Exposição no Santander Cultural apresenta vida e obra de Simões Lopes Neto

Frames do filme da instalação composta para a exposição. Captura por Estação Filme.

Frames do filme da instalação composta para a exposição. Captura por Estação Filme.

Carlos Garcia

Tu entra num galpão. Um galpão típico  das estâncias do Rio Grande do Sul. Roda de carreta escorada na parede de madeira, sela sobre um cavalete e a caveira de um bovino fixada no pilar de sustentação. Pela cobertura meio destelhada, entra luz, formando figuras geométricas no soalho rudimentar. Lá fora, o campo. O verde da grama se estende até onde os olhos podem ver para, na linha do horizonte, se fundir com o azul do céu. Tudo isso está lá, no hall do Santander Cultural, bem no movimentado centro de Porto Alegre. Essa experiência faz parte da exposição Simões Lopes Neto onde não chega o olhar prossegue o pensamento. A mostra está aberta para visitação até 18 de dezembro e a entrada é gratuita.

O campo é onde Simões Lopes Neto viveu até seus 11 anos. Também o campo é onde Simões Lopes Neto ambientou sua obra. Mesmo que, no início da adolescência, tenha ido morar no Rio e, ainda durante a juventude tenha se estabelecido permanentemente em Pelotas, Simões tem uma ligação intrínseca com a vida campeira, ao menos, desde que criou Blau Nunes. O personagem é a representação mais fiel e profunda do gaúcho do campo. E é impossível pensar no escritor sem lembrar também do personagem. Por isso a exposição começa no campo e termina no campo. É no campo, ali no galpão, onde Simões e Blau Nunes se tornam um só.

Pela galeria lateral do museu, tu pode conhecer as origens de Simões. Sua família e a estância da Graça, onde viveu durante a infância, são os pontos necessários para que se possa entender tudo que vem depois. Suas mal sucedidas experiências como empresário e comerciante estão lá para contrastar com seu excelente trabalho na literatura, teatro e imprensa. Mas talvez o documento que mais chame a atenção seja uma foto em que Simões posa deitado no chão, abraçado a um cachorro. É uma imagem humana. Mais que a naturalidade dos sucessos e fracassos, é o momento íntimo que mais aproxima o mito das pessoas.

É justamente esse o objetivo da exposição. Ceres Storchi, curadora do evento, diz que a ideia é mostrar o homem Simões Lopes Neto. Mais do que isso: atingir uma grande diversidade de pessoas e, em especial, apresentá-lo a quem talvez nunca o buscasse ler. “A missão é levar o visitante a ver e exercitar o mundo de Simões Lopes Neto, perceber o tempo de sua existência e o seu legado como escritor”.

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Para expor com profundidade a vida e obra de Simões, foi necessário reunir uma documentação rica e delicada. Além do material da família e do Instituto João Simões Lopes Neto, a mostra contou com a documentação rara do acervo do dedicado Fausto J.L. Domingues. Manuscritos do escritor, cartazes de suas peças de teatro, álbum com recortes de jornal e correspondência, primeira edição dos livros, anúncios de suas atividades comerciais, além do icônico baú, que é uma mala recebida, em 1943, pela esposa de Simões, com o “espólio literário do escritor”.

Blau Nunes e toda a criação ficcional de Simões aparecem com uma tonalidade mais artística na exposição. Trata-se de uma viagem ao universo mítico das Lendas do Sul e ao ambiente campeiro dos Contos Gauchescos. As montagens tridimensionais com trechos das lendas fogem das margens das páginas para mostrar visualmente o cenário imaginado para histórias como a do Negrinho do Pastoreio, Mboitatá e Salamanca do Jarau. O percurso da mostra também é coroado inteiramente por ilustrações de Edgar Vasques.

Comprovando a importância da literatura de Simões Lopes Neto para o regionalismo, tu também pode visualizar, na mostra, um painel repleto de expressões originais do gaúcho campeiro. Todas elas cunhadas por Simões ao eternizar nos livros o homem do campo aqui do sul. E o mais legal é que tem disponível o “Vocabulário de João Simões Lopes Neto”, do Aldyr Garcia Schlee, para consultar sobre aqueles termos pouco comuns no cotidiano contemporâneo urbano.

A exposição marca os cem anos da morte de Simões, mas também aproveita para celebrar os 150 anos de nascimento completados em 2015. Por isso também está prevista uma série de atividades simultâneas. No cinema, será exibido o documentário Simões Lopes Neto nas Telas – Contos Gauchescos, nos dias 30 de outubro, 3, 5, 8, 10 e 12 de novembro, sempre às 19h, no Cine Santander Cultural. No teatro, será encenada a peça Negrinho do Pastoreio, em 3 de novembro, às 17h, na Praça da Alfândega, em frente ao Santander Cultural, e a peça Salamanca do Jarau, nos dias 19, 20 e 21 de outubro, às 15h e às 19h30 e 22 e 23 de outubro, às 18h, na Sala Multiuso do Santander Cultural. Também será apresentado o espetáculo circense Lendas – Tholl recria Simões, em 14 de novembro, às 19h, no Teatro Carlos Urbim (da Feira do Livro). O seminário “Simões Lopes Neto – 100 anos de memória” está marcado para os dias 21 e 22 de novembro, na Biblioteca Pública Pelotense (programação do seminário em AQUI). Todas as atividades tem a entrada gratuita.

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