Uma entrevista com Giba Assis Brasil

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Luiz Paulo Teló

Estivemos na Casa de Cinema de Porto Alegre, berço de filmes como Ilha das FloresO Homem que CopiavaMeu Tio Matou um Cara. Fomos bater um papo com um dos sócios da Casa, o diretor, montador e roteirista Giba Assis Brasil e saber um pouco sobre o que ele anda fazendo e como está o mercado de cinema, principalmente aqui no estado.

Giba vive suas últimas semanas como presidente da Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul (APTC-RS), cargo que assumiu em maio de 2013. Dirigiu alguns filmes na década de 80, como os simbólicos Verdes AnosDeu Pra Ti Anos 70, mas chegou a conclusão que dirigir não é a sua praia. Sua função preferida é mesmo a de montador.

É um dos sócios-fundadores da Casa de Cinema, nos idos de 1987. Ao lado do diretor Jorge Furtado, participou de algumas das produções mais importantes do cinema nacional nas últimas três décadas – como os três filmes já citados no primeiro parágrafo desta matéria. Para conversar com a reportagem do Culturíssima, Giba Assis Brasil interrompeu o que fazia em pleno feriado do dia do trabalhador. É de onde começamos:

Culturíssima: No que está trabalhando?

Giba Assis Brasil: Em uma série para o Canal Brasil chamada Fora de Quadro, que é dirigida pelo Márcio Schoenardie e a Janaína Fischer. Deve ir ao ar em outubro, eu acho. O pessoal está rodando ainda, está na quadragésima diária, ou uma coisa assim, e eu estou terminando de montar o terceiro episódio – são 13. Se trata de uma comédia sobre bastidores de filmagens.

Culturíssima: Nesse processo de fazer cinema, o que te dá mais prazer?

Giba Assis Brasil: Montar. Gosto de roteirizar, escrever roteiro também, mas é um negócio que requer disciplina que, quando estou montando, não consigo fazer. Então como estou montando direto há 25 anos, raramente consigo parar para escrever roteiro. Agora, dirigir eu não gosto, já fiz algumas vezes mas não gosto.

Culturíssima: Dirigiu mais no começo da carreira. A experiência não foi boa?

Giba: Foi bom por ter conhecido gente, por ter aprendido algumas coisas e por ter descoberto que não era isso que eu queria fazer. Dessas coisas que a gente tem que fazer uma vez na vida pra se dar conta que não é aquilo.

Culturíssima: E como tu enxerga hoje os filmes que já dirigiu?

Giba:  Acho que os filmes tiveram uma certa importância, principalmente pelo fato de que era uma época em que tinha pouca produção aqui. A gente estava meio que desbravando. Não que não existisse produção, mas era pequena, pouco sistematizada, e a gente conseguiu fazer, e digo a gente porque sempre dirigi em dupla, primeiro com o Nelson Nadotti e depois com o Carlos Gerbase, a gente conseguiu fazer filmes que tiveram captar alguma coisa que era importante naquele momento, tanto no Deu pra ti anos 70, com o Nadotti, e depois Verdes Anos, com o Gerbase. Hoje vejo os filmes e enxergo muito mais os defeitos do que as qualidades que eventualmente tinham, mas entendo que o filmes foram importantes. De qualquer maneira, o meu papel ali foi mais importante por ter feito a coisa acontecer do que propriamente ter dirigido o filme.

Culturíssima: Hoje é mais fácil fazer cinema com apoio da iniciativa privada ou com a ajuda de políticas públicas?

Giba: A gente [a Casa de Cinema] é uma empresa privada, e como todas as outras empresas de produção do país precisamos nos associar a outras possibilidades de capital para podermos fazer nossos projetos. Não somos uma empresa capitalizada no sentido de conseguir bancar um projeto, a não ser que sejam coisas pequenas ou muito eventuais. Isso acontece em todo o Brasil e em boa parte do mundo, na verdade. Existem possibilidades de parcerias com a iniciativa privada e existem editais públicos dos quais estamos sempre concorrendo, e a verdade é a seguinte: as leis de incentivo, que foi a grande política pública que surgiu há vinte e poucos anos, logo após o período Collor, aliás já existia antes, mas no período Collor desmanchou tudo, e nos governos que vieram depois meio que se estabeleceu toda uma política de apoio a cultura através de leis de incentivo. Acho que elas têm um lado bom, sem dúvida, mas elas geraram uma dependência que inviabilizou, no Brasil, qualquer tipo de parceria com a iniciativa privada que não seja com lei de incentivo. Meio que virou um vício. Se antes existia a empresa ‘tal’ que apóia o teatro, a empresa ‘tal’ que se associa com cinema, a empresa ‘tal’ que tem ligação com dança, não que tenha desaparecido, mas essas empresas hoje só fazem isso através de leis de incentivo. Uma lei de incentivo que, depois de 25 anos de existência, não estabelece canais para que os produtores culturais e as empresas, eventuais patrocinadoras, possam se associar independente da lei, não foi uma boa lei de incentivo.

