Resenha | Stranger Things – 2° Temporada

Luiz Paulo Teló

Poucas coisas na cultura pop dos últimos anos alcançaram o status de um fenômeno de culto como a série Stranger Things. Produção original da Netflix, a primeira temporada, lançada em 2016, foi um repentino e inesperado sucesso de público, e rapidamente recheou a grande enciclopédia da cultura pop com novas expressões, memes de internet e imagens icônicas como, por exemplo, a da personagem Eleven (Millie Bobby Brown) de peruca loira e vestido rosa, em clara referência ao filme E.T., de Steven Spielberg.

Aliás, a série é uma injeção de nostalgia direto na veia. Os criadores, roteiristas e diretores, Matt e Ross Duffer, e o produtor-executivo e diretor Shawn Levy, não economizam nas referências e, muito por isso, Stranger Things conquistou uma legião de fãs que achou na produção uma maneira de acessar da melhor forma a sua memória afetiva. Assistir a série é mergulhar nos anos 80 e, de tabela, assistir Goonies, Conta Comigo, A Hora do Pesadelo etc.

Por esse número impressionante de fãs que a produção conquistou, pela fórmula muito baseada em fan services e easter eggs e pelos personagens serem visivelmente mais relevantes que a mitologia em torno da trama, gravar uma segunda temporada seria arriscado. A chance de errar a mão era muito alta, não fazendo a mitologia avançar e apenas apostando que a química e o carisma do elenco jovem sustentaria uma nova temporada. Felizmente, isso não acontece.

Em termos de fórmula, ela não muda. A série segue recheada de referências, e agora enveredando mais para o lado do horror. Mas a dinâmica entre os personagens e o andamento da narrativa mudam um pouco. O fato é que a segunda temporada de Stranger Things acerta. Ela aposta em acontecimentos maiores, avança a sua mitologia e usa de outros artifícios para compensar a falta do suspense da primeira temporada sobre o desaparecimento do Will, sobre quem era aquela garotinha misteriosa e o que se fazia naquele prédio do governo.

Os três primeiros episódios servem para nos situar de como as coisas estão na pequena cidade de Hawkins depois de um ano. Isso é muito bem resolvido. É aqui que fica estabelecido que Will Bayers (Noah Schnapp) é o centro da trama. A série faz bem em focar em seu arco dramático, já que na primeira temporada ele passa boa parte do tempo preso no mundo invertido e, apesar de ser um gatilho que dispara toda a aventura, basicamente ele não participa da resolução dos mistérios como os outros meninos.

O jovem Noah Schnapp entrega uma interpretação impressionante. No terceiro ato desta segunda temporada de Stranger Things, a inspiração em O Exorcista dá um peso dramático à trama, e a família de Will está no centro, com uma Winona Ryder, mãe do personagem no seriado, em um trabalho realmente notável.

A Netflix promete, pelo menos, outras três temporadas para Stranger Things. Por isso é importante que a mitologia avance como avançou agora, ainda que em passos curtos – o que também é importante, porque possibilita, assim como na temporada de estreia, que tudo de mais importante se resolva de forma satisfatória. Dentro disso, é importante a adição dos novos personagens: a ruivinha de personalidade marcante Maxine, o seu meio-irmão e novo antagonista do elenco principal Billy Hargrove, o ‘cara-bacanão’ Bob Newby (vivido por Sean Astin) e o jornalista investigador Murray Bauman. Nesse sentido, há outras pontas interessantes que ficam para as próximas temporadas.

Grande protagonista da primeira temporada, Eleven, vivida pela incrível Millie Bobby Brown, vive aqui uma jornada de descoberta. Ela quer saber quem ela é, de onde veio, quem é sua mãe. E vai atrás disso. Na temporada, há um episódio praticamente descolado dos restantes, em que a personagem sai do cenário comum de Hawkins e parte em sua jornada. Esse episódio é importante para o que virá nas próximas temporadas e também fundamental para o desfecho da trama estabelecida aqui.

De certo modo, dá para dizer que Stranger Things, em seu segundo ano, é mais do mesmo? Só em termos de fórmula, de fazer uso da nostalgia e de referências. A produção conseguiu avançar sem ficar presa a uma zona de conforto. E o que deixa isso mais claro é a dinâmica entre Will, Mike, Dunstin e Lucas, que não estão sempre juntos, a entrada de Max para o grupo e como Eleven se mantém distante a maior parte do tempo. Stranger Things não é só um fenômeno pop, é uma série divertida e competente de aventura, suspense e ficção científica.

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  • 28 DE MARÇO NOS CINEMAS