cobrança, a pessoa se sente criativa. Para alguns colégios eu até me dispus em fazer um juri. Eu li os finais, escolhi os melhores finais e o vencedor ganhava um prêmio, que era um livro autografado. Então eu acho que isso incentiva muito mais a leitura que forçar alguém a ler um livro, fazer uma prova e a pergunta que vai se feita é qual o nome do personagem, o que ele faz.

Culturíssima: A linguagem dos teus livros é bem leve. Quando escreve, você pensa em ser acessível a esse público também?

Raphael Montes: Não. eu costumo dizer que quando eu escrevo a única pessoa que eu quero agradar é eu mesmo. Não acho que eu seja uma pessoa tão louca a ponto de eu fazer uma coisa que eu goste e os outros não. Acho que eu não sou tão maluco. Até porque as coisas que eu gosto na vida são coisas populares. Eu gosto de livros da Agatha Christie, eu gosto de filmes do Tarantino e dos irmãos Coen. Então, se eu gosto dessas coisas que muita gente gosta, eu entendo que o que eu fizer, e eu gostando, as pessoas vão gostar. Me recuso a me preocupar com “a mulher não vai gostar”, “isso é um livro para jovens e não para adultos”, “esse é um livro para homens, não para mulheres”. É uma preocupação que eu não tenho.

Em termos de linguagem, eu tento fazer o livro mais simples possível, ou seja, que não fique cheio de jogadas literárias, aqueles livros chatos de se ler. Eu quero muito fazer um livro que seja gostoso de ler, que ele flua naturalmente em termos de linguagem.

Culturíssima: O seu primeiro livro, Suicidas, teve uma recepção muito boa. Como foi lidar com isso para escrever o segundo, Dias Perfeitos?

Raphael Montes:  Quando saiu o primeiro livro, o segundo eu já estava acabado. Eu demorei muito para publicar o primeiro.

Culturíssima: E o terceiro você já tinha escrito entre os dois.

Raphael Montes: Sim, então, agora que eu estou sofrendo isso. Mas eu lido bem com críticas. Acho que é impossível agradar todo mundo, mas eu faço para me agradar. Tem criticas que eu concordo, tem críticas que eu discordo. Me incomoda particularmente quando a crítica, é a critica do recalque, como eu chamo, que é aquela que vem escrito ah o livro é até bom, mas não para estarem falando tanto. A pessoa faz um comparativo. Mas, infelizmente, há coisas que são fatos, o cara leu e elogiou, não posso fazer nada, se você acha que eu não mereço, problema é seu. Mas as críticas que são para o livro, para a linguagem, no conto, na história, reclamam de algum elemento, aí eu gosto. Algumas são bem úteis, na verdade.

capa_O Vilarejo.pdf

Culturíssima: E você acompanha mais a crítica tradicional ou, por exemplo, a galera do Youtube também?

Raphael Montes: Eu acho super legal isso, cara. Booktubers, né, que eles chamam?, com blogs, você aproxima literatura de um público que não está acostumado a ler. Você torna literatura algo divertido. Eu acho que ela pode ser divertida, não acho que é algo negativo que ela seja divertida, eu só acho que é negativo quando ela é SÓ divertida. A literatura que é só divertida é ruim, é o puro entretenimento, mas divertir nunca foi um demérito. Livro bom não é um livro chato. Livro bom é aquele que traz coisas interessantes e além de tudo é divertido. A dificuldade é essa, fazer algo que tenha conteúdo e seja divertido.

Eu vejo que a crítica impressa, de jornais, de periódicos, funciona muito para dar prestígio, mas em termos de venda, de alcance, de público, sem dúvida a internet, os blogs, os booktubers funcionam muito melhor.

Culturíssima: Você já declarou que gosta do trabalho do Garcia-Roza. Na adaptação que a GNT fez para televisão do romance Uma janela em Copacabana, você foi um dos roteiristas, como foi lidar com a criação do roteiro, ajudar na recriação dos personagens, mexer na história?

