Tomamos um café da manhã com Arthur de Faria

Luiz Paulo Teló

Foto: Vinícius de Macedo Berghahn

“As pessoas passaram a ter uma relação mais bunda mole com a música”, afirma. Foto: Vinícius de Macedo Berghahn

Às 8h04 daquela manhã de quarta-feira, Arthur de Faria já tomava seu suco natural e esperava, na Lancheria do Parque, não só a reportagem da Culturíssima, mas também um omelete – que chegou junto com a gente. Há dois dias, havíamos marcado no mesmo lugar e horário. “Puta merda, esqueci completamente”, explicou-se, depois de não aparecer para a entrevista. Como não somos do tipo que se chateia fácil, sem nenhum tipo de ressentimento, logo tratamos de marcar para a mesma semana, na mesma Osvaldo Aranha 1086, de novo às 8 da matina!

Aos 46 anos, o músico que passou infância e juventude em Gravataí, é natural de Porto Alegre, onde mora atualmente, e cidadão do mundo, não para de acumular atividades. Pelo visto, nem pretende. Durante o café da manhã que tivemos na simbólica lancheria do bairro Bom Fim, Arthur falou sobre a vontade de lançar três discos esse ano, contou como foram seus primeiros trabalhos e como pretende que sejam os próximos.

Também jornalista, formado em 1988, radialista da Mix FM Porto Alegre, Arthur conversou conosco durante uma hora e meia. Abaixo, você confere a primeira parte do bate-papo. Segunda-feira, 23, publicaremos a segunda parte, em que o artista fala das suas publicações sobre a história da música no Rio Grande do Sul e faz críticas ao movimento regionalista.

Luiz Paulo: Já trabalhou em muitos lugares como jornalista?

Arthur de Faria: Poucos, na verdade. Trabalhei na Zero Hora, trabalhei na sucursal da Veja e na Felusp/Pop Rock/Mix.

LP: O curioso é que tu não se considera um cara do rádio, né?

AF: Não. E até hoje tem coisas que eu não aprendi a fazer. Não tenho disciplina de locutor, não sei operar uma mesa. E mesmo aquele locutor animado, padrão FM, eu não sei fazer. Nunca precisei né… e agora quando mudou de Pop Rock pra rádio Mix, teve um trabalho grande com a fono da Mix, todos os locutores foram pra São Paulo fazer treinamento com ela. Ela ficava monitorando diariamente, depois uma vez por semana. Porque tem um padrão de locução nas, sei lá, quarenta ou cinquenta emissoras.

LP: Tu fez?

AF: Como não sou locutor não precisei ir. Rádio é um negócio que eu gosto de fazer e tal, mas nunca foi o que  quis pra minha vida. Nem o jornalismo em si. Sempre foi a coisa da música. O meu foco de interesse principal sempre foi ser músico.

LP: E no jornalismo, sempre fez voltado pra área cultural ou chegou a fazer geral?

AF:  Não, fiz geral. E foi bem legal. Meu primeiro emprego foi no ZH Zona Norte, que era um jornal de bairro da Zero Hora. E ali a gente fazia de tudo: buraco de rua, fazia tudo! Cobertura de assuntos paranormais…

LP:  É, tu fez a cobertura de um assunto paranormal muito famoso aqui de Porto Alegre.

AF: Sim, daquela mulher que tacava fogo nas coisas, na Vila Santa Rosa. Eu vi acontecer as coisas todas: colchão voar, gaveta abrir, pano pegar fogo, cachorro ganindo. Tudo isso eu vi. Foi bem maluco.

LP: Acreditando ou não acreditando?

AF: Ah, não tem o que acreditar ou não acreditar. As coisas estavam acontecendo. O que é isso? Sei lá. Eu sou muito cético, na verdade, e fui ficando mais, com os anos. Mas isso, sei lá, é paranormalidade, telepatia, mexer coisas… isso existe, né. Não precisa ter necessariamente relação com espírito, com possessão, com nada.

LP: Tem uma outra cobertura que tu já comentou bastante no rádio que foi em um show da Xuxa. Tu te emocionou?

AF: Sim, quando eu trabalhava na Zero Hora. Tu vê aquele Gigantinho lotado com 15 mil crianças, histéricas. Tu te emociona junto com as crianças. Mas, eu odeio a Xuxa [risos]. É que eu acho que prestou um desserviço muito grande. E dos 10 discos mais vendidos da história da música brasileira, três são dela. E o mais vendido de todos, é um disco do Padre Marcelo.

