Oly Jr. | Como Bob Dylan me abriu os olhos culturais

Em 2016, Dylan foi premiado com o Nobel de Literatura

Em 2016, Dylan foi premiado com o Nobel de Literatura

Oly Jr.

Vou contar um troço que eu nunca contei pra ninguém, e muito menos postei no facebook, ou publiquei em algum espaço. Como Bob Dylan me fez enxergar um mundo de coisas na minha própria cultura, que eu pudesse usar como conteúdo artístico.

É preciso dizer que a minha escola musical é o blues. Aprendi a tocar violão através do blues. Escutava tudo que tivesse relação com esse estilo musical americano. Virou uma febre durante alguns anos. Chegou ao ponto de verter para o blues, toda e qualquer obra que eu me dispusesse a tocar. De alguma maneira tentava inserir uma estética bluesy, por assim dizer. Depois é que fui me flexibilizando e tentando absorver os conteúdos musicais nas suas formas estéticas, como o rock, a MPB, o folk americano, coisas do folclore brasileiro e do cancioneiro gaúcho. Essas coisas de escolher, ou ser influenciado no que diz respeito à condição artística é bem complexo, e cheio de nuances e desdobramentos sociais e humanos. O fato é que de tudo que me foi proporcionado em termos de música, principalmente via rádio, umas coisas me serviam de inspiração e exemplo, e outras não. Simples.

Quando eu era bem pequeno, ouvia de tudo um pouco. Já na minha adolescência o rock era a bola da vez. O “rock nacional” foi pra uma época o que a bossa nova já tinha sido, MPB, e outras febres. Em nível internacional, aquela estética new wave misturada com o rock, pra forjar uma pop music, reinava na minha infância/adolescência. Discos e mais discos eram consumidos, fitas K7 eram gravadas a esmo, e muito, mas muito tempo com um walkman no ouvido. O folclore gaúcho e brasileiro não tomava proporções midiáticas, a não ser quando algum figurão da indústria fonográfica regravava um tema como single, ou era usado numa trilha de novela. Não era algo que um jovem usasse como força motriz pra compor sua carreira musical, ou ouvir diariamente. Com certeza eu estava inserido nesse sistema, e até achava que escutando e tocando blues mal e mal, ia na contramão. Nesse meio tempo me chegaram alguns hits do Bob Dylan, mas não me tocavam tão profundamente. Meu lance era tocar nas rodinhas de violão, e tentar ser o diferencial, mesmo correndo o risco de ser limado da parada.

Bueno, os anos foram passando e eu estabeleci que iria ser músico, intérprete, tocador de violão, custe o que custar –  menos minha dignidade artística. Comecei a compor, formei banda, tocava em qualquer lugar desde que pudesse tocar o que eu realmente gostava. Fui me inserindo no circuito porto-alegrense e no mercado musical/fonográfico. E paralelo a isso eu ia ampliando meu vocabulário musical, usando muitos elementos que pudesse me servir como fonte pra compor alguma música, alguma imagem. E volta e meia me deparava com… Bob Dylan.

“Pra mim era difícil entender, de bate pronto,
como ele era exaltado no meio musical global,
cantando fanhosamente, tocando violão,
ou guitarra que mal se ouvia”

Até o dia em que eu encasquetei com o cara e com a sua música. Pra mim era difícil entender, de bate pronto, como ele era exaltado no meio musical global, cantando fanhosamente, tocando violão, ou guitarra que mal se ouvia, uma gaita por vezes desafinada, ruidosa, e sem nenhum apelo comercial, tanto na música quanto na imagem. Percebi que pra entender isso era preciso entrar de cabeça no universo do artista. Danou-se! Quase quis ser ele! Cada descoberta de uma canção, de uma tradução, de um fato, de uma lenda, de uma imagem de show, entrevista, era um momento mágico. Culminou que, coincidentemente após terminar a banda que eu fazia parte no início dos anos 2000, eu comecei uma carreira solo e gravei um disco extremamente bobdyleano. E assim foi. Durante 10 anos. Bob Dylan era um parâmetro e uma fonte inesgotável de inspirações paras as mais variadas possibilidades de criação.