Culturíssima: Consegue ver alguma perspectiva de mudança?

Giba: Nós trabalhamos com algumas parcerias, mas quase todas através de editais públicos. Eventualmente com algumas leis de incentivo também, mas basicamente tudo a partir de editais públicos. Tenho a impressão que leis de incentivo no Brasil deveriam começar do zero. Ela não pode incentivar 100% do que a empresa banca, tem que ser uma parte. Digamos assim, quero fazer uma parceria com uma empresa que não é de cultura, e quero convencê-la que ela deve associar seu nome à minha produção cultural porque isso vai lhe render dividendos interessantes. Se existe uma lei que devolve pra ela 100% como isenção de imposto, essa empresa só vai querer fazer através de lei de incentivo. Assim que aconteceu no Brasil. Se existisse uma lei que desse 50 ou 70% de incentivo, a empresa teria que buscar as parcerias que fossem mais interessantes para ela. Agora, com 100% ele vai buscar a parceria que der retorno mais fácil. Fui crítico disso desde o início, lei de incentivo não pode ser de 100%, acho que hoje isto está muito claro. Nos países onde os incentivos fiscais funcionaram, e funcionam há décadas, nunca foram de 100%, sempre foi uma maneira de estabelecer uma relação, mas tem que haver um convencimento. O cara não pode levar tudo de volta, tem que ter uma parte dele, e pra isso vai escolher os projetos que interessam.

Culturíssima: No início da Casa de Cinema, como era batalhar grana para conseguir financiar as produções?

Giba: Ainda tinha a Embrafilme na época, já extremamente decadente. Era um projeto que tinha funcionado muito nos anos 70 e início dos 80, mas que com a crise no Brasil a partir de 82, em que o país praticamente faliu, ainda quando o Delfim Netto era Ministro da Fazenda, na tal da década perdida, a produção de cinema caiu muito, a Embrafilme caiu muito. Naquele momento era complicado, o que a gente tinha na época era a possibilidade de fazer curta-metragem. Existia a lei do curta, que era muito interessante. Uma vez que o teu curta era selecionado para ser exibido, tu recebia um retorno que te permitia bancar o próximo curta. Fizemos assim o O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, em 86, quanto estava surgindo a Casa de Cinema, e Barbosa em 88. No ano seguinte, quando fizemos o Ilha das Flores, que seria um grande momento, aí veio a catástrofe Collor e acabou tudo: lei do curta, Embrafilme, lei de incentivo, acabou todas as possibilidades que a gente tinha. Mas na verdade a Casa de Cinema só sobreviveu nesse período porque em fevereiro de 1990, alguns dias antes do Collor assumir e baixar o plano aquele que acabou com a poupança de todo mundo, a gente estava em Berlim exibindo Ilha das Flores, o que nos abriu uma série de possibilidades de produção internacional. Sobrevivemos naquele período fazendo  filmes para as TVs inglesa, alemã, fundações americanas. Uma espécie de contradição, pois permanecíamos aqui, fazendo filmes sobre o que vivíamos aqui mas financiados por mecanismos estrangeiros. Porque no Brasil não havia possibilidade naquela época.

Culturíssima: Como aconteceu essa ligação com o exterior?

Giba: Foi uma casualidade absoluta. Foi pelo fato de ter exibido o Ilha das Flores em Berlim, o filme ter ganho o prêmio [Urso de Prata], o mais importante que já ganhamos, e a partir daí conseguimos fazer contatos.

 filmagens do curta Ilha das Flores, em 1989. O segundo, da esquerda para a direita, é Jorge Furtado, seguido de Luciana Tomasi, Giba Assis Brasil e Ana Luiza Azevedo. Nora Goulart está atrás da câmera.

Filmagens do curta Ilha das Flores, em 1989. O segundo, da esquerda para a direita, é Jorge Furtado, seguido de Luciana Tomasi, Giba Assis Brasil e Ana Luiza Azevedo. Nora Goulart está atrás da câmera.

