Entrevista: Lloyd Kaufman, O CARA do cinema independente!

Stefano Pfitscher

lloyd-kaufmanEm termos de cinema independente, ninguém tem mais experiência que a Troma Entertainment. Fundada em Nova York no ano de 1974, a empresa é considerada a mais antiga produtora de filmes independentes do planeta e já foi responsável por mais de mil produções ao longo das últimas quatro décadas.

Os fundadores da empresa, Michael Herz e Lloyd Kaufman, que iniciaram suas carreiras influenciados pelos filmes exploitation de Roger Corman, ganharam fama produzindo fitas descompromissadas e extremas, no melhor estilo do chamado cinema B. Sem receio de mostrar sangue jorrando, cabeças explodindo e seios de fora, o estúdio teve seu primeiro grande sucesso em 1984, com o lançamento de O Vingador Tóxico, sobre um abobado faxineiro que cai em um barril de lixo tóxico e se torna um super combatente do crime. O filme já teve três seqüências e um desenho animado inspirado no personagem, além de uma premiada adaptação para a Broadway.

Ano passado, comemorando 40 anos da criação do estúdio, Lloyd Kaufman foi convidado para a décima edição do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o Fantaspoa, que exibiu clássicos da Troma como Class of Nuke‘em High (1986), Cannibal! The Musical! (1993) e Poultrygeist: A Noite dos Frangos Mortos (2006). Essa entrevista estava prevista para ser publicada na época, mas, por questões de logística, nunca viu a luz do dia.

Bom, antes tarde do que nunca!

Como obcecado pelo gênero – e fã pessoal de seus filmes – eu fui à abertura do evento, onde Kaufman fez uma sessão comentada de O Vingador Tóxico e decidi abordar o ator, diretor, roteirista e produtor. Em meio à uma multidão que entrava e saía da sala de cinema, e outra que demandava autógrafos e fotos nos inúmeros produtos da Troma à venda, Kaufman começou respondendo minhas perguntas timidamente, ainda sem entender o que de fato eu fazia com o gravador na mão. No entanto, ao longo da conversa ele foi percebendo (assim como eu) que meu inglês não era tão ruim quanto dos alunos da Open English e acabou mostrando o mesmo humor desmedido que imprime em seus filmes. Veja como foi a entrevista, que terminou com um de meus diretores preferidos me anunciando a todos os presentes como “um grande jornalista homossexual”:

Stefano: Como você entrou no mercado cinematográfico?

Lloyd: Bem, eu estudava na universidade de Yale e, por coincidência, meu colega de quarto era um crítico de cinema e estava administrando a Yale Movie Society. Ali eu comecei a assistir muitos filmes e peguei a febre do cinema.

Stefano: A Troma é conhecida pelos seus filmes violentos e explícitos, qual você acha que é o filme mais bizarro que vocês já fizeram?

Lloyd [em português]: Eu Adoro Bundas! [novamente em inglês] Não, eu acho que foi Um Terror de Equipe. Rerturn to Nuke’em High Volume 1 tem muitas coisas bizarras também.

Stefano: Como você se envolveu na produção de Rocky?

Lloyd: Quando eu comecei a fazer filmes na universidade de Yale, eu decidi trabalhar com um jovem e talentoso diretor, John G. Avildsen, que estava fazendo filmes de baixo orçamento. Cry Uncle, um de seus primeiros filmes, hoje é do catálogo da Troma. Então quando eu vi que ele era talentoso, eu decidi acompanhar suas produções. Quando John Avildsen e Stallone fizeram Rocky, eles queriam filmar na Filadélfia e a Troma já tinha toda uma equipe formada e disposta a trabalhar. A propósito, nós defecávamos em sacos plásticos, nós não tínhamos dinheiro. Então, nós fomos fazer Rocky na Filadélfia e foi nossa equipe que assumiu a produção porque nós não éramos ligados a nenhum sindicato e eles não tinham como arcar com esse tipo de custo.

Stefano: E os sindicatos não se importaram?

Lloyd: Eles se importaram sim. Após seis semanas, nós fomos expulsos da Filadélfia e tivemos que voltar para a Califórnia onde eles quebraram minhas pernas.

Stefano: Quais você acha que são as influências da Troma?

Lloyd: Sonia Braga, é claro! Não, Charlie Chaplin, Buster Keaton, Samuel Fuller, o grande Fritz Lang, todos os grandes cineastas autorais. Santiogo…

Stefano: Quem?

Lloyd [confere um papel com suas anotações]: Rodrigo Santoro! Não, o que aconteceu é que, quando eu era estudante, eu comecei a assinar a Cahiers du Cinéma e ali eu tive contato com os diretores que mudariam o jeito de se fazer cinema autoral. Tipos como Goddard, Truffaut e Chabrol eram críticos nessa revista. Depois eles iniciaram seu próprio movimento que culminou na Novelle Vogue.

Stefano: Você pode ser visto recentemente em um episódio da popular web série The Angry Video Game Nerd falando sobre o game de O Vingador Tóxico. Como você foi parar lá?

Lloyd: Bem, eu costumo aceitar convites para atuar em inúmeros filmes independentes. James Rolfe é um diretor muito talentoso e um grande fã dos filmes da Troma, então ele me convidou para participar de um episódio. Agora ele está terminando o filme do The Angry Video Game Nerd* e eu também tenho uma pequena participação no longa. Ah, e ele está em Return to Nuke ‘Em High Volume 2.

Stefano: O que está achando de Porto Alegre?

Lloyd: Pessoalmente é um lugar maravilhoso. É um porto alegre e eu gosto de portos gays. Sendo um homem casado e gay, eu acho fantástico. Fantaspoa é um grande festival para a arte independente. Não só para o cinema, mas para a poesia, música… e a Troma está completando 40 anos, é um grande momento para a empresa. O Vingador Tóxico está completando 30 anos e é muito importante estar aqui no Fantaspoa.

Stefano: Ainda no assunto, o que há pela frente para a Troma?

Lloyd: Primeiro eu vou estourar meus próprios miolos, eu estou tentando fazer isso, mas eu sou um covarde! Agora nós estamos filmando o volume dois de Return to Nuke ‘Em High. A Troma está expandindo e agora estamos produzindo um filme totalmente falado em português. Ele é chamado Mutant Blast e está sendo dirigido por Fernando Alle que fez os efeitos especiais para o primeiro Return to Nuke ‘Em High. Domingo à noite nós vamos mostrar alguns clipes dos bastidores aqui no festival. Fernando fez conosco Banana Motherfucker, que é um curta em português, e agora estamos produzindo seu filme em Lisboa. O orçamento é pequeno e nós estamos o produzindo em português porque, às vezes, nós fazemos nossos filmes e algumas pessoas ainda vão assistir, então temos certeza que ninguém vai assistir a esse porque ninguém fala português.

* The Angry Video Game Nerd: The Movie foi lançado no final de 2014 e está à venda no Youtube, com legendas em português.

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