Raphael Montes: Foi muito divertido. Chegou uma hora que tive que decidir na minha vida se eu ia continuar sendo escritor e advogado ou se eu largaria o Direito de vez e ver se iria ser só escritor. E escritor e roteirista me pareceu um caminho natural. Meus livros são muito visuais. Eu, quando faço literatura, gosto de pensar na linguagem. Mas me interessa também a linguagem do audiovisual, ou seja, o que você pode mostrar sem ser pelo diálogo, por exemplo, você pode sugerir na cena pelo personagem, pelo figurino, pelo gesto, pelo olhar e tal. Me interessa isso. Então foi um caminho natural migrar para o audiovisual também. E um dos primeiros convites que veio foi esse de trabalhar na adaptação de Uma janela em Copacabana, do Luiz Alfredo Garcia-Roza, que é um autor que eu sempre gostei. Foi interessante, porque éramos quatro na equipe, dos quais três são roteiristas de formação. E eu era o único que não tinha a menor experiência com roteiro, mas era o que tinha a experiência literária. E já que era a adaptação de uma obra literária, a troca foi muito interessante. Aprendi com eles a fazer roteiro e acho que ajudei muito no projeto na medida que eu trouxe o elemento literário. Algumas soluções que eles tinham para o personagem, eu dizia não, isso não dá, porque eu já tinha lido todos os livros, então eu conhecia o personagem. O Espinosa é um amigo meu, não é um personagem. Então foi legal na colaboração.

Culturíssima: Quando você escreve, já pensa, não como num roteiro, mas na imagem?

Raphael Montes: Sim. Mas eu não penso exatamente na adaptação para o cinema. Tanto que o Suicidas e o Dias Perfeitos, que são livros que estão em processo de adaptação, são livros que estão apresentado dificuldades para adaptar. Eles tem algo de literário. Todos eles não são livros à toa, não são filmes que eu escrevi um livro em vez de fazer um filme. São livros porque são livros, porque deveriam ser livros.

Culturíssima: Você tem acompanhado de perto a adaptação dos teus livros?

Raphael Montes: Eu leio o roteiro, comento…

Culturíssima: Mas não chega a meter diretamente a mão no roteiro…

Raphael Montes: Não. Posso até dar uma sugestão ou outra, mas acho muito importante que a palavra final não seja a minha. O máximo que pode acontecer é ser um filme que eu vou gostar ou não, mas ele tem que existir por si só. Não é um trabalho meu. É baseado numa obra minha, mas não é meu mais. O filme não vai ser um filme meu.

Culturíssima: Você é formato em Direito. Chegou a exercer?

Raphael Montes: Sim, por três meses.

Culturíssima: E teve alguma influência na sua carreira literária? Você consegue tirar algum conhecimento do Direito para escrever?

Raphael Montes: O Direito foi útil em vários sentidos para mim. Primeiro porque odiava estar na faculdade de Direito e fazia estágio, o estágio eu até gostava, fiz três anos de estágio num escritório, estudava de manhã, trabalhava à tarde, até à noite, então eu chegava em casa esgotado, com uma raiva imensa do Direito de modo que eu escrevia. Então o Direito sugou tanto minha alma que eu precisava escrever. Era uma necessidade humana de escrever toda madrugada. Então, os livros saíram.

Em termos de experiência, o que o Direito me deu?, acho que me deu uma noção de realidade, que é importante para um escritor de policial, ou seja, eu entendo o procedimento de processo penal, processo investigativo da polícia, como funciona a aprovação de projeto de lei. E também me ajudou a ter um método. Eu sou uma pessoa muito metódica quando escrevo.

Culturíssima: Escreve desde quando?

Raphael Montes: Desde os treze, quatorze. Eu costumo brincar que eu tenho onze anos de carreira. Mas [trabalho] publicado só há três anos.

Culturíssima: É muito difícil para o escritor novo publicar seu primeiro livro?

