Uma entrevista com a escritora Carol Bensimon

Foto: Clarice Passos

Foto: Clarice Passos

Carlos Garcia Luiz Paulo Teló

Carol Bensimon é um dos destaques na nova geração da literatura brasileira. Recentemente, cruzou as fronteiras que já haviam sido derrubadas na sua ficção quando o seu terceiro livro Todos nós adorávamos caubóis (2013) foi lançado na Espanha. Foi também selecionada entre os vinte melhores jovens escritores, pela revista britânica Granta. Com Sinuca embaixo d’água  (2009), seu segundo livro, foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

A escritora, que é formada em Publicidade e Propaganda e pós-graduada em Literatura, também faz tradução de literatura francesa e escreve para a imprensa. Nesses textos publicados em jornais e blogs é onde ela deixa de lado a ficção para se revelar como uma talentosa cronista da cidade.

Com a maravilhosa vista do pôr-do-sol no Guaíba, tomamos um café no último andar da Casa de Cultura Mário Quintana. Na ocasião, Carol falou do seu trabalho, do cenário cultural de Porto Alegre e Paris e dos seus textos polêmicos. Também nos adiantou alguns detalhes do seu próximo livro, que vai se passar na Califórnia.

Culturríssima: Você é publicitária formada. De que forma a tua formação na área da comunicação influenciou na carreira como escritora?

Carol Bensimon: Acho que influenciou bastante. Sei que agora o currículo da Fabico [Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS] é diferente da minha época, mas tive umas cadeiras em que escrevi contos. Eram cadeiras do curso de Letras que eram obrigatórias na Comunicação. Tive contato com cinema, que é uma coisa que me interessa e me influencia. E as pessoas em volta, porque várias queriam fazer coisas artísticas. Talvez se eu fizesse Letras teria menos contato com a literatura contemporânea, por mais paradoxal que isso pareça. Eu gosto de colocar questões do mundo contemporâneo nos meus textos, então acho que na Comunicação tive mais contato com o mundo real que teria na Letras, até para criticar certas coisas.

Culturíssima: E quando decidiu que seguiria a carreira de escritora?

Carol Bensimon: Tem dois momentos. Tem o momento em que isso parece viável economicamente, como uma carreira e outro que, na verdade, é mais difuso, do tipo ‘Ah, quero fazer isso, nem que seja meio de lado, tendo outra profissão’. Então nesse segundo sentido acho que foi meio desde sempre. No outro sentido foi quando eu já era redatora publicitária.  Já tinha feito a oficina do [Luiz Antônio de] Assis Brasil durante a faculdade, e aí abriu essa linha de mestrado, em escrita criativa. Me inscrevi, passei, ganhei uma bolsa e sai do emprego. A partir dali que começou, publiquei meu primeiro livro quando estava no mestrado.

Culturíssima: Hoje você consegue viver só de literatura?

Carol: Sim, não apenas com direito autoral, mas com coisas que estão ao redor da literatura: eventos, traduções, crônicas, roteiros de audiovisual.

Culturíssima: E teu processo criativo como é? Você produz todos os dias ou depende muito de uma inspiração?

Carol: Eu tento todos os dias. Procuro estar na frente do computador das 8h ao meio-dia e das duas até seis da tarde. Mas claro, não posso estar todos os dias na ficção que estou escrevendo, pois tem as colunas para resolver e tal. De modo geral consigo trabalhar nos livros bastante tempo. Tem uma fase de pesquisas, que tem que ficar lendo várias coisas e não propriamente escrevendo, e isso também é trabalho.

Culturíssima: O que você considera suas influências?

Carol: Não sei muito bem o que é influência. Depende muito do momento, às vezes eu dou uma pesquisada. Por exemplo, agora estou escrevendo uma novelinha sob encomenda, que é com um narrador que tem 15 anos. Aí Procuro reler algumas coisas com narradores dessa faixa, e um pouco marginaizinhos. Então depende do projeto.

Culturíssima: Seus livros foram, de maneira geral, bem recebidos pela crítica. Mas quando acontece o contrário, como você lida com isso?

Carol: Normalmente as resenhas que esses livros receberam foram bem positivas. Me lembro de uma, em relação ao Todos nós adorávamos Caubois da Folha de S. Paulo que foi super detonando. Claro que rola aquele momento do escritor: ah, não entendeu o livro, ou sei lá o que [risos]. Mas enfim, as pessoas tem toda a liberdade de achar o que for. Normalmente quando tu entende o que a pessoa está criticando dá pra absorver. Na minha coluna no blog da Companhia das Letras às vezes aparecem algumas pessoas meio furiosas e falando coisas um pouco rancorosas, então é difícil levar a sério.