Então, eu conhecia muita coisa de Mr. Dylan, mas não tinha entendido sua essência musical. Era um astro do show business que me despertou um interesse elevado. Na medida em que foram sendo lançadas biografias literárias e cinematográficas no Brasil, também foi me abrindo o horizonte em relação à obra dele, e atentando pra alguns fatores culturais e inerentes ao artista. Percebi que o que pra mim era global, universal, abrangente, descolado, inteligente, criativo, pro Bob Dylan tinha uma raiz muito definida, que era a american folk music. É claro que pra tudo que pudesse me influenciar, comparar e me fazer concluir, eu teria de guardar as devidas proporções. Principalmente no que diz respeito a indústria fonográfica, artística, do entretenimento, e o fator tempo/espaço. Mas mesmo assim, é inegável que sua força motriz, o elemento de maior apreço e importância, sua limitação, seu tempero, sua vivência, e sua dedicação em compor uma obra, vem do folk. Do folclore. Das suas heranças culturais. Country, blues, bluegrass, talk blues, música dos Apalaches, da Guerra Civil, canções de origem inglesa e irlandesa, baladas western, rock and roll, gospel, literatura, artes plásticas, pinturas… e por aí vai.

“Ele se configura no maior artista musical do século
passado e atual, porque simplesmente ele consegue
justamente percorrer uma linha do tempo imaginária,
compondo sua obra musical com uma variedade temática
impressionante”

Por mais que ele use elementos contemporâneos, ainda assim ele perpassa toda uma condição particular, com uma gama de influência que desembocam, ou voltam a uma nascente nativa e tradicional. No início da sua carreira fonográfica, assim como eu praticamente o imitava, ele reproduzia fielmente um artista chamado Woody Guthrie, e toda a estética musical da american folk music, mas que foi evoluindo pra uma condição artística intrínseca, com um olhar no futuro, mente no presente, mas memórias e heranças, com uma vivência calcada numa condição regional/nacional, e depois conhecendo o mundo inteiro por conta das turnês, e que tomou ares universais sem precedentes. Na minha humilde opinião, ele se configura no maior artista musical do século passado e atual, porque simplesmente ele consegue justamente percorrer uma linha do tempo imaginária, compondo sua obra musical com uma variedade temática impressionante, que vai do mais simples verso amoroso e cotidiano, ao mais alto grau criativo, abstrato, inventivo, metafórico, poético, transgressor, no que diz respeito ao seu idioma e à cultura pop.

Não é que resolveram dar um prêmio Nobel pra ele? No meu ponto de vista, tardiamente. E todo esse emaranhado criativo é materializado usando poucos elementos musicais. Apenas estruturas harmônicas e ingredientes até manjados, mas com uma pincelada aqui, outra ali, uma mudança discreta, ou menos óbvia em termos de acordes, e tá feita a brincadeira. O forte dele é mesmo a palavra, mas especial e extraordinariamente enriquecida por melodias pungentes, ou simples descarrego de palavras cortantes numa harmonia simples e corriqueiras, provenientes de seu aprendizado local, com um sentido de pertencimento aguçado, e um grande domínio das manifestações culturais de seu povo, assim como suas angústias, sonhos, descontentamentos e ufanismos, cacoetes e sotaques múltiplos, mas definidos. Bob Dylan é um belo exemplo da máxima de Leon Tolstói: “se queres ser universal, começa por pintar a sua aldeia”.

Para não me alongar mais: de uns tempos pra cá, Bob Dylan me fez olhar mais pra minha cultura, mas não como um fator fechado e limitador, como antes eu a via. E sim, como elemento agregador de toda uma gama de possibilidades pra se compor uma obra, ou um conceito artístico. Depois do blues e do rock, da estética folk americana, comecei a inserir o folk brasileiro, gaúcho, porto-alegrense, a milonga, o chamamé, a toada, comecei a tocar viola de 10 cordas, que é outro universo folclórico imenso, usar gaita de boca e a técnica do slide na milonga, ritmo do berimbau na viola, outras loucurinhas que entendo que possa se somar no meio, e pra arte contemporânea. Não piro mais em evitar o sotaque e terminologias regionais como condição de uma música ser aceita, ou entendida em todos os cantos do meu país, e outras cositas más. E mesmo hoje em dia, onde eu dedico parte do meu tempo em estudos de música e pedagogia no universo acadêmico, tudo que entra na cachola, por mais novo que possa ser em termos de informação, eu automaticamente agrego na minha condição artística e humana, sem nunca me distanciar das minhas heranças culturais, mesmo que filtradas por um senso crítico também adquirido, e por vezes modificado por conta das vicissitudes temporais e sociais.

OLY JR.
Músico/compositor auto-didata, atuante desde 1998 e ganhador de 4 Prêmios Açorianos de Música. É o autor da fusão “Milonga Blues”, misturando a milonga latino-americana com o blues norte-americano. Atualmente, além da carreira como músico, é estudante de curso de Música do IPA.

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