Aceleração destrutiva

Fabrício Silveira

Do inglês, o termo “accelerationism” é um termo difícil. Soa mesmo estranho. Parece quase intraduzível. Poderia ser entendido como “aceleracionismo”. No entanto, nos últimos anos, é um termo que tem aparecido com relativa frequência no campo das Ciências Sociais críticas e tem suscitado oportunos debates. Provavelmente, retornaremos a ele nos próximos meses.

Trata-se da compreensão emergente de que o capitalismo neoliberal precisaria ser implementado em todas as partes do mundo, expandindo-se ao extremo, e encontrando, enfim, como consequência última, sua própria destruição. Ou seja: o único modo de sobrepujar o regime capitalista, vencendo-o, superando-o, seria extinguindo-o por radicalização, por acentuação e desenvolvimento desenfreados.

Ocorre que, aqui, no caso, os críticos “aceleracionistas” – dentre eles, Benjamin Noys, Alex Williams, Nick Srnicek e Steven Shaviro, todos com posições pessoais, muito nuançadas – aceitam certos pressupostos e certos procedimentos dos defensores do sistema dos mercados globais, conjugando-os com intenções dramaticamente distintas. Na verdade, há um retorno a certas raízes da teoria marxista e à crença, agora renovada e refeita, de que o avanço para a sociedade comunista se dará por dentro da máquina, por intermédio do próprio sistema capitalista.

As contradições de classe, a convulsão social, a experiência da crise (política ou financeira), o esgotamento dos recursos naturais, a sensação de insegurança e volatilidade dos direitos adquiridos tornaram-se, cada vez mais, condições de existência do modelo econômico em que vivemos. As forças que impulsionam o desenvolvimento do capital seriam reguladas por contra-forças internas, que garantiriam sua estabilidade e sua expansão permanentes. Porém, quando liberadas de sua função de regulação dialética, tais forças produziriam o colapso, abririam caminho para uma nova sociedade alheia às determinações do capital.

É um debate difícil, que revive anseios utópicos, que redimensiona a crítica social (de acento filosófico, moral ou ecológico) e que, com certeza, merece atenção especial e abordagens mais aprofundadas (ver Shaviro, 2015). Será pauta para discussões futuras.

Referência bibliográfica
SHAVIRO, Steven. No Speed Limits. Three essays on accelerationism. University of Minnesota Press: Minneapolis, 2015.

Fabricio

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