Entrevista | A trilha por onde vai Arthur de Faria

(foto: Andre Feltes)

(foto: Andre Feltes)

Luiz Paulo Teló

Em março de 2015, quando este site entrava no ar, a primeira entrevista que publicamos foi com o músico, jornalista e escritor Arthur de Faria. Agora, pouco mais de dois anos depois, repetimos a dose. E o bom, é que sempre fica a sensação que há outros mil assuntos que poderíamos ter conversado com o cara.

Desde a primeira entrevista, algumas coisas mudaram na vida de Arthur. E foram essas mudanças que motivaram esse segundo papo. Vamos a elas: você não vai mais ouvi-lo no programa Cafezinho, da Rádio Mix (antiga PopRock), do qual ele fez parte por mais de 15 anos, e tampouco na rádio e na TV Ulbra. Outra coisa: Arthur de Faria & Seu Conjunto encerrou suas atividades. Mas já há uma outra banda, formada só com músicos mais jovens (jovens mesmo), que é Arthur de Faria & Orkestra do Kaos.

Tem mais. Nos últimos dois anos, Arthur passou um tempão em São Paulo, entre outras coisas, em temporada com os espetáculos A Comédia Latino-America e A Tragédia Latino-Americana, dos quais executa a trilha ao vivo. Ambos são elogiadíssimos pela crítica, e o músico considera que seja o seu melhor trabalho. Ah, e lançou o seu primeiro álbum no digital, a trilha do filme Insolação. E lançou uma biografia da Elis Regina. E assistiu e nos contou o que achou do filme sobre a Elis, estrelado pela Andreia Horta – que acabou virando sua amiga.

Culturíssima: Tu saiu da rádio Mix e também da Ulbra TV. Como foi essa decisão e como isso impacta ou tem impactado na tua carreira como músico?

Arthur de Faria: Isso é muito engraçado, porque pra muita gente, falando de Porto Alegre, pra imensa maioria das pessoas que me conhecem, me conhecem por causa do rádio. Ao contrário do que acontece nas duas cidades que hoje eu mais trabalho, que é Buenos Aires e São Paulo, lugares em que ninguém sabe que tinha ou tive alguma ligação com o rádio. Eu saí da rádio em dezembro de 2015, e fiquei trabalhando na TV até maio. E aí por causa de problemas de confusão contratual, de ter que ser demitido em uma empresa para ser contratado na outra, esperar seis meses e tal, tive que sair para depois voltar, mas aí não deu mais vontade de voltar [risos]. Era a chance de fazer o que eu sempre acreditei e sempre fiz mais, na verdade, que é música. Eu nunca me senti um cara de rádio, nunca fui um cara de rádio, nunca me peguei pensando “nossa, que legal que é fazer rádio”. Pouquíssimas vezes me incomodou, até porque a maior parte do tempo, e foram 23 anos na mesma rádio – e 23 anos que pra mim sempre foram provisórios -, mas nesses anos sempre me dei muito bem com todo mundo. Sempre foi um ambiente de trabalho muito bom, e isso tem muito a ver com o Mauro [Borba], que foi meu chefe esse tempo todo e sabe criar esse bom ambiente. Mas o perfil [da rádio] foi mudando muito. O próprio perfil de quem ouve rádio mudou muito. É engraçado, porque, de repente, as coisas que tu podia trazer, que agregavam valor, não faziam mais sentido em uma rádio de formato tão pop. Nunca fizeram muito, né [risos], mas era um contraponto interessante. Foi aí que o Mauro me propôs que passasse para a TV, lugar que nunca tinha trabalhado. Foi uma experiência curta e ótima, com uma equipe pequena, e super legal, com gente legal. Todos mais bem informados do que eu, então teve essa coisa de desafio, de retomar essa coisa do jornalismo que tinha largado há tempos.

Seguindo nessa história de términos. O Arthur de Faria e Seu Conjunto também encerrou atividades. Por quê?

