Fotografia e Urbanismo: Exposição de Tuca Reinés – O olhar vertical

Fotógrafo Tuca Reinés (esq.) ao lado do curador Agnaldo Farias / Foto: Caio de Carvalho Proença

Fotógrafo Tuca Reinés (esq.) ao lado do curador Agnaldo Farias / Foto: Caio de Carvalho Proença

Caio de Carvalho Proença

Porto Alegre recebe em Agosto uma exposição fotográfica de grande relevância para o público da cidade. No Santander Cultural, localizado na Rua 7 de Setembro nº 1028, Tuca Reinés expõe suas fotografias sobre vistas aéreas de diversas cidades brasileiras. Com curadoria de Agnaldo Farias, a exposição estará aberta para o público geral até o dia 30 de Agosto.

Enviado pelo Culturíssima no dia 3 de Agosto, tive a oportunidade de conversar com o fotografo e com curador Agnaldo Farias antes da abertura da exposição. A iniciativa de fotografar as cidades brasileiras iniciou em 2013, quando Tuca Reinés recebe a encomenda do Santander para realizar fotografias das cidades onde cada sede do segmento Select estaria localizada. Devido a diversas questões de direitos autorais, Tuca comenta que “surgiram algumas situações que já estávamos acostumados, como alguma pessoa utilizando a camiseta de um candidato, aquela pichação, os ônibus com anúncios publicitários etc. Então, sugeri a saída: fazer o ensaio no ar!”

O projeto tem um ano e dez meses de trabalho; mais de 87 mil quilômetros percorridos em 206,5 horas de voo de avião e helicóptero, e 343,5 km rodados em 49,5 horas de estrada. Em pouco tempo, o projeto ganhou um corpo fotográfico que superou as expectativas do grupo Santander. Segundo Reinés, o projeto já possui mais de 34 mil fotografias aéreas, e continua em andamento, transformando-se em um acervo sem precedentes sobre as cidades brasileiras do século XXI.

Exposição Tuca Reinés: O olhar vertical

Captação e Edição: Caio de Carvalho Proença

Tuca comenta que o produto final – em formato de livro – trouxe uma “visão mais clara da ocupação da cidade, uma visão urbanística, atual e importante para o trabalho. Consegue-se ver claramente a movimentação das cidades, para onde elas vão crescendo. Todas as cidades estão em obras, o Brasil inteiro está em obras! O trabalho tomou uma proporção muito grande, ultrapassando o campo da arte, da arquitetura, e tornou-se um gigantesco levantamento urbanístico das cidades do Brasil”. O trabalho de Reinés não se baseia em fotografias ao estilo cartão postal, com foco em pontos turísticos das cidades brasileiras, mas sim um olhar autoral sobre estas cidades (49 cidades foram fotografadas até então).

Porto Alegre foi a primeira cidade fotografada por Tuca Reinés durante o projeto. “A cidade é encantadora, não imaginava que a exposição viria para cá, pois até então o projeto não tinha o tamanho que tem hoje. Não esperava que, naquela época, em Janeiro ou Fevereiro de 2013, as fotos que estavam na minha mala, na minha máquina, viriam se tornar parte de uma exposição que pararia em Porto Alegre”, contou o fotógrafo.

Para conseguir realizar o projeto, Tuca passou por diversas situações peculiares, em encontro com pilotos de helicópteros que eram bons, e outros nem tanto assim. O fotógrafo comenta: “Você tem que ser maleável, porque fazer esse tipo de fotografia de helicóptero é como caçar: você vai olhando e… pá, pá, pá, vai caçando e vai fazendo”. A fala de Tuca, neste caso, nos remete a algumas questões que envolvem uma breve semelhança com o trabalho do fotografo de imprensa – em certos momentos –, pois há a necessidade de muita atenção, preparo e sensibilidade no olhar para capturar certas imagens. “A câmera fotográfica hoje é percebida quase como uma arma, por algumas pessoas. Então eu precisei tomar alguns cuidados na hora de fotografar, visando não infringir direitos autorais, e manter o trabalho coeso com a proposta da encomenda”, acrescenta.

abertura da exposição olhar vertical de tuca reinés

Tuca Reinés / Foto: Caio de Carvalho Proença

A composição e enquadramento das fotografias de Tuca nos carregam. São fotos que nos apresentam contrastes, sejam eles físicos e da geografia do local, ou sejam eles sociais – como as fotografias de Macaé, Fortaleza, São Paulo e São José dos Campos. Elas organizam o espaço ao possuir uma composição que privilegia linhas e contrastes, como as fotografias do Rio de Janeiro e Fortaleza. E direcionam nosso olhar, nos levando por uma verdadeira viagem pelas cidades brasileiras, nos apresentando sua natureza, avenidas e arranha-céus – como na fotografia de João Pessoa, Porto Alegre e Manaus.