Culturíssima: No primeiro livro, Pó de Parede, na primeira história você lida com o luto, a questão da perda. Depois você retoma o assunto em Sinuca embaixo d’água. Por que você sentiu a necessidade de aprofundar o tema?

Carol: Nunca enxerguei muito como uma retomada. Não tinha pensado nisso. Óbvio, em várias coisas minhas as pessoas morrem e tal, é um dos temas universais da literatura. Mas vieram de momentos diferentes da vida, esse luto do Pó de parede e do Sinuca embaixo d’água. Quando escrevi o primeiro não tinha perdido ninguém próximo a mim, foi mais uma coisa de observadora bem distante da morte. Já no Sinuca foi diferente, pois um amigo meu morreu em um acidente de carro.

Culturíssima: Em outra entrevista você comenta que em Todos nós adorávamos caubóis você não queria matar os personagens no final…

Carol: É, tem isso. Eu queria que esse livro fosse mais luminoso. Tinha lido algumas coisas sobre road movies e a estrutura desses filmes, e tem um pouco dessa coisa que os protagonistas morrem no final. Tu acaba criando uma história meio sem saída, que as pessoas saíram das suas vidas habituais, tomaram a estrada e aí, o que tu faz? Voltar para a vida normal ao mesmo tempo parece que tem algo de conformismo nisso. Por exemplo, em Thelma & Louise elas se jogam do penhasco, Easy Rider morrem, Bonnie and Clyde morrem. Enfim, quase todos…

Culturíssima: Você precisou viajar para escrever Todos nós adorávamos caubóis?

Carol: Sim, fiz essas viagens no processo. A maioria dos lugares eu não conhecia antes de pensar no livro. Conhecia Antônio Prado, conhecia São Francisco de Paula, mas não tinha ido para o pampa, não conhecia cidade fantasma que aparece no livro.

Culturíssima: E como foi lidar com a sexualidade das personagens no livro?

Carol: O único cuidado que tive era que eu queria que fosse a coisa mais natural possível. A ideia era: olha, esse é um relacionamento como qualquer outro, com suas peculiaridades e ambiguidades. Eu estava afim de criar essa tensão entre as duas personagens que, obviamente, não seria possível, ou seria outro livro, se fosse entre um homem e uma mulher. Acho que é uma coisa meio contemporânea, do tipo essas relações meio indefinidas entre garotas dessa idade, que não sabe exatamente o que é.

carol bensimon adoravamos caubois

Culturíssima: Você direciona o seu trabalho na ficção para o público feminino?

Carol: Não, e até me surpreendo às vezes. Por exemplo, se eu entro no Skoob, aquela rede social de livros, ele tem uma estatística por gênero, de quantos homens e quantas mulheres leram aquele livro, e sempre me surpreende que o Caubóis é, essencialmente, lido por mulheres. Não era algo que eu imaginava. Claro, imaginava que várias garotas iriam se identificar com aquela história, mas acho que ela pode tocar tanto um homem quanto uma mulher. Mas eu também não acho que tenho sempre personagens femininos. No Sinuca, por exemplo, a maioria era homem. O que estou escrevendo agora, vai ter um narrador homem, então, não me preocupo tanto com isso.

Culturíssima: Você sente que tem um perfil de público e se preocupa em atender a esse público?

Carol: Eu sinto que tenho, mas não quer dizer que isso determine o que vou escrever, ou estilo, ou os temas. Tem uma faixa etária, sei lá, que vai dos 20 aos 30 e tantos anos.

Culturíssima: Uma pessoa com um pensamento mais conservador não consumiria livros como o Caubóis

Carol: É, pode ser. É difícil ter ideia das pessoas que deixaram de ler o livro porque é uma história entre duas mulheres. Já tive alguns relatos sobre isso a partir de livreiros, que recomendaram e a senhora que estava ali não quis levar. Mas, ao mesmo tempo, não é necessariamente algo homofóbico, porque existe uma resistência à literatura brasileira contemporânea de modo geral.

Culturíssima: Quando os teus trabalhos são traduzidos para outras línguas, você acompanha de alguma forma?