É, também em 2015. Ah, foram 20 anos, e todo mundo fazendo outras coisas. E também tinha essa coisa: sempre quem mais gostou, os nossos fãs mais ferrenhos, sempre foram nós mesmos [risos]. A gente fez um bocado de coisas, lançamos cinco discos, estamos finalizando o sexto, tocou em um monte de lugar, viajou bastante e tal. Mas nunca foi uma coisa que tivesse um público… “Nossa, um monte de gente triste porque acabou”, não. Não fez muita diferença nem pra nós. Era uma coisa muito de amizade, todo mundo segue muito amigo, e tem um momento que tu sente que a coisa não tem mais muito para onde ir, e talvez se as pessoas insistirem naquele negócio, vão começar a se estressar umas com as outras. E trabalhei com todos novamente, desde então, e sigo vendo todos. É uma gente muito querida. E uma coisa que aprendi com o Wander Wildner – estou há 10 anos tocando com ele – é tentar tornar as coisas mais viáveis. Então, é fazer bastante show solo e ter bandas em lugares. Então comecei a montar uma banda em São Paulo, que são mais ou menos os mesmo músicos, tenho ido para outros lugares, fazendo shows solos e convidando pessoas. Experimentar outros formatos. Montei uma banda aqui também, e como ano passado foi muita loucura, viajei muito, passei praticamente seis meses fora se juntar tudo, a gente não conseguiu focar tanto. Vamos começar a focar mais nesse ano, que é a  Orkestra do Chaos, que é com uma gurizada. Pensei assim: passei 20 anos sendo o cara mais novo da banda, então resolvi montar uma banda em que eu fosse mais velho que todo mundo. Pelo menos com idade suficiente para ser pai de todo mundo. Vou fazer 48, e os meninos mais velhos têm 28 anos. Isso é interessante, e o que eu gostei muito, é que te traz um outro tipo de informação. Estamos convivendo bastante. E os mais novos, principalmente, o Erick Endres, que tem 19, e o Lorenzo Flach, que tem 21, trazem um tipo de informação muito interessante, que é o mesmo tipo que a minha filha me traz, e que agora está cantando na banda também, e tem 18. É um tipo de música que eu não ouviria, e acabo descobrindo muita coisa muito legal. Esses dias, em uma ensaio, conversando com eles, disse que me dei conta que a última coisa que acho absolutamente do caralho, da lista das coisa que acho mais afudê no mundo, já escuto há 20 anos, que é o Radiohead. O Erick começou a rir da minha cara: “Bah, tio, sério?”.

Então, acompanhei teu post no Facebook sobre isso. Tu pediu para as pessoas indicarem coisas fodas. Encontrou?

Pois é, a coisa mais afudê que encontrei foi escutar as novidades do cara do Mars Volta, que acho que não conta como coisa nova. Eu queria muito não ter ficado apegado ao que é o “teu tempo”, que é até os 30 anos de idade. As pessoas tendem a gostar pra sempre, na vida, das coisas que ouviram até essa época. Gosto muito do Kendrick Lamar, mas não sei até que ponto. Esse disco novo dele, não achei o bicho. Todo mundo achou a coisa mais maravilhosa, e o anterior acho muito mais legal. E tem outros caras, tipo Kamasi Washington, que é um saxofonista de jazz, malucão e tal. Tem muitas coisas que acho legais, mas o problema é achar coisas para colocar nessas lista das coisas das quais eu não poderia viver sem. E não sou saudosista. Acho que a produção hoje é incrível. Recentemente fui colocar minha conta de Spotfy no telefone, e nunca tinha feito uma playlist. Tinha duas que tinha pegado lá, prontas, que eram do Charly Garcia e do Bach [risos]. Aí, cara, era uma da manhã de segunda-feira, comecei a fazer uma lista e quando olhei já era 4 da manhã. Estava há três horas fazendo playlist de coisas que nunca tinha ouvido. Aí fiquei pensando que era um milagre tão grande que alguém escolha um disco teu pra escutar, no meio dessa oferta absurda de coisas, que é quase como cair um meteorito na nossa frente.

Aliás, vocês ainda estão gravando o último disco do Arthur de Faria e Seu Conjunto, né? Estão trabalhando há bastante tempo…

