Slash em Porto Alegre – resenha

Vinícius de Macedo

Sou fanático pelo Slash. Digo isso assim de cara para que os amigos leitores deem o devido desconto a qualquer análise muito apaixonada que saia desta resenha sobre o show do Slash em Porto Alegre. Sou de 87, ano do primeiro disco do Guns n’ Roses, que obviamente só fui conhecer na adolescência, época em que a maioria dos roqueiros descobre que é roqueiro. Isso aconteceu lá no início dos anos 2000, quando o Guns já tinha acabado há muito tempo. Sendo assim, uma das maiores frustrações da minha vida foi nunca ter assistido a um show da banda. Enlouquecia vendo os DVDs e imaginando como seria ver aquilo ao vivo. E sofria. Sofria por não poder ter estado lá.

resenha sobre o show do slash em porto alegre

Em 2010 assisti ao arremedo do Guns n’ Roses. Conheço muita gente que tem implicância com o Axl Rose em qualquer fase. Eu não, eu gostava dele. E até acho o Chinese Democracy um disco legal, mas a personalidade atual dele realmente não me agrada. Não é difícil de entender porquê o Slash deixou a banda. Fui ao show na tentativa de recuperar o tempo perdido e finalmente assistir o Guns n’ Roses ao vivo. Mas o show tinha muita purpurina e pouco sentimento. O Slash sempre foi o sentimento, a alma da banda. A básica escala pentatônica da qual o guitarrista usa e abusa, aos meus ouvidos não parece tão básica assim. O sentimento que ele consegue transmitir, o famoso “feeling”, é fortíssimo para mim. É como se o Slash e eu funcionássemos na mesma frequência. Entendo tudo o que a guitarra dele fala, como se as frases musicais que saem dela fossem palavras de verdade. As músicas do Guns cantadas pelo Axl atual me dizem muito pouco, mas tocadas pelo mesmo Slash de sempre me dizem tudo.

Foi esse sentimento que me levou ao primeiro show do Slash em Porto Alegre há três anos atrás. Primeiro pelo fanatismo por ele, depois para ver o Guns ao vivo. Eu não conhecia nenhuma música da carreira solo dele, mesmo sendo fanático nunca fui atrás, sempre achei o Guns tão bom que pensava que qualquer coisa que ele fizesse fora da banda seria muito fraco. Ou seja, fui ao show para ver o Guns n’ Roses, para escutar os hinos da minha adolescência ao vivo, em mais uma tentativa de superar a frustração de não ter nascido uns 10 anos antes.

Slash em Porto Alegre no hall dos melhores

O show de 2012 do Slash em Porto Alegre entrou para lista dos melhores shows da minha vida. Comprovei todas as minhas teorias, especialmente sobre a nossa sintonia e sobre ele ser, de fato, a alma do Guns. Era quase como se eu estivesse vendo o Guns ao vivo. Pois a alma do Guns estava lá, a guitarra do Slash estava lá. Porém, embora a alma estivesse ali, o corpo não estava. Myles Kennedy não tem a mesma presença de palco do antigo Axl Rose. Sem falar que no auge da forma o Guns tornou-se uma coisa tão gigantesca que era impossível de ser reproduzida ali. Ou seja, mesmo me sentindo muito perto do Guns, ver o Slash ao vivo não permitiu que eu superasse não ter visto a banda em seus áureos tempos.

De qualquer maneira o show do Slash em Porto Alegre foi inesquecível, principalmente por causa de Civil War. Essa música tem a força característica do hard rock, ela é um exemplo da sonoridade do estilo. Além disso, não só por abrir o Use Your Illusion II, o primeiro disco do Guns que eu ouvi, mas por expressar a insatisfação com a Guerra do Golfo, Civil War sempre foi uma baita música para mim. Contudo, esta é uma música difícil de ser ouvida ao vivo, por sua longa duração e pela sua complexidade, acredito eu. À espera do show, observando os setlits da turnê, vi que havia uma chance de ouvir Civil War, e fiquei muito animado. Mas nunca pensei que teria essa sorte, a banda alternava a execução de Civil War com Mr. Brownstone conforme a cidade que tocava sem qualquer critério. Em um show tocava uma e no seguinte tocava outra. Ou seja, era pura questão de sorte. Quando aconteceu foi simplesmente inacreditável, pra dizer o mínimo.