Culturíssima: Recentemente, como presidente da APTC [me interrompe]…

Giba: Faltam cinco semanas para acabar meu mandato [comemora em tom de brincadeira]! Já tinha sido presidente há 20 anos, e sempre achei que a associação devesse ser presidida pela nova geração, isso não é função de quem está com quase 60 anos. Mas enfim, a associação teve uma crise nos últimos anos, estava com falta de representatividade, acho que um pouco por essa era de ativismo de facebook, em que as pessoas acham que podem resolver tudo sentadas, apertando no like. De 2013 pra cá isso começou a mudar um pouco, as pessoas descobriram que tem que ir pra rua pra ver as coisas acontecerem, mas a APTC estava em uma crise de representatividade, faltava gente, faltava liderança, então juntei um grupo de pessoas bem mais jovens que eu, que me convenceram a ficar de presidente nesse período de dois anos. Topei, mas agora estou passando o bastão. Falei com o Victor Hugo, Secretário de Cultura do Estado, quando ele estava assumindo o cargo, que o próximo presidente vai ter, pelo menos, 20 anos menos que eu.

Culturíssima: Então, recentemente, na condição de presidente, como tu viu o cancelamento do edital da TVE para produção de séries e seu posterior reativamento? Como a APTC agiu?

Giba: A associação foi fundamental. Isso é muito daquela coisa de transição, o Brasil tem isso de que, cada vez que muda o governo, tem que começar tudo do zero. E a lógica das políticas públicas tem que continuar independente de quem está no governo. A função de uma associação como a nossa é ter uma interlocução com todos os governos possíveis, e passar para eles a memória: ‘olha, isso aqui funcionou, isso aqui não funcionou’. Claro, quem toma as decisões são os governos, mas a gente tem que dizer para eles tocarem, e acho que foi um equívoco daquela coisa de transição. Sai uma equipe, entra outra equipe e entenderam errado o que tinha acontecido em relação ao edital, e a primeira atitude foi parar tudo, até se dar conta que era o melhor negócio possível para a TVE. Ela vai contratar uma quantidade bastante significativa de horas de produção, gastando 7% do custo, pois 93% é pago pelo Fundo Setorial do Audiovisual, que é verba federal. Esse edital estava pronto, arrumado e preparado pelo governo anterior e, claro, eleição, mudança de governo, faz parte da democracia, mas tem que manter as coisas. Acho que a direção da TVE se deu conta disso, só que no período de transição aconteceu um mal-entendido, e tivemos um papel muito importante para desfazer esse mal-entendido.

Culturíssima: Que formas o cineasta independente tem para exibir seu trabalho e rentabilizar com isso no Rio Grande do Sul?

Giba: O sistema de exibição, no mundo inteiro, está passando por uma transição, que é essa coisa do digital. Em Porto Alegre, em janeiro de 2015 eram de 10 a 15% das salas digitalizadas e deve chegar em outubro com 100% das salas digitalizadas. A projeção em 35 milímetros, que existe desde 1895, vai acabar agora. Já acabou nos Estados Unidos, praticamente acabou na Europa e está acabando no Brasil. Claro, vai continuar eventualmente em cinematecas e salas que exibem filmes antigos, embora eu ache que, mesmo essas cópias, é tendência exibir de forma digital, porque é mais fácil, mais barato, e o fetiche da película deve se desfazer com o tempo. Essa transição tecnológica está envolvendo aspectos econômicos muito complexos. O cinema está ficando difícil de ser acessível para a produção independente. Tu consegue exibir teu filme. Mas tu consegue exibir uma semana, em uma sala que normalmente é alternativa, pequena e, provavelmente, nas sessões da tarde. Como espectador, abro o jornal e vejo que tem 50 filmes em cartaz em Porto Alegre. Pô, que legal! E filme iraniano, filme francês, filme italiano, filme brasileiro, documentário, é uma variedade imensa. Aí tu vai olhar e, na verdade, nas sessões da noite tem três filme, quatro filmes para assistir. Tu vai ver os outros filmes e estão no horário da tarde e, poxa vida, é pra quem é aposentado ou consegue lidar com seu horário de uma forma muito específica. Aquela variedade que parece que tem, não tem! Tem shopping com oito salas passando dois filmes. Essa concentração absurda é um dos aspectos que está acontecendo nessa transição, e isso precisa ser regulado. A Ancine está tentando regular isso mas está enfrentando interesses muito grandes e contrários a essa regulação. Os hábitos estão mudando muito também. O público que vai ao cinema é cada vez mais jovem, e por ser mais jovem é fugaz, no sentido em que as pessoas deixam de ser jovens muito rápido, e a partir daí que o interesse em assistir outros filmes vai aumentando elas não vão mais ao cinema, porque vão assistir em casa, na TV, no Netflix ou baixar na internet.