Na verdade a gente trabalha um pouco e para um tempão [risos]. Mas gravamos, todo mundo junto, em três dias, no final de 2015. Ou no começo de 2016, não me lembro agora. Fomos para o estúdio da Loop Reclame, e gravamos teclado, guitarra, baixo, bateria e voz guia, tudo junto, e alguns sopros de guia, com o Gustavo Breier, que é um cara com quem sempre trabalho. E aí parou, porque logo em seguida acabou a banda. A gente foi dando um tempo e foi todo mundo fazer outras coisas. Só fui pegar isso de novo um ano depois, e estamos agora nesse tempo todo gravando participações, para terminar o disco. Agora, em fevereiro e março gravamos o que faltava da banda, gravamos os sopros, gravamos com o Hélio Flanders, com a Paula Mirhan, da Filarmônica de Pasárgada, com a Cida Moreira. Já tínhamos gravado com uma cantora de São Paulo que gosto muito, que é a Rhaissa Bittar, com o Lumineiro Salve Salve, do Mustache e os Apaches. Tem muita participação. A ideia é terminar esse ano, e estamos pensando já em um crowdfunding, porque eu queria lançar ele em viníl. Mas antes disso, quero lançar o primeiro EP da Orkestra do Kaos, que o Gustavo também está mixando, e também foi gravado lá na Loop. Foi gravado ao vivo, no estúdio, começo do ano passado, numas de só ter um registro. Fizemos um clipe de uma das músicas e não ouvimos mais nada. Aí em janeiro deste ano, o Erick pegou o material para ouvir, e veio me dizer que estava muito afudê. A gente não lembrava que tinha ficado tão bom. Aí gravei mais algumas coisas, minha filha gravou uns vocais e colocamos alguma coisa de percussão, fagote em uma das músicas… e agora o Breier está mixando. Deve sair um EP virtual, com seis músicas. E depois quero lançar um outro com quatro músicas inéditas com os guris. Aí sim, depois, lançar um disco. Não sei se físico, ou só virtual.

Lancei agora há pouco, pela primeira vez na vida, um disco virtual, com a trilha do filme Insolação. Desde 2009 a gente estava nessa. A gente gostou muito do resultado de som. O de música eu não falo, os outros que têm que falar, mas o resultado de som ficou impressionante. Quando a gente entregou a trilha para a Miriam Biderman, que é uma das melhores finalizadoras de som do cinema brasileiro, ela nos falou: “Sabe que isso não está acima, mas está muito acima do que costumo receber”. Eu disse claro, que trabalhamos muito pra isso. E aí fui para o banheiro ligar pro Gustavo Breier: “GUSTAVO, NÃO ACREDITA O QUE NOS DISSERAM!” [risos]. Então esse disco eu tava querendo muito lançar, mas putz, ficava pensando, é a trilha de um filme que não foi um sucesso, um filme cabeça e tal. Ninguém vai comprar esse negócio. Daí o Edu Santos, da Loop, me convenceu em lançar o álbum de forma digital. Mas é uma sensação muito estranha pra mim. Fico querendo queimar um CD e colocar em uma capinha para pelo menos ter um [risos]. Sei lá, ao mesmo tempo que CD é um troço que não vende mais, mesmo. Muito pouco.

Tu tem viajado bastante, trabalhado muito fora daqui. Pensa em sair de Porto Alegre, morar em outra cidade?

Vontade eu não tenho, mas são coisas que eu penso. São Paulo, Buenos Aires e agora, que fui pela primeira vez, para Portugal. Fui para trabalhar e para passear, e ambas as coisas foram maravilhosas. Foi a primeira vez que pensei em ir para um lugar tão longe. Em Portugal não conheço ninguém, é muito diferente de ir pra São Paulo ou Buenos Aires, que seria só dar continuidade para uma carreira que já existe. Mas sei lá, são coisas que eu penso. Quero fazer um doutorado. Já me inscrevi, e a ideia é passar um ano fora, para dar uma pensada. Hoje, é muito mais fácil tu morar em outro lugar, muito por essa coisa de estar sempre conectado. O que aconteceu, de uns anos pra cá, é que as passagens aéreas encareceram muito. Eu até brincava que a protetora dos músicos era a Nossa Senhora da Passagem Barata. Minha dupla com o Omar [Giammarco] é bem isso. Ele vinha e voltava o tempo todo da Argentina, a gente gastava 400 reais. Hoje dá mil e 300. A gente fez agora esses shows pequenos, e antigamente a gente saia com um dinheirinho. Esse último a grana foi toda pra pagar a passagem. Então isso está mais complicado. Um ano e meio atrás era mais fácil. Pegava um avião, ia para SP, fazia um show pequeno para 45 pessoas e ainda ganhava um dinheiro. Agora tem que ser muito bem pensado.

Por outro lado, tenho trabalhado cada vez mais com trilha de filme e trilha de teatro, que é o negócio que mais fiz, e gosto muito de fazer. Gosto de trabalhar sob encomenda. E esse é um mercado que tu não precisa sair muito de onde tu está para trabalhar. Pro teatro sim, né. Ano passado passei 5 meses em São Paulo, em temporada. Mas para filme não. Fiz a trilha de dois filmes ano passado, e agora estou trabalhando em mais três. Tudo por aqui, até porque é mais barato, dá pra gravar em melhores condições por menos custos.