Carol: Tive livro traduzido recentemente na Espanha e, de resto, algumas antologias americanas. Não acompanhei, acho que vai muito do tradutor, se ele quer ficar consultando o autor. Eu sempre me coloco disponível.

Culturíssima: Nos seus trabalhos como tradutora, costuma consultar o autor? O que, por exemplo, você já traduziu?

Carol: Já fiz mais trabalhos do francês para o português, geralmente quadrinhos. Não me lembro se precisei contatar algum autor, acho até que não. Traduzi vários para a Companhia das Letras. Uma graphic novel chamada Três Sombras, algumas adaptações literárias em quadrinhos, tipo O Estrangeiro, que saiu esse ano, Colônia Penal, do Kafka. Pra Globo traduzi uma muito sensacional, que é uma versão sexo, drogas e rock’n’roll do Pinóquio, que é de um cara chamado Winshluss. Traduzi uma outra, desse mesmo cara, que é uma paródia extrema da bíblia, que espero que ainda seja lançada esse ano.

Culturíssima: Em uma das suas colunas na Zero Hora, você chamou a classe média de jeca. Se referia à classe média que foi para as ruas protestar contra a corrupção e pedir a saída de Dilma ou àquela que se tornou classe média nos últimos 10 anos?

Carol: Com certeza essa, que ainda não tinha ido pra rua. Teve essa polêmica, não sabia que ia tomar essa proporção. Mas o que mais me deixou chateada foram as pessoas de esquerda que entenderam errado, achando que eu estava me referindo a uma nova classe média e sendo preconceituosa, quando não era esse o alvo, em absoluto.

Culturíssima: Nas suas colunas, eventualmente você aborda assuntos relacionados a arquitetura, urbanismo e soluções diferentes de se pensar a cidade. Como surgiu essa percepção?

Carol: Sou bem observadora, nesse sentido. Não sei exatamente precisar quando isso começou, se foi essa minha experiência fora daqui e a partir disso ter voltado e percebido algumas coisas que poderiam ser diferentes, em termos do funcionamento da cidade, da ocupação dos espaços. Comecei a ler sobre isso, aí uma vez escrevi um artigo grande sobre isso na Zero Hora, quando era aniversário de Porto Alegre, e foi super bem aceito, muita gente da área veio falar comigo, concordando. Até fiz amigos a partir dali, uma rede de contatos com arquitetos e urbanistas. Aí comecei, junto com a Kátia Suman, um programa na Rádio Eletrica em que a gente discutia questões da cidade. É um tema que me interessa.

Culturíssima: O que você acha que Porto Alegre pode melhorar?

Carol: Olha, é muita coisa. A gente ainda segue esse modelo anos 70. Esse ano a gente viu surgir aquele viaduto na Bento Gonçalves. Estava vendo no jornal que aquele outro viaduto na Pinheiro Borda, que foi construído pra Copa, está sendo reestruturado porque tem mil problemas, e quando tu passa ali já parece uma coisa tão decadente. Um viaduto degrada todo um entorno, não é possível que não tenham percebido isso ainda. Aí vejo cidades, mesmo no Brasil, que já estão seguindo uma outra estratégia. Então é meio frustrante. Tem uma ONG internacional, que lida com questões de transporte público, que é sediada em Porto Alegre, chama EMBARQ, mas que não conseguiu estabelecer diálogo com a Prefeitura, então faz trabalhos para outras cidades brasileiras.

Culturíssima: Depois de morar por um período em Paris, que paralelo você pode fazer entre a vida cultural das duas cidades?

Carol: Obviamente tem uma oferta maior lá. Coisas gratuitas, uma infinidade de museus e grandes eventos da cidade, tipo um que acontece na primavera, e que tem gente tocando em todos os lugares durante a madrugada inteira. Coisas que dependem de verba pública pra acontecer. Cinema ao ar livre nos meses de verão e tal. Mas é engraçado, aqui eu sempre sinto que tem algum evento acontecendo, não tanto do mesmo tipo, mas sempre tem uma feirinha de rua, que é um fenômeno que aconteceu nos últimos anos, muito pela coisa do facebook, de criar um evento e chamar as pessoas. Lá a estrutura da cidade é outra, então já tem uma ocupação natural do espaço público, não precisa fazer um esforço como aqui, pra chamar as pessoas pra estarem naquele lugar.

Culturíssima: O seu trabalho hoje é reconhecido nacionalmente. Já teve vontade de ir morar mais próxima ao eixo Rio-São Paulo?

