Resenha | Upgrade

Apesar de não contar com todo o hype e produção por trás do excelente Vingadores: Guerra Infinita e outros grandes blockbusters do ano, o longa Upgrade conseguiu a surpreendente façanha de se tornar um cult clássico instantâneo.

O longa utiliza uma história clássica de ficção científica sobre a relação homem-máquina e a reinventa de maneiras surpreendentes para elevar todo o gênero a um nível que nunca havia sido alcançado. A história começa no futuro próximo, onde a tecnologia avançou o suficiente para fornecer praticamente todas as necessidades e estar presente em praticamente todos os aspectos da vida.

Deixar todos esses benefícios nas mãos da tecnologia pode trazer muitas facilidades, mas também significa que ela tem uma dose muito maior de controle sobre a vida. Um fato que pode incomodar diversas pessoas.

É o caso do protagonista Gray Trace (Logan Marshall-Green), que prefere usar o mínimo de tecnologia possível e ganha a vida reparando os poucos veículos não-autônomos que ainda existem. Esses veículos raros, assim como seus custos de manutenção, podem alcançar preços astronômicos. Motivo pelo qual Gray tem contato com diversos clientes ricos e poderosos, como o magnata tecnológico Eron Keen (Harrison Gilbertson).

Quando Gray sofre um acidente e tem seu mundo virado de cabeça para baixo, Eron lhe oferece um implante cibernético experimental chamado STEM, que seria capaz de revólver todos os seus problemas e melhorar suas habilidades físicas e psíquicas.

STEM é o acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, as principais áreas de exatas responsáveis pelos grandes avanços tecnológicos das últimas décadas, o que faz com que o próprio nome do implante já indique de maneira sutil e direta o tema de evolução que o filme pretende tratar.

De RoboCop a Blade Runner, a ideia de aprimorar humanos com características de máquinas tem sido amplamente difundida nas últimas décadas e chegou a atingir vários domínios populares. Um dos maiores é o esporte, no qual existem vários incentivos para aumentar o desempenho além da capacidade humana. A variedade enorme de alterações pode ir desde a corrida, onde há conversas sobre pernas biônicas que aumentam a velocidade dos corredores, até o pôquer, onde já se falou até mesmo de criar um atleta robótico.

Upgrade coloca essas ideias em ação de maneira impressionante na telona. A movimentação de Gray muda à medida que os seus aprimoramentos começam a funcionar e o desenvolvimento das suas capacidades cibernéticas ao longo do filme gera algumas das sequências mais incríveis e inventivas já filmadas.

A maneira que o ator Marshall-Green se move e executa os diversos golpes é algo que nunca foi visto antes e é fácil acreditar que realmente se trata de um humano com capacidades aumentadas.

O principal grupo de antagonistas, composto por outros ciborgues com suas próprias modificações sobre-humanas, também traz diversas cenas de ação completamente inovadoras e inusitadas. Além disso, mesmo que os argumentos levantados por eles sobre o potencial do transhumanismo sejam relativamente rasos, as implicações do que eles propõem tornam a trama muito mais interessante de um ponto de vista filosófico.

Isso eleva muito a qualidade da obra. Especialmente considerando o final explosivo repleto de reviravoltas impressionantes e inesperadas, que obviamente não convém estragar.

Dirigido por Leigh Whannell, a trama e execução de Upgrade lembram menos as obras recentes de Charlie Brooker (Black Mirror) e se aproximam mais de uma versão aprimorada dos melhores trabalhos de John Carpenter (O Enigma do Outro Mundo). A fotografia do filme mostra um mundo que parece saído diretamente das páginas de um dos contos futuristas de William Gibson, com cenários e personagens secundários que contrastam a alta tecnologia disponível com a baixa qualidade de vida.

Em um mundo que já conta com Black Mirror e deve ver o relançamento de Além da Imaginação, é ótimo ver que a telona ainda é capaz de produzir longas que ultrapassam os limites técnicos e filosóficos que a ficção científica oferece.

Apesar de ter sido lançado sob o radar nos Estados Unidos e ainda não contar com uma data para o lançamento oficial no Brasil, Upgrade é um clássico instantâneo que merece ser conferido por qualquer um que se interesse pelos temas tratados.

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  • 28 DE MARÇO NOS CINEMAS