Tuca Reinés, na conversa que tivemos, contou:  “Quando você está dentro do helicóptero, o que mais salta aos olhos é a arquitetura do local. Em quase todas as cidades, existe um ponto com uma arquitetura exuberante. A cidade tem sempre um troféu, por assim dizer. Pode ser um museu, a prefeitura, alguma universidade mais antiga, uma catedral, enfim. E sempre vemos os pingos brancos do Oscar Niemeyer nessas cidades, algo que me chamou a atenção depois de viajar por quase todo o Brasil. Sempre há aquela pincelada da arquitetura e, geralmente, o lugar onde está essa arquitetura é um local aberto, bem amplo. É quando você vê que o local respira um pouco, em meio ao caos urbano de várias cidades. Ali você vê o lugar que foi planejado, pensado.”

exposição olhar vertical de tuca reinés

Relação de contrastes entre Macaé, São Paulo, Fortaleza e São José dos Campos / Foto: Caio de Carvalho Proença

Durante a realização do projeto, Tuca vivenciou diversas situações, algumas engraçadas e outras mais sérias. “Você quase se pega com o sujeito lá em cima, porque há pilotos que são ótimos, e há outros que não são. É sempre assim, minha primeira opção é alugar um helicóptero que trabalha com emissora de rádio, de TV, em que o piloto faz isso muitas vezes por dia. Ele é treinado para captar imagens. Isso facilita o trabalho”, afirmou.

Mesmo após ter passado por situações onde o piloto não conhecia a cidade, ou voava pela primeira vez no local, o resultado da seleção de suas fotografias é muito interessante. O público que for visitar a exposição verá uma configuração bastante clara na diagramação da montada nas paredes do Santander Cultural, colocando fotografias de cidades que são distantes geograficamente, mas muito semelhantes em sua composição urbanística. Com a composição do fotógrafo, que possui nitidamente uma característica de procura por contrastes naturais e pontos de fuga para o olhar, algumas fotografias podem parecer ter sido feitas da mesma cidade. Esse é o caso das fotografias feitas em João Pessoa e Porto Alegre; Cuiabá e Londrina; Rio de Janeiro e Macaé; Manaus e Belém; Manaus e Niterói, dentre tantas outras que fogem do espaço físico disponível do centro cultural do banco, e estão presentes no seu livro O olhar em suspensão, da editora APC Brasil.

orla do rio de janeiro e fortaleza na exposição olhar vertical de tuca reinés

Relação de contrastes Rio de Janeiro e Fortaleza / Foto: Caio de Carvalho Proença

fotografia aérea de porto alegre na exposição olhar vertical de tuca reinés

Relação das cidades de Porto Alegre, João Pessoa e Manaus / Foto: Caio de Carvalho Proença

Rafael Urano Frajndlich, arquiteto e urbanista, doutor em história da arquitetura pela USP, comenta estas semelhanças entre a visualidade das cidades no Brasil. Para Rafael, “engana-se quem acha que as cidades do Nordeste são imediatamente diferentes daquelas do Sul do país: na imagem de Reinés, elas se apresentam ao observador, antes de tudo, como dúvida. Esse efeito revela o traço comum que reúne as fotografias apresentadas: independentemente da vegetação distinta, de ter uma malha urbana ortogonal ou seguindo a topografia e acidentes naturais”.

A proposta do fotógrafo também é a de uma certa denúncia, aos “tropeços” do urbanismo no Brasil e aos descasos em determinados lugares do Brasil. “O turismo no Brasil praticamente não existe, se trata muito mal os turistas no Brasil. E eu vi isso do alto – onde era jogado o lixo próximo de praias, aqueles conglomerados de hotéis que descarregar seu lixo em rios. Em outros países, o rio é considerado um lugar de prazer, de uso para a vida. Um dos lugares mais bonitos que eu vi em Manaus, por exemplo, é o lugar onde as pessoas guardam o gás, o lixo, que é em ambiente aberto. Se fosse um hotel, um bar, um belvedere ou restaurante, você veria um lugar fantástico sendo aproveitado”, menciona Reinés.

santander cultural apresenta exposição olhar vertical de tuca reinés

Exposição Tuca Reinés: O olhar vertical / Foto: Caio de Carvalho Proença

Tuca Reinés é paulistano e fotografa desde meados dos anos 1970. “Eu tive um interesse inicial pela fotografia um pouco antes de me formar em arquitetura. Mas acho que foi a arquitetura que me fez ir em definitivo para a fotografia. Quando me formei na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, em 1981, trabalhei durante um tempo como arquiteto, e logo depois percebi que a partir da fotografia meus projetos poderiam ser mais compreensíveis que uma prancha de execução, assim fotografava e apresentava a fotografia para clientes. Aos poucos o trabalho começou a dar certo dessa maneira, e passei a fazer fotografia profissionalmente”, relembrou.