Raphael Montes: Eu acho que cada vez está mais fácil. Mas ainda assim é difícil, é óbvio. Mas algumas coisas tenho a dizer sobre isso, eu fui recentemente publicado. O que percebo dos jovens escritores é uma pressa danada para serem publicados.  E eu costumo dizer, nas oficinas, nos cursos, que primeiro livro a gente só tem um. E existem alguns prêmios e atenções que a imprensa dá para o primeiro livro de alguém. Então, quando você publicar o seu primeiro livro, é bom que seja um livro de qualidade. A pressa para publicar, faz, às vezes, a pessoa pagar para publicar, e fazer de qualquer jeito. Ela gasta um trunfo dela, que é chegar no mercado com um primeiro livro de qualidade. Se você mandou para todas a editoras e nenhuma quis, mandou para os seus amigos e eles falam é tá legal, é porque provavelmente seu livro é ruim, você não tem que publicar, tem que escrever outro. O que eu vejo é que cada vez está mais fácil de publicar, o que é ótimo, mas se publica mais atrocidades e coisas horríveis, mal escritas, mal revisadas, mal editadas. Mas o mercado está sorrindo para os autores nacionais, principalmente os de gênero, que é uma coisa que não havia antes, policial, terror, fantasia, etc, e isso é ótimo. Muita gente boa está aparecendo.

Culturíssima: Como é transformar Copacabana num ambiente noir?

Raphael Montes: Tem um trecho do Suicidas que adoro, que eu falo algo parecido com isso: Copacabana é um mundo reunido num bairro. Tem tudo. Tem família, puta, velho, mendigo, cafetão, trapezista, é uma mistureba, escritor, artista, novo rico, rico que ficou pobre, tem tudo. Diz-se que se todo mundo que mora em Copacabana descesse para as ruas, não caberia nas ruas. Eu moro em Copacabana há muitos anos, desde pequeno e é muito engraçado porque quando Luiz Alfredo Garcia-Roza, eu estava começando a escrever o primeiro livro, e brinquei é uma bosta porque ele roubou minha área. A ação dos livros dele acontecem justamente onde eu moro, é na minha quadra. Eu moro do lado da delegacia dele (Espinosa), ele come na Tratoria onde eu como toda semana…

Culturíssima: Tinha mesmo aquela relação de amizade com o personagem, como você disse…

Raphael Montes: Sim. E eu falei você roubou a minha área. É natural que eu escrevesse uma história passada aqui porque é aqui que eu moro. Imagina, o maior escritor policial do país escreve livros que se passam ali, aí eu vou escrever ali também, não faz o menor sentido. Copacabana é grandinha, dá para pegar outro lugar.

Culturíssima: Já conhecia Porto Alegre?

Raphael Montes: Eu vim no ano passado [na feira], fiquei uma noite só e hoje não vou poder ficar nenhuma noite, de modo que da próxima vez que eu vier, espero que a feira continue me convidando, eu pretendo passar o final de semana, porque não é possível que eu não conheça Porto Alegre.

Culturíssima: Tem algum autor gaúcho que você conheça, que você goste?

Raphael Montes: Não conheci o Moacyr, infelizmente, falam que era uma pessoa incrível. Eu cresci lendo Moacyr Scliar, adoro Moacyr Scliar. O livro Um país chamado infância, ele me marcou muito quando eu li. É um dos poucos livros que eu guardo da infância, ele e Pedro Bandeira.

E atual, tem minha queridona amiga Luísa Geisler. Eu e Luísa trocamos livros, eu quando escrevo mostro para ela, ela quando escreve mostra para mim. Eu e ela, particularmente, nos damos muito bem. E é muito engraçado porque nós escrevemos coisas absolutamente distintas. Não temos nada a ver um com o outro em termos de literatura. Ela lê meus livros e diz Raphael tem muita reviravolta, muita coisa acontece, e eu leio os dela e falo Luísa, nada acontece. E é bom porque eu tenho uma atenção mais com a linguagem, que é o que ela faz, ela me aponta isso. E eu aponto sugestões de trama, isso você esconde para liberar ali.

Culturíssima: Mais alguma coisa?

Raphael Montes: Eu sempre faço o convite para quem se interessar, estou nas redes sociais. Tem a página Raphael Montes no Facebook e tem a minha página pessoal, que é o Raphael Montes III, o I e II estão cheios. Tem Twitter. Lá eu mantenho todas as minhas novidades. Agora eu me meti a escrever meu primeiro longa-metragem sozinho, sem que ninguém me pedisse. Eu fiz dois longas, mas eram encomendados, me passaram a história e eu fiz. Fiz a série do Espinosa, adaptação para contos, uma série na Globo, tudo em um ano. Por isso o próximo livro está parado e demorando, porque eu estou fazendo audiovisual.

 

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