Então, agora no início do ano tu ficou 30, 40 dias na Europa, com o espetáculo  A Tragédia Latino-Americana, e tem também A Comédia Latino-America, que igualmente foi super elogiada pela crítica. Como foi essa experiência?

Na verdade eu que fiquei tudo isso, passeando. Mas a gente ficou, com os espetáculos, uma semana na Alemanha, ensaiando e apresentando, e duas semanas em Portugal. A Tragédia, em particular, que estreou no começo do ano passado, é um negócio muito impressionante. Cada uma das peças tem três horas e meia. Na Comédia, são duas horas e vinte de música. Na outra, um pouco menos, acho que uma hora e meia de música. A primeira é toda composta, encaixada, quase como trilha de filme. Na segunda, é quase toda ela improvisada. Mas A Tragédia teve uma coisa de repercussão de crítica muito impressionante. Agora o Felipe Hirsch ganhou o Prêmio Shell de Direção, a peça ganhou o Prêmio Bravo de melhor espetáculo do ano passado. Então os dois convites que vieram, foi de gente que foi assistir. Um alemão, curador de um festival, que estava em São Paulo e assistiu ao espetáculo. Foi a primeira edição desse festival, que chama Adelante, só com cultura e teatro latino-americano, em uma cidade pequena da Alemanha, que é Heidelberg. Mas é uma cidade que vive em torno de uma universidade que tem 800 anos. E a repercussão da peça lá foi incrível, aquele tipo de coisa que a gente não está acostumado, das pessoas ficarem batendo palmas, aí tu volta, vai embora e as pessoas continuam batendo palmas e tu volta. A peça termina meia-noite e meia, e no dia seguinte tem crítica em quatro jornais. O tipo de coisa que não me lembro de ter tido aqui no Brasil. Foi impressionante, e em Portugal a mesma coisa. Foi em um teatro da prefeitura de Lisboa. A diretora do teatro também viu a peça em SP. E já tem pelos menos outros três países que a gente também deve ir logo. Agora, é uma estrutura imensa. São 25 pessoas viajando e 104 blocos de isopor de 1,5 x 2 m, banda com um arsenal de instrumentos. É uma empreitada, mas eu adoro fazer teatro.

Bastidores "A Tragédia Latino-Americana" (foto: Arthur de Faria/Facebook)

Bastidores “A Tragédia Latino-Americana” (foto: Arthur de Faria/Facebook)

Uma dessas peças pode vir pra cá?

Já se falou nisso várias vezes, mas nunca rolou por causa disso, porque é muita gente, muita estrutura. Até a coisa do cachê não é tanta, mas a estrutura é grande, é muita gente, a quantidade de equipamento de luz e som é gigantesca. É muito equipamento. E consegui montar uma equipe. O Gustavo Breier é o operador de som e responsável técnico de toda a companhia [Cia Ultralíricos], já fizemos seis espetáculos juntos. Ano passado, nestes dois espetáculos, levei o Adolfo Almeida Jr., tem o Pedro Sodré, guitarrista, que é um cara que também compõe trilha, a Mariá Portugal, baterista e percussionista. E consegui levar a Simone Rasslan, daqui, para fazer a preparação vocal do atores. Porque é pegar um monte de ator que não é cantor, não tem formação de musical, e botar os caras para cantar. Isso foi o maluco da Tragédia. A gente já vinha trabalhando nela, aí tipo uns 45 dias antes, o Felipe foi em um show meu, e eu ia voltar no outro dia para Porto Alegre. Terminou o show e ele: “Arthur, tu não vai voltar, porque acabei de decidir que a Tragédia vai virar um musical. Tu vai botar música em tudo e os atores vão cantar muitas coisas. Vamos ter que fazer eles cantarem”. Tudo tem a ver com as condições em que tu trabalha. Lá a gente é contratado. Os espetáculos foram bancados pelo Sesc SP, então os atores recebem um salário para ensaiar. Aí tu ensaia 10 horas, 8 horas por dia, durante muito tempo, e consegue um nível de profundidade no trabalho. É sempre maluco, porque a forma que o Felipe trabalha é maluca, ele fica sempre mudando coisas. A Comédia, por exemplo, fizemos 24 apresentações, e só as últimas quatro foram iguais. As outras todas mudaram. Mudava de um dia pro outro. É um tipo de trabalho que tem que ter uma equipe azeitada, com gente que goste muito de trabalhar uns com os outros, sem ninguém mala, ninguém estrela, todo mundo pegando junto. É um trabalho que eu amo muito. A Tragédia, em especial. Se fosse para escolher a melhor coisa que já fiz na vida, acho que é a música desse espetáculo.