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“É que eu acho que o centro de tudo é ser compositor, foi o primeiro trabalho profissional que eu fiz, uma trilha pra teatro com 16 anos”, conta. Foto: Vinícius de Macedo Berghahn

LP: Tu ainda compra disco?

AF: Compro. E baixo pouco, porque também eu ganho muito disco. Quem é músico acaba funcionando muito no escambo. A gente dá muito disco e ganha muito disco. Virou como um cartão de visita. Mas eu compro também. Agora há pouco eu estava em São Paulo, em temporada com uma peça de lá, que eu faço a trilha, e é no SESC, e o selo deles é muito legal. Comprei uns quatro ou cinco discos. Anteontem, na Livraria Cultura, fiquei na dúvida em comprar um disco importado que estava caro, e no fim acabei não comprando. Agora, a grande questão: tenho três discos pra lançar esse ano, e não sei em que formato lançar. Tem o novo do Arthur de faria e Seu Conjunto, que vai chamar Música pra Bater de Frente, tem um disco com o Omar Giammarco, cantor e compositor argentino. A gente tem um projeto chamado Música Menor, e que era pra ter terminado ano passado, mas depende muito de ir pra lá e ele vir pra cá, mas a gente termina esse ano – esse é pela Loop Dsicos. E tem um disco de trilhas minhas que eu quero há muito tempo fazer, com trilhas pra teatro e cinema, e que esse ano vai sair de qualquer forma, mas não sabemos como. Tá, disponibilizar e botar pra vender no itunes, isso tem, meus discos todos. Mas ainda acho que era de ter um formato físico. É, e também é uma bobagem, sei lá, talvez seja apego da gente. Acho que, como a gente, ainda tem gente apegada, principalmente da minha geração, do pessoal com mais de 40.

LP: E o projeto Surdomundo Imposible Orchestra?

AF: Esse é um projeto curioso, porque não acaba nunca. Quando a gente acha que nunca mais vai ser chamado, pinta um convite. Em 2013, nos chamaram pra virada cultural de São Paulo, foi do caralho, e agora de novo, mas pra um projeto lá em Bueno Aires, em que também vou fazer o Música Menor com o Omar. E é sempre a mesma maluquice: chega uns quatro dias antes, pra ensaiar. Porque a gente nunca se vê, são quatro cidades diferentes, tem dois de São Paulo, um de Porto Alegre, dois de Buenos Aires e dois de Montevidéu. Aí a gente se encontra, ensaia, ensaia, ensaia, dá muita risada, mata a saudade, porque todo mundo se gosta muito, e faz o show. Aí sabe-se lá quando é que se encontra de novo. Mas é sempre uma experiência muito rica, pra um gaúcho principalmente, conviver com portenhos e paulistas, é muito antropológico nesse sentido de ver como que funciona cada cidade. São Paulo e Buenos Aires são as duas grandes cidades do hemisfério sul, de importância cultural e tal. E Porto Alegre e Montevidéu são cidades pequenas e do mesmo tamanho. A gente fica os pequeninhos entre os gigantes.

LP: E o que chama atenção no teu trabalho é que são todos autorais e independentes. Cada um tem suas composições.

AF: Sim. E tem mais o Duo Deno, que também tem as suas composições. E tem mais as trilhas. É que eu acho que o centro de tudo é ser compositor, foi o primeiro trabalho profissional que eu fiz, uma trilha pra teatro com 16 anos. Efetivamente, nos últimos anos, é o que dá dinheiro fazer trilha pra teatro e pra cinema. E se um dia eu tenho esperança de viver disso, fazer só isso, é fazendo trilha. É um negócio que eu gosto muito. Gosto muito de fazer trilha por encomenda. Porque te leva a fazer coisas que tu não faria de outro jeito. Ah, sei lá, uma milonga bem tradicional é um negócio que não faria se não fosse encomendado pra uma peça. Ou uma coisa mais orquestral, aí tu não tem grana pra montar uma orquestra se tu for fazer.

LP: Consegue parar todos os dias e trabalhar em uma música?