Culturíssima: O que acha desse boom das séries americanas e o Brasil está perto de produzir material parecido?

Giba: Esse boom não é só americano. Claro, vemos em primeiro lugar a produção norte-americana porque é o lugar com a maior produção audiovisual do planeta, é onde surge as grandes inovações, é pra onde vão os maiores talentos, tem as melhores escolas, onde tem mais dinheiro, mas tem séries européias de altíssima qualidade, tem aparecido séries israelenses de altíssima qualidade, e no Brasil isso tende a acontecer também. A lei 12485 que estabeleceu na TV fechada cotas para produção brasileira, como é a política na Europa toda, e de certa forma, com uma lógica diferente, também é a política nos EUA, ela abre espaço para a produção independente e este espaço está sendo preenchido. Se a princípio as produções são de baixo orçamento, se a princípio as produções são de baixa qualidade, a questão é que dessa quantidade vai surgir a qualidade, não tenho dúvida nenhuma. E já está surgindo algumas coisas bem interessantes, não só em comédia como em drama, com orçamentos ridiculamente pequenos se comparados com os americanos, o que não é por acaso, pois eles têm uma relação com o público há muito mais tempo. Mas isso tem que ser estendido para a TV aberta. A nossa televisão tem uma história completamente diferente da história de outros países. A TV européia hoje é majoritariamente privada, mas ela foi pública até os anos 80. Embora as grandes emissoras européias não sejam mais públicas, elas mantém o interesse público, e tudo definido por lei. Nos EUA a lógica é outra, a tradição sempre foi de uma TV privada, mas que, por já ter surgida em um país em que Hollywood já estava estabelecida, quase nunca se fala nisso mas aconteceu durante 40 anos, as emissoras privadas sempre foram obrigadas a comprar 70% do material que elas colocavam no ar. As TVs abertas: ABC, NBC, CBS. Tinha uma legislação muito poderosa. Por que? Lobby de Hollywood, obviamente. No Brasil, a televisão sempre foi um negócio de famílias. Hoje a gente vê, com esse sistema de concessão, que começou lá no anos 50, a quantidade de deputado no congresso com concessões em seus estados, suas cidades, ou mesmo suas famílias. É impressionante a relação entre a política partidária e as concessões de TV, de rádio também. Então, as TVs no Brasil sempre produziram dentro de casa, nunca compraram produção independente, sempre foi mais fácil contratar talento pra dentro dela. Isso acabou gerando uma TV de alta qualidade, especialmente a TV Globo, que é de qualidade internacional, mas extremamente concentrada e pouco diversificada, que não gera uma produção independente regional, como tem na Europa, como tem nos EUA. Estas grandes séries americanas, praticamente todas elas são produzidas fora das grandes emissoras. Elas compram o projeto, eventualmente encomendam, mas eles são produzidos fora. No Brasil a gente não tem isso. A Casa de Cinema conseguiu uma coisa muito específica, que é o fato de que temos um dos nossos sócios, o Jorge Furtado, que também é funcionário da Globo. Ele foi contratado logo depois de Ilha das Flores e se tornou uma pessoa importante lá dentro, trabalhando diretamente com o Guel Arraes, um dos homens fortes da Globo. A gente conseguiu produzir algumas coisas, como Doce de Mãe, que foi toda feita aqui. O piloto foi premiado, a Fernanda Montenegro [protagonista da série] ganhou o Emmy internacional. Mas tem o seguinte, embora tenha sido feita toda dentro da Casa de Cinema, eu que montei, fiz o corte final, não é uma produção independente na medida em que os direitos sobre o projeto são da Globo. A Casa de Cinema não pode fazer uma nova temporada sem ser pela Globo, mas a emissora pode eventualmente fazer uma nova temporada sem que a gente participe.

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Fernanda Montenegro, ganhadora do Emmy no seu papel de protagonista em “Doce de Mãe”

Culturíssima: Tu tem a formação de jornalista. Como foi a guinada para o cinema?

