Joe Satriani faz parecer que é fácil tocar

Vinícius de Macedo
guitarra em pé durante apresentação de joe satriani em porto alegreReza a lenda que Joe Satriani decidiu tornar-se guitarrista aos 14 anos quando em meio a uma partida de futebol americano ficou sabendo que Jimi Hendrix havia morrido. Formado na renomada Berkeley Music Institute e tendo entre seus alunos lendas como Kirk Hammet (Metallica) e Steve Vai, amigo com quem mais tarde criou o G3, Satriani admite: “Eu gosto de esconder a técnica e fazer o ouvinte pensar que é fácil tocar”.

E é exatamente isso o que foi possível perceber no seu show em Porto Alegre. A música de Satriani, apesar de poder ser identificada como rock, não é destinada a dançar, pular ou gritar. Pelo contrário, é um trabalho que nos retém, sendo ao mesmo tempo meticuloso e livre. Detalhado o suficiente para prender a atenção e livre o bastante para que não possamos notar seu vasto conhecimento técnico e teórico. Utilizando destes recursos antagônicos o guitarista cria histórias que de tão cativantes e fluídas impedem nós leitores de desgrudarmos os olhos do livro.

Satriani realizou alguns feitos especiais na carreiras, como nos encontros do G3, onde ele e Steve Vai fizeram apresentações com alguns dos músicos mais icônicos do mundo, incluindo John Petrucci (Dream Theater) e Yngwie Malmsteen, promovendo encontros históricos para os amantes da guitarra. Durante sua carreira “Satch” teve oportunidade ainda de acompanhar Mick Jagger em turnê solo, tocar com o Deep Purple e criar o supergrupo Chickenfoot, juntamente com Sammy Hagar, Michael Anthony (ambos ex-Van Halen) e Chad Smith (Red Hot Chili Peppers), este último, o único trabalho próprio não instrumental com o qual identificou-se a ponto de conseguir imprimir sua identidade assim como na carreira solo.

guitarra colorida em apresentação ao vivo de joe satrianiA música de Satriani é algo tão “Satriani” que ele sustenta uma carreira solo instrumental há 30 anos. Não é fácil reiventar-se e contar uma história nova a cada disco sendo que tudo depende de você. Ou seja, é preciso dominar o seu instrumento, mais do que isso, é preciso explorá-lo para além das possibilidades conhecidas, reinventar técnica e teoria para criar seu próprio jeito de tocar e fazer tudo isso parecer fácil. Não apenas fácil de criar ou reproduzir, mas fácil de entender. O nível de dedicação exigido pela música instrumental é sempre muito alto, mas é preciso evitar a armadilha de fazer música apenas para músicos. É preciso que todos entendam, mesmo que não saibam exatamente o que se esconde ali, mas que de uma forma ou de outra aquilo faça algum sentido para qualquer pessoa.

O intuito agregador de Satriani esteve presente em todo o show em Porto Alegre, já na segunda música puxou o público para si com o clássico Flying in a Blue Dream. A plateia sempre atenta e ansiosa pela próxima frase musical pode assistir a um Satriani generoso, dividindo os holofotes com os músicos de apoio em vários momentos, seja para performances individuais de baixo, guitarra, bateria e teclado, ou para ele próprio servir de base durante os solos dos músicos de apoio. E é nesse clima que Satch apresenta “Friends”, “uma música para dizer ‘oi’ para todo mundo”; seguida de “If I Could Fly”, cujo tema teria sido plagiado pelo Coldplay em “Viva La Vida”; e logo após, “Butterfly and Zebra”, uma curta e meiga homenagem ao amor entre um inseto e um mamífero, que mesmo sendo impossível não deixou de ser vivido.

show em porto alegre de joe satriani com baterista ao fundoA atmosfera especial surge nas primeiras notas de “Summer Song”, quando a plateia é totalmente absorvida pela música. Nesse momento, despido de todo e qualquer exibicionismo, o que se vê não é uma experimentação chata ou a virtuose pela virtuose através de notas sustentadas por infinitos compassos. Ao contrário, Satriani toca como quem escreve um livro, justapondo notas de forma fluente, movendo-se através do que ele próprio chama de escala linear, mantendo o público vidrado, ansioso pela próxima frase, pelo próximo capítulo, pelo próximo volume e pelo próximo show.

O trabalho de Joe Satriani é inspirador. A energia é impactante como uma lufada de ar que nos da tranquilidade em meio a uma crise de asma. Mas fazer o que ele faz não é fruto apenas de inspiração, demanda muito estudo também. Não basta ter uma boa ideia se você não sabe como colocar em prática. E para isso é preciso ter o máximo de referências possíveis, conhecer o que já foi feito, o contexto histórico em que foi feito, teoria musical, prática técnica, os equipamentos disponíveis e então esquecer tudo isso para criar a sua própria arte. Uma arte que seja ao mesmo tempo culta e democrática, tão elaborada quanto trivial, que seja original o suficiente para sustentar-se por três décadas e que amplie a visão de mundo das pessoas. A música de Satriani consegue tudo isso, consegue ser “Satch Boogie”.

Fotos por Gabriela Baum

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