Ney Matogrosso mostra vivacidade no show de “Atento aos Sinais”

Mesmo que você não seja músico provavelmente já teve a sensação de ouvir uma música e desejar ter sido o autor dela. Não apenas porque você gostava da canção, mas porque ela continha alguma ideia que você gostaria de ter tido, um ponto de vista que você gostaria de ter descoberto ou uma poesia que você gostaria que atribuíssem a você. É mais ou menos essa a ideia de toda a carreira de Ney Matogrosso, que dedica-se a dar vida a canções dos outros.

cantor ney matogrosso durante apresentação do show atento aos sinais

Ney Matogrosso no show de “Atento aos Sinais”, em Porto Alegre (Fotos: Eduardo Moraes / Maurício Code)

A interpretação de Ney é baseada não apenas na afinação impecável e na poderosa presença de palco, mas na apropriação da música. Mesmo que ele não seja compositor e que, inclusive, saibamos quem são os autores das músicas que ele canta, em cima do palco ele não deixa a menor dúvida de que as músicas, na verdade, são dele. Embora conservadas em grande parte quanto ao seu arranjo, além da interpretação, a própria seleção de músicas feita por Ney para cada show permite uma nova percepção sobre as canções.

No espetáculo Inclassificáveis ele reuniu canções de diversos autores que julgava originais, e que haviam feito composições com as quais Ney identificava-se profundamente. O anseio de levar essas canções adiante, a interpretação das músicas com tamanho orgulho e paixão, como se de fato fossem suas, e a oportunidade de possibilitar que mais e mais pessoas ouçam esses trabalhos inclassificáveis, expressa uma vivacidade invejável.

O feito mais marcante produzido por esse talento de interpretar esteja talvez na gravação de Pro Dia Nascer Feliz, música do Barão Vermelho lançada por Ney, que fez a banda estourar e passar a figurar entre as grandes do rock nacional.

Em Atento aos Sinais, espetáculo apresentado em Porto Alegre, no palco do Araújo Vianna, no último dia 1° de abril, o artista trouxe duas composições de Itamar Assumpção, Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim, entre outras canções de autores consolidados como Vitor Ramil, que aparece com A Ilusão da Casa. No entanto, o maior destaque foram as oito músicas do show compostas por artistas independentes, que ainda sonham em ser descobertos e ter o seu trabalho reconhecido. Atento à nova produção musical, Ney Matogrosso concede espaço a essas bandas e apresenta um show que é a sua cara, inovador, firme e brilhante, tanto no conceito quanto no vestuário extravagante.

Conhecido por seu figurino excêntrico, para Joãozinho Trinta nenhum colocar defeito, o cantor certa vez revelou que sente-se nu quando precisa vestir um terno. A construção de um personagem facilita sua entrega no palco e coopera para uma interpretação ainda mais sua, para um trabalho ainda mais sólido e cativante. Ney Matogrosso consegue contagiar com uma performance envolvente, que confere credibilidade e gera curiosidade sobre a autoria das canções por ele interpretadas. Este não é o trabalho de um show ou de uma turnê, é o produto de uma carreira pela democratização da música. Vale a pena lembrar também a acessibilidade dos preços dos ingressos e a iniciativa para estar perto do público, permitindo inclusive que a plateia se aproxima-se do palco, mas “sem subir, sem subir”.

Ney diz que não gosta de analisar seus 40 anos de carreira, mas com certeza deve sentir-se satisfeito em poder levar a arte para tantas pessoas, em encantar tantos olhos e por sentir-se vivo fazendo isso. Se fosse possível adicionar mais um adjetivo poderíamos falar talvez em vivacidade. “Vou andar até onde for capaz” – diz ele do alto dos seus 76 anos. Obrigado Ney, por cuidar da sua saúde. Obrigado por nos proporcionar noites como essa.

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