O centenário de Roland Barthes

Fabrício Silveira

Tive um professor que fumava enquanto dava aulas. Penteava muito bem os cabelos, deixando a testa sempre à mostra, a franja puxada para trás, num volume que se dissipava conforme fôssemos, a partir dali, chegando à nuca pelo lado esquerdo da cabeça. Ele se vestia muito bem, como convinha aos dias frios. Eram vestes adequadas à sacralidade respeitosa e à nobreza secular dos ambientes acadêmicos. Usava gravatas. Não era o dono da melhor caligrafia que conheci. No quadro negro, as letras que anotava me pareciam desequilibradas, trôpegas – às vezes, muito próximas –, dispostas numa leve descendente. Junto, apareciam setas, flechas desenhadas, que davam outra ordem ao discurso. Assim, esclareciam-se os sentidos das palavras e os caminhos que elas trazem.

Mas eu gostava mesmo era de vê-lo apagar o quadro, como quem pinta uma parede, com pressa, descuidado, deixando para trás os rastros de giz do apagador. Aqueles rastros eram sombras. O negativo de uma nuvem. Eram o sinal de que viria outro conjunto de expressões, outra salada de imagens. Viriam outras inversões.

Nunca compreendi ao certo a oposição entre “heterodiegese” e “homodiegese” – eram conceitos difíceis, que eu só entenderia se fosse menos bruto ou se estudasse um pouco mais –, mas entendi, de pronto, que aquele professor era canhoto, parecia rir enquanto fumava e descansava a mão direita, quase sempre, num dos bolsos do casaco. E era, de fato, como se estivéssemos ali, aquecidos e curiosos, à salvo da fumaça, num dos bolsos do casaco de Roland Barthes.

Nascido em Cherbourg, na França, em 1915, Barthes se tornou um dos mais importantes e influentes pensadores do século XX. Nos estudos de Comunicação, por exemplo, sua presença é absolutamente marcante. Faleceu em março de 1980, vítima de um atropelamento, na Rue des Écoles, em frente ao College de France, após o término de uma aula.

Em 2015, diversas atividades estão previstas e diversas publicações serão lançadas em comemoração ao centenário de seu nascimento. Não o conheci pessoalmente. Não tive o privilégio de ser aluno de Roland Barthes. Mas tive vários outros professores que me ensinaram a imaginá-lo.

Fabricio

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