Carol: Não, acho que sou meio provinciana, não consigo me imaginar morando em outra cidade do Brasil. Sou meio apegada a Porto Alegre. Vou para o centro do país frequentemente, e nos últimos anos, por conta da profissão, conheci vários lugares que eu não conhecia, como o nordeste. Mas não consigo me imaginar vivendo em outro lugar.

Culturíssima: Fazendo uma análise do cenário atual, com vendas de livro, disseminação via internet, como está o mercado da literatura?

Carol: Não sei te dizer em termos gerais, se está se vendendo mais livros hoje, e também se a gente for pensar quais são esses livros – o que pode ser meio deprimente. Eu vivo de literatura indiretamente, como eu estava dizendo, assim como uma série de escritores da minha geração. Não acho que isso fosse possível nos anos 90 e 80, por exemplo. Nesse sentido houve um avanço, mas não sei dizer se é uma profissionalização do mercado, uma série de eventos que surgiram na esteira da Flip [Festa Literária Internacional de Paraty] ou, enfim, se isso se reverte em número de leitores.

Culturíssima: Você esteve na programação da Flip este ano. Quais as diferenças do que acontece em Paraty com a nossa Feira do Livro de Porto Alegre?

Carol: São feiras muito diferentes. Lá tem uma tenda dos autores, onde estão acontecendo os eventos oficiais e tem uma livraria oficial do evento, não é essa estrutura de feira, com barraquinha e desconto em livro. A nossa tem eventos também, palestras acontecendo, de uma forma que eu acho até um pouco excessiva. Tem muita coisa e a gente não sabe muito bem onde ir. O charme da nossa é a função da praça, e é uma feira super democrática. Esse é um momento na cidade em que os livros estão na vida das pessoas, acho que isso é importante.

Culturíssima: Tem toda uma geração de escritores jovens aqui no sul que se estabeleceu há algum tempo já, como você, o Daniel Galera e alguns outros. Essa turma se conversa, troca idéias?

Carol: Acho que sim. O Galera também é da Fabico, mas ele já tinha saído quando eu ingressei. Mas eu já estava na Fabico no momento que existia o Cardoso Oline, peguei esse pedaço de história. Alguns deles são uma turma que troca ideia, almoça, toma café e joga vídeo-game, mas não sei se estou tão integrada assim. Sou amiga do Galera, falo com ele, com o Antônio Xerxenesky, mas não costumo falar de literatura quando a gente se encontra.

Culturíssima: Depois do mestrado, você até começou o doutorado, mas desistiu. Por quê?

Carol: Não me imaginava tendo uma vida acadêmica. Entrei no mestrado porque era em escrita criativa e portanto podia fazer uma obra literária no final, no lugar de uma dissertação. Mas aí quando terminei o mestrado tinha essa vontade de ir para Paris, entrei em contato com o professor que era da literatura comparada, pensei em continuar o tema do mestrado, que era o personagem ausente, que tinha a ver com Sinuca embaixo d’água, mas eu tinha escrito um ensaio teórico que pensei que poderia ampliar loucamente no doutorado. Fui aceita e então fui pra lá, mas era mais essa vontade de ter uma experiência de morar fora. Quando se impôs essa coisa de ter que escrever uma tese, pareceu que eu poderia gastar essa energia na ficção, e não escrevendo um trabalho teórico.

Culturíssima: Com as colunas na ZH, você se tornou também uma cronista da cidade. Você se enxerga assim?

Carol: Nunca me enxerguei assim. Sempre tive blog, por bastante tempo. Mas acho que eu não olhava tanto pra cidade nessa época da juventude extrema, comecei com isso quando fui pra França. Fiz um blog pra discutir e falar de coisas de Paris e dessa experiência, que até depois foi hospedado no ClicRBS. Talvez tenha isso a partir dali, mas também é preciso uma certa idade para olhar mais pra fora e não só para dentro de si mesmo.

Culturíssima: O que você pode falar sobre o próximo livro?

Carol: Não posso falar muito. Vai se passar no norte da Califórnia. Vou ficar lá agora, no segundo semestre. É um lugar que já conheci em duas viagens, e que agora eu vou ficar em uma cabana no meio do mato por dois meses. Já tenho lido bastante, faz um ano que tenho lido coisas com relação aos temas do livro. O nome está muito provisório ainda, não vou revelar.

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