Fabrício Silveira | Estética e política, confusão e magia em Roger Waters

Roger Waters em Porto Alegre (foto: Leo Caobelli/UOL)

Por Fabrício Silveira

Nunca fui fã de Pink Floyd. Terça-feira passada, no entanto, decidi ir ao show de Roger Waters. Três aspectos me chamaram a atenção. Primeiro, a tendência à grandiosidade, isto é, sua vocação para o público massivo, para se dirigir a ele (e, desse modo, criá-lo enquanto tal). A própria concepção do evento tem algo a ver com isso, ao denotar uma preocupação muito mais do que musical, num sentido estrito, mas audiovisual, sobretudo, funcionando como uma gigantesca performance de live cinema, e também – e isto não é menos importante – arquitetônica, dado que elementos cênicos decisivos se colocavam para além da tela (o sketch com os porcos, por exemplo, o descomunal porco inflável cruzando diante da audiência com a inscrição “seja humano”). Como efeito de uma conjugação de linguagens e artes da expressão – música, performance cênica, cinema e arquitetura –, temos assim um tipo de monumentalidade, um ambiente no qual se é convidado a imergir, uma verdadeira paisagem audiovisual, na tradição da obra de arte total wagneriana.

Um segundo aspecto que se deve salientar é sua tendência à beleza (a um tipo canônico ou clássico de beleza, diga-se), à legitimação de certos padrões tonais e melódicos, às sensações de conforto e acolhimento harmônico, à exploração de estruturas rítmicas cadenciadas, facilmente reconhecidas, em sua estabilidade, em suas alternâncias e variações, de certa forma, comuns (não, de todo, infrequentes na música pop).

O terceiro ponto diz respeito à lírica adotada, ao conteúdo das letras das canções. Mais exatamente, se refere à extensão das metáforas políticas que, por serem abertas demais, muito mais vagas do que se poderia esperar que fossem, se tornam “metáforas reversíveis”, capazes de significar muitíssimas coisas, até mesmo o oposto daquilo que se pretende dizer.

Não me espanta, portanto, a incompreensão (ou a armadilha) em que caem os fãs bolsonaristas de Roger Waters, atraídos, na forma, pela monumentalidade e pela beleza apolínea (características, aliás, da estética fascista, com a qual o artista flerta, tentando revertê-la, bloqueá-la ou redirecioná-la), e, no conteúdo, por um chamado inespecífico, não de todo claro, pronto para ser preenchido pelos anseios mais íntimos (as fantasias de liberdade e domínio) de cada um de nós. Em Waters, o conteúdo poético desmente a forma poética. Assim, a confusão e a magia se instalam.

FABRÍCIO SILVEIRA
Jornalista e doutor em Comunicação. É professor na Unisinos. Autor dos livros Grafite Expandido (Porto Alegre: Modelo Nuvem, 2012), Rupturas Instáveis. Entrar e sair da música pop (Porto Alegre: Libretos, 2013) e Guerra Sensorial – Música pop e cultura underground em Manchester (Porto Alegre: Modelo Nuvem, 2015), sobre sua experiência de pós-doutorado na Inglaterra, quando investigou a cena musical local.

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  • 28 DE MARÇO NOS CINEMAS