slash e myles kennedy resenha sobre o show em porto alegre

Um tempo depois vi um tweet do Slash dizendo que o material novo estava ficando bom. Dois anos se passaram e li um preview de lançamento do novo CD, que apresentava o músico como um workaholic. Resolvi então que iria comprar o albúm. Quando dei o play, pirei. Era a primeira vez depois do fim do Audioslave que eu ouvia um hard rock novo. O meu tipo de rock preferido, um estilo que foi abandonado após os anos 90. Isso me obrigava a ouvir o mesmo som infinitamente. Por mais que eu gostasse, sentia falta de novidades. Ouvir um hard rock inédito me deu uma alegria imensa, me causou a mesma emoção de quando eu ouvi Guns n’ Roses pela primeira vez, foi um êxtase. O único ponto ruim é que as letras escritas em parceria com Myles Kennedy são muito fracas, servem apenas para preencher a música. A guitarra de Slash fala muito mais do que aquilo que é efetivamente cantado pelo vocalista.

Assim como no primeiro show, o meu ingresso era de área VIP. Para ver o Slash em Porto Alegre não poderia ser menos do que isso. Ao contrário do primeiro show, eu conhecia todas as prováveis músicas do setlist, a gigante expectativa criada após o surpreendente CD me fez ir atrás de todas as músicas que eles vinham tocando na turnê. Dessa vez Civil War não era uma possibilidade, mas agora eu já era fã não só do Slash, mas de toda a banda. Não fui ao show para ouvir apenas as músicas do Guns n’ Roses, ao contrário, esperava ardentemente por Wicked Stone e Too Far Gone, em especial, ambas do novo disco. Estava ansioso também por Anastasia, som do trabalho anterior que se tivesse sido composto na era de ouro do hard rock seria um sucesso estrondoso. Não é por nada que ela vem logo antes de Sweet Child O’mine. O riff de Anastasia é a pentatônica mais ridícula de todas, mas na mão de Slash soa como uma sinfonia.

myles kennedy and the conspirators com slash ao vivo

Slash, Myles Kennedy and The Conspirators satisfizeram todas as minhas expectativas. Ao notar alguns sorrisos honestos entre os músicos e para plateia, pude perceber que estavam se divertindo. Sentir isso é das coisas mais importantes em um show para mim. Representa que não é só pelo dinheiro. Assisti o show inteiro dançando ao lado de um cabeludo estático que eu não conhecia, o que achei estranho para alguém que pagou área VIP. Até que quase no final, nos olhamos por acaso, um sorrindo para o outro. A expressão em nossos rostos dizia: “é bem bom, né?” Fiquei tranquilo. Ele estava gostando tanto quanto eu.

A única crítica que eu teria ao show do Slash em Porto Alegre seria o intervalo no meio de Rocket Queen preenchido por ele com um solo muito longo, um pouco cansativo até. O improviso, assim como o instrumental Saffari Inn do novo disco deve ser uma cláusula do contrato com a gravadora para colocar Slash em evidência. O próprio guitarrista já afirmou que o seu nome no nome da banda Slash’s Snakepit havia sido uma imposição, o que me faz pensar que coisas assim sejam comuns. O longo solo era quase um looping, o que se via era apenas uma amostra de agilidade das duas mãos, sem nenhuma espécie de progressão que pudesse causar algum interesse em continuar ouvindo o improviso. Mesmo que fosse agradável aos ouvidos, nestas condições até o feeling acabou desaparecendo ao longo do solo, tornando-o um pouco massante.

Ao despedir-se de Porto Alegre depois de encerrar o show com a costumeira Paradise City e uma chuva de papel picado, Slash não teve coragem de desejar “boa noite” em português mesmo tendo disparado um “obrigado” minutos atrás. Antes que pudesse agradecer em inglês, divertiu-se admirado com a coragem de Myles Kennedy que mandou seu “boa noite” sem medo. Para compensar ele deixou um recado em português no seu twitter.

tweet em agradecimento após show do slash em porto alegre

Não sei o que diria se tivesse a chance de falar com Slash. Talvez dissesse apenas a frase mais importante do Guns para mim e adiada no show de sexta pelo interminável solo improvisado: “all I ever wanted was for you to know that I care”. Acredito que se um dia pudesse encontrar Slash, olhar para ele, apertar sua mão e dizer que “tudo o que eu sempre quis foi que você soubesse que eu me importo”, eu estaria satisfeito.

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