Reinés publicou em revistas como Casa Vogue, Wallpaper e Wired, e também por suas publicações para a Editora Taschen. Entre os diversos livros publicados, destacam-se Tomie Ohtake obras públicas (2013), 10 anos do Hotel Emiliano (2011), pelo qual foi premiado com dois Leões de Ouro no Festival de Cannes, Bahia Style e Casas de São Paulo (ambos de 2009), Living Bahia (2008), Great Escapes South America (2004), Athos Bulcão (2002) e A arquitetura de Cláudio Bernardes (1999).

A curadoria da exposição foi realizada por Agnaldo Farias, professor doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, crítico de arte e curador. Atualmente Agnaldo é consultor do Instituto Tomie Ohtake. Foi um dos curadores da 11° Bienal de Cuenca, Equador, em 2011, e dividiu, com Moacir dos Anjos, a curadoria geral da 29° Bienal de São Paulo, em 2010.

curadoria de agnaldo farias na exposição olhar vertical de tuca reinés

Agnaldo Farias apresentando a proposta da curadoria / Foto: Caio de Carvalho Proença

“Normalmente não trabalho com curadorias individuais, mas nesse caso o Tuca fez quase 40 mil fotos, e aí era bom ter uma interlocução. Houve uma seleção pelo fotografo de cerca de 1.500 imagens, e com base nisto realizei o início do trabalho”, explicou Farias. O curador ainda lembra do caso de antigos naturalistas, que visitavam rios do Brasil sempre acompanhados por fotógrafos e artistas plásticos. “Aqui no nosso caso nós temos uma fusão, o arquiteto fotógrafo. Antes de iniciar o projeto, estava sendo pensado buscar um fotógrafo essencialmente documental, porém, chegamos ao consenso do Tuca, que irá fotografar as cidades do ponto de vista crítico, como um viajante que observa o Brasil de uma maneira singular.”

Para Agnaldo, o trabalho de Tuca Reinés perpassa o trabalho documental: “O trabalho de documentação parte de um certo pressuposto de uma leitura bastante objetiva, onde qualquer pessoa poderia conseguir aquela leitura. Porém, isto não é verdade, um documento também possui seu lado interpretativo, um olhar particular, e procurávamos isso ao entregar o projeto para Tuca Reinés, um olhar autoral e com uma interpretação própria.”

tuca reinés fala sobre sua obra na exposição olhar vertical

Tuca Reinés apresentando a obra / Foto: Caio de Carvalho Proença

Por fim, a proposta de Agnaldo é apresentada. “Não podemos deixar o futuro das cidades apenas para os urbanistas, na mão dos geólogos, na mão dos economistas, porque a vida no meio – para os especialistas – é uma visão segmentada, compartimentada, é uma visão esquizofrênica. Então, só a partir de trabalhos como esse é que se recupera uma visão mais global, mais ampla do processo. E mostra que nós estamos enredados nesse processo. O que acontece em Porto Alegre, é também de responsabilidade minha, mesmo morando em São Paulo. Como o que acontece em São Paulo, também é de responsabilidade do que acontece aqui em Porto Alegre. Enfim, tudo isso aqui é Brasil”.

A exposição, portanto, serve também para refletir sobre alguns aspectos do nosso cotidiano em ambientes urbanos. Tanto o curador quanto o fotógrafo propõem um olhar mais amplo sobre a preservação dos locais em que vivemos. Quem mora em Porto Alegre, deve se preocupar com a sua cidade, mas não esquecer também do restante do país. Se posicionar e se preocupar com o que acontece fora de seu ambiente cotidiano. Neste sentido, há uma certa procura de união do Brasil em um ambiente de caráter artístico. O posicionamento das imagens, e as propostas do fotógrafo e curador, visam uma certa unificação e conscientização de características das cidades brasileiras. Possuem também um caráter didático e de aprendizagem, quando o livro construído com base nas fotografias de Tuca será doado para diversas instituições de ensino do Brasil. A exposição possui uma durabilidade e um tamanho físico curto, com certos limites. Já o livro, foi criado de maneira a visar a sua durabilidade.

caio de carvalho

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