Tu é biógrafo da Elis Regina, lançou livro no final de 2015. O que achou da cinebiografia lançada recentemente?

Gostei bastante do filme, embora eu concorde com os críticos, com relação a muitas coisas que não tem no filme. A única coisa que realmente me incomoda é não ter é Elis & Tom. Acho ruim não falar do Milton Nascimento, não falar do João Bosco, mas não chego a achar grave para o andamento do filme. Mas  Elis & Tom é importante, porque tira ela de um lugar onde ela estava, de cantora popular, nos dois sentidos da palavra, para colocar ela em um negócio de “opa, essa cantora… é uma cantora também sofisticada”. Dá uma mudança na carreira dela, que musicalmente foi muito melhor, mas que em termos de público, foi ruim. Ela começou a ficar mais sofisticada e a vender menos discos. Enfim, gosto do filme. Ele é bem careta, mas não me incomodo com biografia careta. Acho legal, essas biografias que contam história com começo, meio e fim. Acho que tudo bem. E o que realmente me derrubou e me encantou, e me fez passar por cima de tudo que me incomodava, é a Andreia Horta e o Caco Ciocler. Os dois estão inacreditáveis. É assombroso o trabalho. E eu trabalho com o Caco, ele faz parte do elenco da Ultralíricos, e ele não toca piano! Ele estudou para fazer aquilo no filme, e é impressionante. Eles dublam, né. Tanto a Andreia dubla a Elis quanto os músicos dublam as gravações. Mas é em um nível de perfeição que eu olho e me convence 100%. E, assim, eu vi muitas, muitas, muitas horas de Elis Regina, tem muito no youtube. A Andreia está impressionante. Depois acabei conhecendo ela, ela foi no lançamento do livro. Nos encontramos em Portugal também, depois foi em um show meu lá no Rio de Janeiro. Acabamos pegando amizade, ela é uma querida, e me contou que era obcecada pela Elis desde criança.

//

Áudio:

Arthur fala sobre política e classe artística

//

Há uns 10 ou 15 anos, a gente não ligava muito se músicas antigas abordassem certas situações de forma machista, homofóbica, etc. Tu escreveu sobre isso há algumas semanas no facebook. Como tu tem lidado com isso?

Eu estava falando especificamente do Paulo Vanzolini, que eu nunca tinha ouvido muito. Aí fui ouvir um álbum quádruplo que saiu dele, há muitos anos. Realmente, tem músicas muito boas, mas me chocou muitas coisas muito machistas. Não propriamente machistas, mas violentas contra a mulher, misóginas mesmo. Que o Noel Rosa tem, mas ele sempre se salva pela coisa do humor. Então eu postei aquilo, e vários amigos, todos paulistas, porque o Vanzolini é paulista, vieram argumentar, perguntando se era realmente muito diferente de outros compositores da época. Aí comecei a pensar… Será que mudamos muito a escuta disso? “O teu cabelo não nega, mulata / Porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata / Mulata, eu quero o teu amor”, será que se eu ouvisse essa música pela primeira vez hoje, eu ia achar engraçadinho? Não sei o que pensar sobre isso. Por um lado é chato, por outro lado é bom. Sei lá. Acho muito complicado tu julgar um outro tempo pela tua ótica, ou outro lugar, como a visão que as pessoas têm do mundo islâmico. Tem uma discussão forte agora, sobre o lugar de fala do sujeito. Minha filha, por exemplo, que está fazendo psicologia, falando esses dias: “Pai, sou mulher, mas não sou negra. Não tenho a menor condição de opinar sobre essa vivência, porque é muito distante da minha vida, assim como tu não tem condição de opinar sobre vivência feminina”. Então é assim, apoia é não dá palpite. Acho que é um discurso que é importante que exista nesse momento, para se chegar a algum meio termo.

Fico muito impressionado com a diferença de geração. Tenho muitos amigos por volta dos 35 anos. Tenho uma enteada, que é minha filha mais velha, de 35 anos. E vejo que essa geração que tem entre 30 e 40, é muito próxima da gente. Agora, essa geração de 20, 25, a diferença é absurda. Acho que teve um avanço muito grande, com questões de preconceito de raça, gênero, sexualidade. O que pra gente é discurso, pra eles me parece já ser uma discussão resolvida. Claro, não para todo mundo, obviamente. Ainda mais com essa recaretização do mundo, mas acho que muito do que vai segurar isso, é a forma como essa geração está pensando.

Adicionar a favoritos link permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>