AF:  Em alguns períodos sim, em outros não, por mais que eu gostasse. Mas eu sempre tive muito mais disciplina de compositor do que instrumentista. Durante grandes períodos da minha vida, escrevi musica todos os dias, mas nunca sentei pra estudar instrumento todos os dias, nunca consegui fazer. Sou muito mais compositor do que instrumentista. A gente acaba se virando com as idiossincrasias da gente, vai achando um jeito de se virar. Tem um grande pianista amigo meu, que é o Benjamin Taubkin, paulista, um grande pianista mesmo, ele tem uma gravadora, a Núcleo Contemporâneo. Aí o primeiro disco do Seu Conjunto, Música pra Gente Grande, lançado em 1996, no ano 2000 relançamos pela Núcleo Contemporâneo, e eu tava ouvindo o disco com ele, fazendo uma audição, e numa determinada música, com bastante piano, eu comento “até que engano um bocado de gente tocando piano” e ele me olhou e disse: “A mim você não engana”. [risos]

LP: Com que instrumento tu prefere compor?

AF: No piano. No violão é pouquíssima coisa, mais é no piano e muito direto na partitura, no computador. Arranjo, raramente eu vou para o piano. A Cida Moreira me pediu um arranjo para Construção, o que é um peito né! Só eu, sendo filho único, e sagitariano, teria a cara de pau de topar, porque o arranjo original do Chico [Buarque] é maravilhoso. É um arranjo do Rogério Duprat, maestro da Tropicália e tal,  e tinha que entregar isso e eu estava nessa temporada lá em SP, e não peguei o instrumento nunca, foi todo no computador, feito em programa de edição de partitura. E tocando e gravando, foi bem legal. Te leva para outros caminhos, assim. A minha relação sempre foi muito com o papel,  tanto como jornalista quanto compositor. Por exemplo, essa companhia que eu trabalho lá em SP, a Ultralíricos, o diretor é o Felipe Hirsch, que é sempre muito rápido, eu acha que era rápido até conhecer o Felipe. Então assim, a gente monta às vezes um espetáculo em quatro ou cinco dias, com ensaios de 12 ou 18 horas. Aí ele faz assim: “Tá, agora intervalo de 40 minutos pra tomar um café e tu, Arthur, faz uma música”. Nesse processo, sempre sentado na frente de um piano, eu vou fazendo uns trechinhos e vou escrevendo na partitura. Se não, chega no outro dia e tu pensa “putz, como é mesmo aquilo que eu fiz?”. Acho que facilita muito a vida, e desde muito garoto eu aprendi a ler e escrever música, foi com 13 anos.

LP: O que te levou a ser músico?

AF: O Arrigo Barnabé, com o disco Clara Crocodilo, que é de 1980, mas eu devo ter ouvido em 82. E é maluco isso, porque agora eu estou com 46 anos, e quando eu fiz 40 e pensei “agora eu tenho que ouvir algumas coisas que na adolescência eu não ouvi”. Comecei por duas coisas bem diferentes: o Beethoven, que mais uma vez não rolou, não adianta, o problema sou eu! E o Led Zeppelin, que pirei o cabeção. Nunca tinha ouvido um disco inteiro do Led, conhecia só os hits. Aí faz dois anos que fui ouvir o tal do Depeche Mode, e descobrir que é muito mais legal do que eu achava que era, muito mais legal que aquelas musiquinhas que tocavam no rádio. Esse tipo de coisa tem que ir atrás né, mas o tipo de música que eu ouvia era muito sofisticado, não quer dizer que seja melhor ou pior, mas era muito sofisticado. Com 13, 14 anos de idade ouvia muito aquela turma do Arrigo, Itamar Assunpção, o grupo Rumo, muita música erudita, porque estudava na Escola de Música da OSPA, e tinha ouvido muito na infância e seguia ouvindo o Clube da Esquina, Tom Jobim, Piazzolla, Egberto Gismonti. Então não tinha, pois eu era criado nisso, eu ouvi isso e estudava música, não tinha como ouvir os Titãs e gostar, ou RPM. Não fazia sentido pra mim aquilo. Ou TNT, ou Cascavelletes. E hoje, ouvindo respectivamente, continuo achando RPM uma bosta, mas gosto muito dos discos dos Titãs, por exemplo. Fui ouvir os Paralamas e toda a discografia deles faz muito pouco tempo, então tem uma defasagem maluca assim. Na adolescência, época em que quando tu não ouve as mesmas coisas que tua mãe e teu pai ouvem, fui ouvir o que meu avô ouvia. Ao invés de ir pra frente, fui pra trás. Ouvi muita música brasileira dos anos 30 e 40, principalmente, e me apaixonei muito por isso. Em 87, 88, era o auge do rock, eu tava na FAMECOS, e nessa época eu estava só ouvindo música brasileira dos anos 30 e 40 gravadas dos discos do meu avô em fita cassete. O pessoal pirado no rock e eu ouvindo aquelas coisas e pensando “meu deus, como isso é ruim”. Foi nessa época que os Ramones começaram a chegar, 10 anos depois de estourar lá fora, e o Carlos Gerbase era meu professor, e ele tinha Os Replicantes, que eu achava divertido. E hoje gosto muito do Ramones, mas na época… Bom, Beatles eu só conhecia os “iê iê iê”. Só fui ouvir o Sargent Peppers em 88, quando o disco fez 20 anos. Eu também tinha 20 anos. Aí que eu entendi o que as pessoas achavam tão legal nos Beatles. Depois eu vi uma entrevista com o Caetano, há uns anos, que era essa a sensação dele quando ouvia, achava muito ruim. Ele acostumado com Tom Jobim, Dorival Caymmi e tal. Só foi entender os Beatles quando o Gil trouxe o Sargent Peppers. Mas antes disso, pra ele era “iê iê iê” retardado também.

