O idioma próprio de Cássio Pantaleoni

Carlos Garcia

Respire. Esse é o aviso estampado na página que antecede o primeiro conto do livro De vagar o sempre, de Cássio Pantaleoni. E é fundamental que o leitor o respeite, porque vai precisar de fôlego. Não que se trate de uma narrativa exaustivamente extensa. Ao contrário. São oito histórias breves. Mas é preciso respirar para não se afogar no tsunami da linguagem inovadora do autor.

Capa-De-vagar-o-sempre`Cassio Pantaleone

Não é fácil, já no primeiro conto, entrar de cabeça da história. É necessário rodear em volta, observar, reconhecer o terreno. A probabilidade de ficar nervoso não é pequena. A impenetrabilidade no texto gera uma apreensão até que se consiga encontrar a chave que abra as portas para esse estilo próprio. Mas vale a pena resistir e insistir até que se quebre a barreira desse idioma próprio. Quando o leitor decodifica e compreende a linguagem de Pantaleoni, visualiza um universo de histórias magníficas. Verdadeiras crônicas de um cotidiano inimaginável.

Começa lá com a Perolinha, personagem principal do primeiro conto. É a guria que mostra o quanto pode ser natural a sinuosidade da linguagem. Se o autor busca, para o texto, uma nova forma de escrever, Perolinha busca, para o diálogo, uma nova forma de falar. E é a partir dela que se consegue entrar nos enredos seguintes.

Só que o leitor não pense que, após aprender a ler, desfrutará de prazer. De jeito nenhum. Se o escritor quisesse facilitar no conteúdo, não precisaria ter buscado a forma em profundezas tão remotas. São todos contos inquietantes. Apresentam algo de sobrenatural, mas mostram, acima de tudo, as cruezas da vida.

A infância é figura presente, se não em todos, ao menos em quase todos os contos, seja como protagonista ou coadjuvante. Pode haver aí qualquer coisa de nostalgia. Mas, para além disso, representam grupos de excluídos. É o caso da própria Perolinha, que não fala como as outras pessoas, da Daunzinha, que o nome já explica, da Sibiline, que chorava vento, da órfã Anaflor, cheia de medos e curiosidades, e da pobre Maricota, refém da violência na família. Todas histórias que põe o leitor a refletir sobre as diferenças, exclusão e problemas que jamais deveriam ser vistos como corriqueiros.

Os contos são atemporais. Mesmo assim, muitos deles, em razão das questões abordadas, são perfeitamente sincronizados com a realidade atual. São, também, aterritoriais. Ou se passam em lugarejos fictícios. E são, ainda, histórias que pouco ou nada tem de ação. Nem de reviravoltas surpreendentes. A beleza e a profundidade estão justamente nessa leitura lenta e, embora tensa, calma.

A exceção fica por conta de Sessentastranhos. Esse, sim, bem localizado em espaço e tempo. E com um texto bem mais próximo daquilo que estamos acostumado, ainda que guardando as características do autor. No conto, o leitor faz uma viagem à Passo Fundo dos anos sessenta, à véspera do golpe militar. Por mais que apresente um caráter histórico, é incrível a atualidade do conteúdo. A bipolarização política extrema e a intolerância, tal como hoje, sufocam as urgências do cotidiano.

Para escrever De vagar o sempre, Cássio Pantaleoni demonstrou que não escolheu o caminho mais fácil. Da mesma forma, o leitor que quiser beber dessa água, deve saber que não trilhará o trajeto mais cômodo. Cenas simples, e até toscas, se transformam, em poesia ao passarem pela caneta do autor. Mas é importante lembrar: antes de começar a leitura, respire.

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