Giba: Os cursos de cinema no Brasil são muitos recentes. No final dos anos 60 foram criados dois cursos de cinema, o da UnB em Brasília e o da USP em São Paulo. Durante muito tempo só existia estes dois, depois surgiu um no RJ, mas aqui em Porto Alegre o primeiro surgiu há 12 anos, que é o da Unisinos, que sou um dos fundadores, dou aula lá até hoje. Então a tradição era as pessoas virem da área da comunicação para trabalhar com cinema. Em Rio e São Paulo teve muito sociólogo fazendo também. Mas o jornalismo provavelmente era a coisa mais ligada. Na verdade eu fiz o curso sem pensar em cinema, era uma coisa muito distante. Pensava em, eventualmente, até em escrever sobre cinema, mas não em fazer. Foi no contato com o pessoal aqui que fazia Super 8, mas especificamente o Nelson Nadotti que me chamou. Conheci ele quando estava na faculdade, e me chamou para escrever um roteiro e acabei gostando.

Culturíssima: Qual o perfil do aluno de cinema e qual o caminho natural no mercado?

Giba: Aqui eu estava trabalhando em uma montagem. Mas estava tendo outra reunião ali de um núcleo de criação que estamos fazendo aqui na Casa de Cinema, que tem dois alunos que saíram do curso da Unisinos. Estou trabalhando nessa montagem com três alunos que saíram do curso da Unisinos. No set de filmagem dessa série, tem mais quatro ou cinco alunos. Alguns já com funções bem qualificadas, um como diretor de fotografia, outro como assistente direto do diretor de arte. Então, a gente está formando gente para trabalhar. Se tu vai para o curso de cinema achando que tu vai ser diretor de longa-metragem, que tu vai fazer teu projeto e que um dia Hollywood vai te ligar e dizer que estão loucos para produzir teu filme, que tem 5 milhões de dólares pra isso, a possibilidade de tu sair do curso como um fracassado é muito grande. Agora, se tu entender que trabalhar com imagens em movimento é uma coisa bem ampla, que envolve cinema eventualmente, envolve televisão, aberta e fechada, documentário, ficção, animação, envolve produção para internet, para novas mídias, envolve até trabalhar com games, e que tu pode ser um criador sem ser necessariamente um diretor. Claro, o diretor é sempre quem comanda, o diretor e o produtor, dependendo da relação, mas tu pode ser criador sendo roteirista, montador, sendo diretor de arte, sendo fotógrafo, diretor de som. No curso e no mercado tu pode descobrir a melhor maneira para se encaixar, e se pensar dessa forma, as possibilidades são muito grandes e estão crescendo. Não vou dizer que todos os alunos que saem da Unisinos saem com uma possibilidade de emprego concreta, não é assim porque não é assim em nenhum curso, mas o aluno dedicado, com certo grau de cultura, que às vezes vem de casa, porque o curso em si não é capaz de dar, esse aluno vai sair do curso com boas perspectivas de trabalho.

Culturíssima: Nesses últimos tempos, o que tem te chamado atenção no cinema nacional?

Giba: Tem muita gente boa surgindo, com filmes que dificilmente a gente consegue ver. São filmes que, ou assiste em festivais ou vai exatamente naqueles três dias que ele vai ficar no cinema, ou vai ver depois, em vídeo, baixando na internet. Caras como o Esmir Filho, um puta talento, que estamos em um projeto de co-produção. O próximo filme dele será produzido pela Casa de Cinema, estamos fazendo o possível para que isso aconteça. Um cara como o Felipe Bragança, uns caras como esses pernambucanos. Tem surgido muita gente interessante em Pernambuco, mais especificamente o Kleber Mendonça. A gente fez uma série no final do ano passado, para a Sportv, chamada A Copa Passou por aqui, que tinha 11 documentários curtos. Formamos um time de cineastas jovens, de vários lugares diferentes. Chamamos o Kleber Mendonça, a Maria Augusta Ramos, do Rio de Janeiro, o Lázaro Ramos, que é mais ator que diretor, mas ele fez um filme sobre como a Copa passou por Salvador, chamamos aqui de Porto Alegre o David Preto e o Vicente Moreno, a Leandra Leal, o Esmir Filho, o cara de Brasília aquele… Putz, como é o nome dele? É um talento… Que fez agora Branco sai, Preto fica. Bom, esse cara [ o nome é Adirley Queirós] pra mim é um dos grandes talentos que temos. É o primeiro cara formado na UnB que veio de Sobradinho, periferia do Distrito Federal.

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