Arthur comenta a qualidade das gravações nos anos 80:

LP: Logo surgiu o Bando Barato Pra Cachorro?

AF: Isso de ouvir música antiga resultou diretamente nesse show, que foi o primeiro grupo profissional que eu tive, que estreou em 90. O Bando Barato Pra Cachorro apresentava um show chamado Café Nice, que se passava na década de 40, era bastante teatral, todo mundo com roupa de época, cabelo de época, bigodinho. Se passava em 40 e fazia uma retrospectiva da década que tinha acabado. Tinha o Marcelo Delacroix que já era e é meu parceiro até hoje, o Julio Rizzo, também meu parceiro até hoje, Adriana Marques, cantora que morreu anos trás, Jorge Matte, que hoje é baterista do Seu Conjunto. E foi muito engraçado, porque eu estreei com um espetáculo que tinha muita popularidade, uma coisa de público que nunca mais repeti na minha vida. Então eu fiquei muito mal-acostumado. Naquela época, em um ano e meio, fizemos 89 apresentações, e lotava sexta, sábado e domingo no Theatro São Pedro. Aí pensei “putz, é fácil esse negócio de ser músico”. Depois, nunca mais… [risos]

LP: E agora, os preparativos do novo disco do Seu Conjunto?

AF: A gente agora, pela primeira vez, nesse novo disco do Seu Conjunto, estamos operando no sistema miséria. Porque a gente sempre foi atrás de gravar os discos com dinheiro, uns bancados pela gente mesmo. O primeiro disco, lá em 96, custou 18 mil. Os outros eu não vou me lembrar, mas assim, o Música pra Ouvir Sentado custou 80 mil reais, foi bancado por um edital da Natura, e a gente não esbanjou em nada. Tanto que não sobrou dinheiro. Pra arte da capa a gente teve que fazer na “brodagem” com o pessoal. Se tu quiser gravar bem, com calma, em estúdio bom, e no nosso caso tinha dois músicos de fora, tu gasta. Agora, esse estamos tentando fazer com custo zero. Tudo permuta, vamos pagar só o engenheiro de som, e ainda não sabemos como vamos prensar, se vamos prensar. Porque não dá mais pra contar que eu dinheiro vai voltar com a venda de disco. Tipo assim, no primeiro disco, toda a primeira tiragem se pagou com as vendas, e isso não acontece mais. Então, o que ainda está funcionando um pouco, mas requer um investimento inicial alto, é vinil. O Wander [Wildner] tem feito bastante vinil dos discos dele, e aí é bom porque vende caro, e faz 300, 400 discos e vende. Mas é caro pra fazer, a prensagem de um vinil custa 20 reais. Sem a capa, né. Com a capa, dependendo, sai uns 30 ou 35 reais. Já a prensagem do CD é 4 ou 5 reais, com uma capinha mixuruca sai até mais barato, por 2 reais. Tem agora também o pen card, que o Wander fez também, é como se fosse um cartão de visita, que tu vira e tem um pen drive. Mas também, custa 25 reais a unidade. São essas coisas assim, de mercado de luxo, que tem crescido. É a música gourmet. Tem agora a comida, cachorro-quente gourmet e tal. O vinil virou uma coisa mais gourmet do que qualquer outra coisa, até porque as pessoas que estão comprando e ouvindo vinil, ouvem em um toca-discos merda, que nem o que eu tenho. E aí não é melhor o som, mesmo. É bem pior.

LP: Como se fosse uma nostalgia burra?

AF: Não, é bom. O vinil sempre pressupões mais atenção. Mas é uma coisa fetichista, que espero que não acabe, pois é uma forma de segurar a industria. E a parte do disco mesmo, da capa. Pra quem cresceu ouvindo isso é muito legal, me lembro de grandes encartes de discos. Isso no CD, até tem formatos bonitos, mas acabou virando muito padrão.

LP: Quem está produzindo o novo álbum?

AF: O Gustavo Breier, um engenheiro de som que trabalha comigo desde o ano 2000. Ele está morando em Joinville, primeiro em SP, mas agora ele está em Joinville. Lá ele mora no meio do mato, tem um estúdio em casa e lá ele paga menos por isso do que pagava dividindo um apartamento de dois quartos em SP.  Sou muito fã dele. O disco anterior ele produziu junto com o Maurício Pereira, e esse também está com ele. E facilita, pois ele é o engenheiro de som, o cara que vai mixar também, e ter uma visão de fora… Pra mim foi muito difícil, no trabalho anterior, que foi a primeira vez que não produzi um disco meu, ficar ouvindo o Maurício e o Gustavo tomarem decisões e me policiar para não dar palpite foi uma baita escola. Depois de trabalhar 15 anos com o cara acho que dá pra confiar um pouquinho. [risos]

 O músico fala sobre o repertorio do novo disco:

Arthur ainda completa: Está todo mundo muito fofo. Agora que tem tido uns trabalhos que tem a ver com a gente nesse disco. A Juçara Marçal, que é uma pessoa que eu gosto muito, lançou um disco ano passado, chamado Encarnado, que estava em várias listas, que sugiro que vocês ouçam, tem pra ouvir e pra baixar no site. É um disco muito agressivo, e deu certo, foi super elogiado. Uma outra amiga cantora também, que eu gosto, é a Alessandra Leão, de Pernambuco, que está morando em SP, e está lançando um trabalho chamado Pedra de Sal, que tem muito dessa angustia e agressividade da cidade. Acho que uma função da arte é essa coisa escapista, de te levar pra outros lugares, principalmente quando a coisa está mais tensa. Mas uma outra também é incomodar, é refletir a sociedade e tal. Esse espetáculo que eu estava fazendo em SP, com o Felipe Hirsch, estreou na feira de Frankfurt, dois anos atrás. Deu uma polêmica! É uma espetáculo todo em cima de textos de autores brasileiros contemporâneos, e ele é muito violento, de texto mesmo. Toca muito na ferida do Brasil é bom? O brasileiro é bom? A gente é cordial? Todos os clichês, tanto de direita como de esquerda, são muito cavocados. E isso me fez pensar muito também. Alguns dias teve vaia, gente xingamento. Uma vez as pessoas saíram e voltaram com os programas da peça e atiraram no palco. Mas me faz pensar porque era um espetáculo sempre lotado, com uma média de 500 pessoas por apresentação, durante um mês. Onde está esse público da música? Esse público que vai ao teatro pra ver coisas que o tirem o conforto, e que era um público grande em música também nos anos 80, não existe mais. O Arrigo tocava na reitoria da UFRGS lotada, dois dias. Hoje ele toca no Studio Clio, e mesmo em SP, toca na Casa de Francisca, que cabe 45 pessoas. E esse trabalho, como o da Juçara, agora começa a ter um público maior. Mas é uma coisa que, há trinta anos, já teria um público maior. As pessoas passaram a ter uma relação mais bunda mole com a música. Venceu uma lógica muito do entretenimento, acho bem importante as duas coisas, que é uma função muito nobre da arte entreter, dar alegria pras pessoas, fazer todo mundo cantar junto bêbado, acho realmente importante. Mas não pode ser só isso. Todo esse outro lado da arte de provocação, que as pessoas vão nas bienais, lotam as bienais, pruma arte visual, de provocação, mas não têm mais essa paciência pra música. Eu não sei o que aconteceu, realmente. Mesmo quem é da comunicação, quem é indie, quem é cabeça, o tipo de música hoje que esse publico escuta é menos provocatico. Sei lá, um jovem, super bem informado sobre o que está rolando de música no Brasil, hoje ouviria o Marcelo Jeneci, que é uma música que não tem nenhuma provocação. Não é o que estaria ouvindo em outras épocas. Estaria ouvindo outras músicas. Talvez a necessidade de estar sempre ouvindo muita coisa baixe teu coeficiente de absorvição de atrito.

Leia a segunda parte da entrevista

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